David contra Golias: escolha o seu lado

Na mesma sala do Museu Bargello em Florença, separadas por uma distância de apenas cinco metros, há duas estátuas de David, ambas em bronze. A […]

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David contra Golias: escolha o seu lado

Na mesma sala do Museu Bargello em Florença, separadas por uma distância de apenas cinco metros, há duas estátuas de David, ambas em bronze.

A primeira delas é de Donatello, que desafia o status quo ao esculpir um David sem roupas – a retratação da nudez era proibida à época. Nela, o carrasco de Golias é apresentado como um adolescente pueril, com alusão às virtudes de coragem e humildade, claramente distante da noção de arrogância e força bruta.

Ao seu lado, está a escultura de Verrocchio, apontando um David triunfante. Ele está vestido, com a mão esquerda posta na cintura e a direita empunhando uma espada. Aos seus pés, está a cabeça do derrotado Golias, como um prêmio de ostentação pela vitória. É um David magnânimo e arrogante, tripudiando sobre seu adversário.

Eu não sei qual das versões corresponde ao “verdadeiro David” – se é que há uma. Difícil saber qual das narrativas descreve melhor a realidade. Às vezes, penso mesmo que essas coisas pertencem apenas ao viés do observador. Cada um pesa vícios e virtudes a partir do seu próprio ângulo.

A dificuldade aumenta porque a vida real não é tão maniqueísta assim. Estamos mais para 50 tons de cinza do que para a clivagem simples e fácil do bem contra o mal, do preto contra o branco, do magnânimo contra o discreto. A vida é a mais pura e, ao mesmo tempo, misturada ambivalência, um exercício contínuo de ponderação de forças antagônicas que convivem dentro da gente. Somos arrogantes e humildes de maneira simultânea. Livres e solitários (mesmo quando acompanhados), emotivos e racionais, cruéis e generosos, eternos enquanto duramos. “Solidão a dois de dia, faz calor, depois faz frio”, dando sequência à pegada Cazuza que me acometeu ontem.

Equilibramos diariamente Dionísio e Apolo, enfrentamos a necessidade de nos civilizarmos com a contrapartida do surgimento das neuroses, percorremos, como naquela pergunta de Eduardo Giannetti a Caetano Veloso no Roda Vida, “a trilha da conquista de uma ordem civilizada no Brasil, no trânsito, na política, na economia, sem perder nosso coração Iorubá, nossa alegria de viver, nossa espontaneidade”. E ainda nas palavras de Giannetti: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana”.

Tudo isso sem que alguém nos dite as regras do jogo. Vivemos num mundo que não entendemos, porque ele é mesmo ininteligível. Temos de decidir a todo momento num ambiente de incerteza, permeados pela aleatoriedade e pelas vicissitudes de uma realidade que insiste em ser não comedida. Como no final de “On the Road”: “(…) Simplesmente ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa além dos desamparados andrajos da velhice. Eu penso em Dean Moriarty, penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos. E penso em Dean Moriarty, eu penso em Dean Moriarty”.

Eu penso no Malcolm Gladwell. E penso no seu livro “David e Golias”. Desafiando qualquer intuição inicial, ali ele descreve como, na verdade, Golias nunca teve a menor chance contra David. Ele era pesado demais, lento, precisava encurtar a distância para enfrentar seu adversário e tinha sérios problemas de visão. David, por sua vez, era pequeno, mas muito ágil, habilidoso com o fundíbulo e com visão impecável – uma espécie de Chris Kyle das fundas, um verdadeiro sniper. Em várias situações, o menor está em vantagem sobre o maior.

Serve para o mundo dos investimentos também. Peter Lynch, por exemplo, é um grande defensor das vantagens do investidor individual sobre o profissional. Ele não precisa prestar contas pra ninguém, não sofre pressão dos clientes, não tem marcação a mercado publicada diariamente para sofrer gozação de seus pares, não enfrenta restrições de liquidez, não precisa passar sua decisão por 25 comitês de investimento diferentes e pode comprar qualquer ativo que quiser.

Se eu sugiro IMC (MEAL3), por exemplo, porque intuo que haverá um resultado fortíssimo da companhia no próximo trimestre e porque considero que a empresa vai se envolver num movimento societário, você, se quiser, pode imediatamente ir ao home broker e comprar um punhado dessas ações na hora. Se um grande gestor de fundo ouvir a mesma coisa, ainda que concorde com o racional, provavelmente vai dizer: “Muito obrigado, adorei sua ideia, mas não faz sentido pra mim. Se eu comprar 1 por cento do fundo disso, tomo 120 por cento do market cap da companhia. Não vale meu tempo de estudo”. (Obviamente, os valores são hiperbólicos, para demonstrar o ponto com mais contundência.)

Mas nem é esse o ponto central de hoje. Quero me ater às múltiplas representações possíveis (todas críveis) de uma mesma realidade. Mais especificamente, falo do comportamento das Bolsas internacionais nos últimos dias – flertamos com o bear market no exterior; foram seis quedas seguidas para Wall Street.

Os já famosos dois leitores assíduos desta newsletter talvez lembrem que, desde o começo do ano, minha maior preocupação vinha sendo o cenário internacional. Muito mais do que as eleições, para as quais sempre imaginei a migração do pêndulo político em direção à direita liberal, o comportamento das Bolsas externas era – e é – minha maior fonte de desconforto.

Sabe por quê?

Porque realmente vejo argumentos poderosos dos dois lados. Consigo penetrar a narrativa de que o sell-off recente é mero ajuste de desalavancagem e resposta às imperiosas prescrições dos modelos de VaR – a maior volatilidade sugere a necessidade de reduzir as posições de risco; a redução das posições de risco implica maior volatilidade e o ciclo vai se retroalimentando. Apesar do aumento dos juros de mercado, a economia norte-americana continuaria crescendo bem e não haveria muita pressão inflacionária por conta da disrupção tecnológica (inteligência artificial, computação em nuvem, machine learning, automatização/robotização) e de fatores demográficos. Assim sendo, depois do ajuste técnico, recuperaríamos a trajetória de alta.

Em contrapartida, também há pontos importantes do outro lado. A economia norte-americana está em plena utilização dos fatores de produção, rodando em pleno emprego, e Donald Trump continua injetando demanda no sistema, com uma política fiscal bastante expansionista. Conforme prescreve o livro-texto, o resultado disso, cedo ou tarde, seria inflação e aumento do déficit em conta-corrente. Em resposta, os juros teriam de subir de forma mais acelerada, causando recessão, menor interesse na renda variável e fluxo de recursos para mercados emergentes. Esse já é o segundo ciclo mais longevo de crescimento da economia dos EUA e todos nós sabemos do caráter cíclico das coisas.

As duas visões de mundo parecem pertinentes. Os que argumentam que desta vez é diferente (o pleno emprego não vai gerar muita inflação por conta da tecnologia e da demografia) têm seus pontos. E os críticos também alimentam seu ceticismo com a velha máxima de que sempre parece que desta vez é diferente.

Quem está certo?

Eu sinceramente não sei. E me desculpe, sem ofensas, mas eu acho que quem diz que sabe mente ou chuta. E a pior pessoa num contexto assim é aquela que acha que sabe. Não ter mapa é melhor do que carregar um mapa errado.

Mas o mundo pertence aos praticantes. O que fazer num cenário assim? Essa me parece a pergunta certa. Eu só respeito mesmo aqueles que realmente fizeram ou estão fazendo algo da vida. Não os platônicos, que têm opiniões sobre tudo e, na verdade, nunca enfrentaram os reais trade-offs do dia a dia. Mesmo sem saber o que vai ser de Wall Street, só temos dois botões à nossa frente: comprar e vender. Qual a gente aperta?

Eu vejo a coisa da seguinte forma: cedo ou tarde, Wall Street vai passar por uma correção pesada. Faz muito tempo que esse negócio vem subindo. E você precisa estar preparado para isso. No final, entendo que o início da recuperação cíclica no Brasil vai acabar prevalecendo, naquilo que tenho chamado de bull market estrutural, iniciado em janeiro de 2016. Vamos numa onda grande até 2020/21. É a isso que você deve se apegar, sabendo que no meio do caminho haverá uns momentos tenebrosos. Não se alavanque, não se desespere, não concentre demais suas posições. Não entre em pânico quando os outros entrarem em pânico. Encare as grandes correções como uma oportunidade de reforçar suas posições em meio a uma tendência estrutural maior.

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