De 7 bilhões de macacos, um escreveria Os Lusíadas

“Eu retornei da Coreia em 1969, juntei-me novamente à Fidelity como um empregado efetivo, na posição de analista, e o mercado de ações prontamente despencou. […]

Compartilhe:
De 7 bilhões de macacos, um escreveria Os Lusíadas

“Eu retornei da Coreia em 1969, juntei-me novamente à Fidelity como um empregado efetivo, na posição de analista, e o mercado de ações prontamente despencou. (…) Em maio de 1977, eu assumi o comando do fundo Fidelity Magellan.

O fundo possuía 20 milhões de dólares em ativos. Havia 40 ações no portfólio e, Ned Johnson, o chefe da Fidelity, recomendou que eu reduzisse esse número para 25. Eu o ouvi, educadamente, e, então, saí e aumentei o número para 60 ações; 6 meses depois, para 100 ações, e logo depois disso, para 150 ações. Eu não agi dessa forma para contrariá-lo, o fiz porque, quando via uma pechincha, não resistia a comprá-la; e, nessa época, havia pechinchas por todos os lados.

O receptivo Ned Johnson me vigiava de uma certa distância e me estimulava. Nossos métodos eram diferentes, mas isso não o impediu de aceitar os meus – contanto que eu estivesse obtendo bons resultados.

Meu portfólio voltou a crescer ainda mais (…)

Logo depois, me tornei conhecido como o Will Rogers das ações, o homem que nunca viu uma ação de que não gostasse. Sempre me fazem umas piadas sobre isso na Barron’s – ‘você pode dizer o nome de uma ação de que Lynch não goste?’ Uma vez que agora tenho 1.400 empresas diferentes, eu suponho que eles estejam certos.”

Com a trégua de ontem dos mercados, ainda que não faça ideia de até quando dura o armistício, posso assinalar as armas e os barões para o método. De novo, a questão da concentração contra diversificação; e do quanto sabemos contra o quanto não sabemos sobre o mundo.

Por mares nunca dantes navegados, em perigos e guerras esforçados, falo de metodologia só porque isso pode mexer com seu bolso.

As memórias gloriosas narradas entre aspas no começo desse texto são de Peter Lynch, o gênio à frente do mitológico fundo Magellan. Lendo as palavras, percebo que algo potencialmente tenha escapado a Lynch – talvez ele tenha se dado conta, claro, porque, uma vez identificado, não é lá muito sofisticado; uma vez que as ideias aparecem elas são sempre muito óbvias e triviais. Se foi o caso, porém, de ter percebido esse “algo”, não redigiu.

Peter Lynch parece acreditar que os bons resultados, aqueles que permitiam manter-se mais longe da vigilância implacável do chefe, Ned Johnson, deviam-se basicamente à sua habilidade em selecionar pechinchas, seus “famigerados tenbaggers” (ações que podem se multiplicar por 10x), aquelas que Max Bohm persegue em sua série  Microcap Alert.

Não nego a proeza. Lynch era mesmo ótimo em identificar esses ativos com capacidade de se multiplicar por n vezes. Mas talvez haja um outro fenômeno aqui – e nada tem a ver com uma habilidade especial. É a simples aplicação da aritmética.

Pense comigo. Sem fazer nenhuma hipótese sobre como o mundo funciona, se os mercados são eficientes ou não, se os gestores são competentes ou não para selecionar ações que vão subir mais do que a média. Nada disso. Esqueça todas as suas opiniões e crenças, deixe seu ego de lado e entre na discussão realmente disposto a encontrar a verdade, em vez de querer provar seu ponto. Estamos na Tábula Rasa de John Locke, nascidos sem conhecimento algum.

Se um macaco comprasse 1.400 ações, conforme fez Peter Lynch, o que deveria acontecer com seu portfólio depois de passados alguns bons anos?

Provavelmente, um bocado iria bastante mal, levando seu investimento a zero. Perda de 100% de seu capital investido nessas ações. Outra parcela ficaria mais ou menos na mesma, famosa meia boca. E restaria um pedaço que iria muito bem, mas ir muito bem não significa ganhar 100%; uma ação nunca cai mais de 100% (por conta da lei de responsabilidade limitada), mas pode se multiplicar por 2, 3, 10, 20, 100x.

Ao diversificar seus investimentos em ações, você aumenta exatamente sua chance de pegar uma dessas “supermultiplicações”. Era justamente o que Peter Lynch estava fazendo. Como focava casos um pouco mais exóticos, abaixo do radar, as chances de ir aos extremos (perder 100% ou multiplicar por n vezes) eram ainda mais interessantes.

Isso nada tem a ver com uma habilidade especial de selecionar ações, entende meu ponto? Apenas é o que é, sem que você precise formular hipóteses pasteurizadas de como seria ou sobre as competências particulares desse ou daquele super-herói.

Peter Lynch estava apenas usando aquilo que as ações têm de melhor em essência, a capacidade de subir muito mais do que podem cair, a seu favor, sendo que, talvez, nem ele mesmo tenha percebido.

Pra mim, todo portfólio deveria ser construído por meio de uma perseguição de características como essa, com exposição a coisas que podem subir mais do que podem cair, de forma diversificada.

A preocupação deveria estar muito mais na matriz de retornos potenciais de sua carteira, do que propriamente na descoberta de qual ativo vai subir ou vai cair ex-ante. Isso exige uma habilidade especial de conhecer o futuro que somente os búzios, o tarô, as bolas de cristal e a Faria Lima e o Leblon podem lhe oferecer.

Se eu tivesse de escolher uma única coisa que eu gostaria que os leitores da Empiricus incorporassem, seria: X não é F(x). X é o mundo à sua volta, que você nunca vai poder controlar; F(x) é a matriz de retornos potenciais de seu portfólio, que reage ao mundo à sua volta – controlar seu perfil de retornos é muito mais fácil.

Filosoficamente, é a diferença entre os talebianos e os aristotélicos. Matematicamente, é a Inequação de Jensen ([F(x+d(x)+F(x-dx)/2 > F(x)]) – a combinação linear de dois pontos de uma função é sempre maior do que um ponto na função em si; uma curva convexa, exponencial, por exemplo.

Eu conheci o Nassim Taleb pessoalmente usando uma camiseta justamente com os dizeres “X não é F(x)”, que havia ganhado de um de nossos assinantes. Ele, que fala várias línguas, mas não o português, perguntou o que era e eu expliquei. Ao que ele respondeu: “You’ve got the whole point”.

Mercados iniciam a quinta-feira um pouco mais tensos por aqui, depois de bons ganhos na véspera e diante de queda das commodities no exterior. A incerteza em torno das eleições não ajuda, nem a expectativa pelo simpósio de Jackson Hole, que pode dar diretrizes sobre futuro da política monetária nos países desenvolvidos.

Agenda local traz IPC-S, dados de arrecadação e IPCA-15. Nos EUA, além de Jackson Hole, temos PMI/Markit, vendas de casas novas e dados de auxílio-desemprego. Na Zona do Euro, saem ata do BCE e PMI Markit.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,4%, juros futuros e dólar sobem.