De olhos bem fechados

Se mantenho algum otimismo com os ativos brasileiros para médio e longo prazo — sim, continuo construtivo —, é simplesmente porque a situação atual é péssima.

Compartilhe:
De olhos bem fechados

Faço três coisas bem nesta vida: jogar pingue-pongue (ainda lembro daquele inesquecível vice-campeonato no Hotel Cabreúva, 1996; rival chinês na final é covardia), atravessar rua sem semáforo e andar no escuro — juntando as duas últimas, acho que seria capaz de cruzar o Arco do Triunfo de olhos vendados, vapt-vupt. Bebo uns bons goles também, mas essa habilidade prefiro guardar em segredo com os dois leitores desta newsletter.

Talvez seja essa capacidade de caminhar na escuridão que não me deixe tão preocupado assim com as eleições. Também não estou tão animado, fique claro — ou escuro, sei lá. Acho que precisamos nos acostumar a caminhar no desconhecido, perante um futuro opaco e sem luminosidade. Mais importante é transitar mesmo nessa escuridão, apropriando-nos da luz da razão enquanto blindamo-nos das paixões mais claras.

De olhos vendados, uso o tato, ajudado também pelo cheiro da intuição treinada, para guiar-me até outubro, com uma combinação sinestésica de dólar e Bolsa. Isso já foi falado. Apenas repito a estratégia. Quero avançar um pouco na questão das eleições.

Se eu tirasse a venda, veria 50 tons de cinza, em vez de um cenário binário entre preto e branco — serei acusado de preconceituoso e segregacionista por essa frase?

Por que eu não estou tão preocupado assim e ainda vejo uma matriz de payoff razoável para a combinação dólar e Bolsa?

Sem muitos apriorismos, temos cinco candidatos com chances, certo? Bolsonaro, Marina, Geraldo, Ciro e Haddad, ok? Estou tirando o Lula à espera de sua impugnação amanhã no TSE, ainda que o jogo só termine mesmo no STF. Mas podemos conviver com essa premissa. Também não vejo Alvaro Dias com chances materiais. E fico muito feliz em ver o João Amoêdo crescendo nas pesquisas e os rumores de que seus trackings internos o apontariam empatado com Haddad — no entanto, sou careca e velho demais para acreditar em finais felizes.

Podemos ter Bolsonaro, que pode ser bom ou ruim para os mercados. Ninguém sabe. Mas me parece haver uma chance bem razoável de ao menos uma lua de mel inicial. “Ah, mas o que faríamos depois dessa lua de mel, sabendo que ele não é, de fato, liberal?” Daí a gente pensa lá na frente. Não dá para fazer o segundo gol antes do primeiro.

Marina também é uma caixa-preta. Pode ser bom, se adotarmos um regime de co-CEOs (Giannetti e André Lara). Pode ser ruim, se ressuscitarmos os fantasmas de seu passado.

Note que estou usando “bom” e “ruim” aqui no sentido financeiro, para altas e baixas do mercado, respectivamente.

Geraldo seria, ao menos num momento inicial, necessariamente bom.

Ciro e Haddad seriam necessariamente ruins num primeiro momento. Mas, então, os preços se ajustariam e a agenda acabaria se impondo.

Nada é tão ruim quanto querem pregar os mais pessimistas — o dólar dispara, a inflação voa e o problema fiscal se resolve via senhoriagem e via lucro para o Tesouro de sua posição em moeda estrangeira.

Nem tão bom quanto apregoam os maniqueístas finais da Sessão da Tarde. Não temos vocação nem para Bollywood, imagina Hollywood… Bolsonaro, em essência, é um nacional-desenvolvimentista e dificilmente seguirá à risca a cartilha integral de Paulo Guedes. Geraldo Alckmin também não faria todas as reformas que promete, porque o próprio Centrão vai engoli-lo pelo seu fisiologismo e pela obediência às corporações.

O Brasil sempre foi e deve continuar sendo essa mediocridade, com seu caráter macunaímico (um candidato preso lidera as pesquisas; parece normal, mas olhe com perspectiva — cada povo tem o político que merece, e vice-versa) e sua complacência de sempre.

Se mantenho algum otimismo com os ativos brasileiros para médio e longo prazo — sim, continuo construtivo —, é simplesmente porque a situação atual é péssima. Devemos regressar à média depois da mais brutal recessão da história, simplesmente porque um bom parasita (e você precisa reconhecer que o MDB e todo o Centrão são uns parasitas bons pra caramba!) nunca mata o hospedeiro. Se caminharmos para uma Venezuela ou Argentina, não vai ter mais teta para nego mamar.

Essa é minha visão macro da coisa, ainda que me falta a capacidade de enxergar no escuro. “Alone in the Dark” já investigava casos sobrenaturais e bem surreais, mas pode se transportar dos jogos eletrônicos para esse Brasil de meu Deus.

De olhos bem fechados, mas já com um plano macro bem definido, podemos adentrar a floresta e perseguir soluções orgânicas para nossos problemas de saúde financeira. Vamos ao micro hoje vasculhar potenciais alternativas.

Três coisas para abrir o olho:

i. Grupo Victor Malzoni vendeu 1.489,84 m² de área privativa no 4° andar do Pátio Victor Malzoni para a República Federal da Alemanha por 65,2 milhões de reais. Isso dá 43,8 mil por m². Foi caro à beça. Sei lá a razão. Tem gente que sempre aponta uma bola por fora para a camarada da embaixada, outros dizem se tratar somente da vingança de um corretor que pegou os alemães desavisados. Ah, melhorou agora: 7 a 2! Estou aqui no prédio: fisicamente, das 7h às 17h; às vezes, aos sábados também. De alma, moro aqui 24×7. Com a ajuda do Daniel Malheiros, que também mora espiritualmente 24×7 e é o melhor profissional de fundos imobiliários do Brasil (pergunte a quem conhece o setor de fato), acho que vale algo como 30 mil por m². Sem querer estressar muito o caso, pensando rapidinho em custo de reposição: construção de 6 mil/m² de área privativa; Cepac em torno de 8 mil/m². Chutando alto, terreno, que é o mais difícil de achar na Faria Lima agora, uns 15 mil/m². Você chega ali beirando os 30 mil/m². Já meio puxado, mas vamos lá. Resumo da história: pode ser um deal isolado, pelas mais variadas razões, ok. Porém, a negociação privada saiu muito, mas muito, acima do que seria múltiplos correntes em Bolsa dos fundos de lajes. Seja lá como for, apenas mais um reforço do quão atrativo e ainda mal explorado é o segmento de FIIs em Bolsa. Está aí outro nicho ao qual você deveria ganhar exposição imediatamente.

ii. Ainda no setor imobiliário, mas entrando no lado feio da história, Gafisa pra mim é um short (venda) clássico. Não me surpreenderia com outro aumento de capital ali, com restrições de liquidez se impondo. Pior é a disputa societária, com desespero dos dois lados da briga. De um lado, a gestora GWI, que dispensa apresentações. De outro, a própria gestão atual de Gafisa, comprando espaço publicitário no jornal para se defender do avanço da gestora. Não pode sair coisa boa daí.

iii. Agora voltando ao tema de diferença de múltiplos entre os negócios privados e aqueles cotados em Bolsa, temos visto algo assim no setor de utilities também (eu até poderia falar dos shoppings, chamando atenção para Sonae e Aliansce), mas quero falar mesmo é das taxas internas de retorno de transmissoras (Alupar é minha favorita) quando comparadas àquelas vistas nos leilões de transmissão. Se há uma oportunidade de arbitragem no mercado, pra mim, é essa.

Mercados iniciam a quinta-feira em tom predominantemente negativo, acompanhando comportamento das bolsas internacionais e digerindo nova pesquisa eleitoral.

Lá fora, voltam a pesar questões geopolíticas, em meio a negociações truncadas em torno do Brexit e à preocupação com situação comercial entre EUA e China, que pediu a Donald Trump que recue da intenção de colocar novas tarifas sobre outros produtos chineses.

Por aqui, pesquisa DataPoder360 trouxe poucas novidades, mesmos percentuais de sempre, basicamente.

Agenda é importante hoje, com PCE, principal medida de inflação nos EUA, e dados de consumo e renda dos norte-americanos. No Brasil, IGP-M apontou alta de 0,8% em agosto. Temos também desemprego da PNAD, resultados fiscais do governo central e nova prévia da carteira teórica do Ibovespa. Siderúrgicas estão no foco, após decisão de Trump de excluir Brasil, Argentina e Coreia de barreiras do aço.

Ibovespa abre em baixa de 0,6%, dólar e juros futuros sobem.