Democratize primeiro; critique depois — Aula prática de convexidade

“Se meus detratores me conhecessem melhor, me odiariam ainda mais.” Nassim Taleb Na quarta-feira passada, almocei com a Luciana Seabra e um brilhante ex-diretor […]

“Se meus detratores me conhecessem melhor,
me odiariam ainda mais.”

Nassim Taleb

 

Na quarta-feira passada, almocei com a Luciana Seabra e um brilhante ex-diretor da B3, da época em que ainda era B1. Cabelos brancos, alma jovem, cabeça privilegiada.

Ele disse assim, ipsis verbis (a Lu não me deixa mentir sozinho): “Foi um golaço vocês terem trazido a Angela Bittencourt. Se a Angela for na Bolsa, nego estende tapete vermelho pra ela. Quer dizer, a atual diretoria não sei. A turma é nova. Mas se o Edemir vir a Angela, ele para tudo que está fazendo e vai falar com ela. A Angela é uma instituição na Bolsa. Ela ensinou o mercado a operar DI, quando ninguém sabia direito o que era isso. Tanto que ganhou da Bolsa uma jaqueta de operador com o nome dela — e ela nunca foi operadora, claro.”

Então, pedi pra Angela contar essa história. Mais do que isso, para elucidar a dinâmica e a evolução dos mercados futuros por essas bandas. Num primeiro momento, ela resistiu. Desviou o assunto. Falou que não se lembrava, que nem era tão importante assim. No final, topou. No final, ela sempre topa — diz que tem medo de mim; não conta pra ela, mas é recíproco.

Fui saber depois que a tal jaqueta foi roubada num assalto. As vestes se foram, os conhecimentos ficaram.

Abaixo, você encontra uma aula sobre mercados futuros, quase um documento histórico. Como desdobramento, quem sabe a B3 não se anima em lançar minicontratos de DI. Seria um golaço e ajudaria nessa nossa jornada de democratização de outros instrumentos financeiros para a pessoa física — brevíssima digressão: Bettina será responsável por quantos novos cadastros na B3?

Então, bora lá. Depois do texto da Angela, eu escrevo as rotineiras bobagens do dia.

ANTES DE IR À PRAIA, PASSE NA BM&F

Em dezembro, é batata! Não importa se a mulher do tempo diz que o verão vai ser chuvoso, com raios e trovoadas, as crianças querem ir à praia. Mas esse momento-delícia não sai de graça. A gente paga literalmente um pedágio, além daquele da estrada, claro. Minha esposa não arreda os pés de casa antes do “amigo oculto” e da ceia do Natal, que a minha sogra quer que este ano seja (de novo!) lá em casa. Você acha que estou colocando o carro na frente dos bois porque o Natal está longe? Não estou, não. Já, já é fim de março e estará na hora de planejar as despesas do fim do ano. E como você sabe, a despesa não é pouca. A família é grande. Não do meu lado! Mas tenho um bando de cunhados, cunhadas, sobrinhos e agregados… E tem as férias na praia…

Quem nunca passou por esse aperto e agradeceu aos céus por ter aquele dinheiro guardado num fundo de renda fixa para emergências? Aquela aplicação básica em título público ou privado que quebra o maior galho?

Não sei se você sabe, mas esse dinheiro aí, que até pode parecer pequeno, é protegido por uma engrenagem para lá de sofisticada, que existe em vários países do mundo, e, no Brasil, foi criada há 30 anos: o mercado futuro de juros.


Leitura recomendada

Luciana Seabra mostra como lucrou (e ajudou os leitores a lucrarem) muito com ações sem precisar comprar ações. Ela ensina os assinantes da sua séria a investirem da mesma forma que os maiores investidores profissionais do mercado financeiro. E tudo depende de uma simples atitude, que pode te mostrar esse novo mundo de rentabilidade em menos de 24 horas. Veja aqui o recado que ela gravou.


É nesse mercado que se calcula quanto se pode ganhar com uma aplicação financeira ou quanto vai custar o crédito no fim deste ano, do próximo ou em 2030, quando você poderá estar se casando ou à espera da cegonha.10

O mercado futuro de juros ou de depósito interfinanceiro (DI), como é mais conhecido, é uma ajuda e tanto para prever despesas, além do retorno de investimentos. É muito útil, mas teve um parto demorado. Nasceu só em 1991, cinco anos depois da estreia da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F).

Nem sei se você já tinha nascido. Em 1986, o meu segundo filho, o Júlio, aquele que guarda dinheiro no pote de vidro na cozinha, tinha 1 aninho. Tenho certeza de que a vida dele e também a sua têm sido influenciadas pelos mercados futuros.

Ao longo dos anos, esses mercados que ajudam a antecipar preços foram uma mão na roda para o governo. Eles contribuíram para que muitas medidas anunciadas valessem na prática. Serviram até para que algumas decisões – e a insegurança por elas provocadas – não atrapalhassem demais os brasileiros.

Três décadas se passaram e, hoje, tanto a Bovespa quanto a BM&F são segmentos da B3. A primeira negocia ações no mercado à vista e, a segunda, contratos futuros (também chamados de derivativos) de ativos financeiros ou produtos.

Parece esquisito, mas no mercado futuro é rara a possibilidade de se comprar alguma coisa e levar para casa porque ali se negocia o quanto algo pode custar dentro de alguns meses ou até anos – no futuro.

A B3 fica em São Paulo e é tratada como uma Bolsa, embora ela seja mais que isso.

Batizada com 3 “Bs” — B de Brasil, B de Bolsa e B de Balcão —, a B3 é uma das principais empresas de infraestrutura de mercado financeiro no mundo. E atua na criação e administração de sistemas de negociação, compensação, liquidação, depósito e registro para ações, taxa de juro, títulos de empresas, moedas e mercadorias.

A B3 surgiu no formato atual em 2017, após a fusão entre a BM&FBovespa e a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip). A BM&FBovespa nasceu quase dez anos antes, em 2008, como resultado de outra fusão: a da Bovespa com a BM&F.

O Índice Bovespa, o mais conhecido do mercado acionário brasileiro, ganhou uma cópia quando a BM&F começou a funcionar, em janeiro de 1986. O Ibovespa Futuro — irmão do índice à vista — tornou-se uma estrela. Naquele momento, era visto como um ativo moderno, mas o volume nele movimentado não teve o crescimento exuberante do contrato futuro de DI, que explodiu a partir de 1994, com o Plano Real.

Os contratos de DI derraparam muitas vezes até engatarem a primeira marcha. Ora batiam de frente com a inflação em sua espiral ascendente, ora desentendiam-se com a moeda nacional, que mudou de identidade mais de uma vez em pouco tempo até ser criado o real (que vale até hoje). Essa aí que você deve ter na carteira… Assim espero!

No Brasil, um país onde o governo era e é o maior tomador de dinheiro de investidores e com um histórico de inflação gigante na maior parte de sua história econômica, o sucesso do contrato de juro era certo. Esse mercado ganhou tração e tornou-se o mais negociado na B3.

Para dar uma ideia da dimensão desse mercado sobre os demais, em um único dia da semana passada a BM&F movimentou um total de 254 bilhões de reais (67 bilhões de dólares). Nesse dia, os contratos de DI responderam por 176 bilhões (46 bilhões de dólares) e o Ibovespa Futuro por 13,7 bilhões de reais (3,6 bilhões de dólares).

O receio de que o mercado futuro de DI possa encolher ou ser de alguma maneira prejudicado porque a inflação brasileira hoje é incomparavelmente menor que a dos anos de 1980 e 1990 é uma bobagem, afirma o administrador de um importante fundo de investimentos com quem conversei na semana passada.

Avesso a entrevistas, esse executivo prefere manter o anonimato, mas disse acreditar que a estabilização dos preços tende, inclusive, a aumentar o volume de negócios com juros futuros. Isso aconteceu em outros países que tiveram períodos de inflação alta e que também viveram processos bem-sucedidos de estabilização.

“O mercado de juros é o mais importante do mundo. E os contratos futuros não servem apenas aos aplicadores que querem estimar o quanto vão receber de juro real no vencimento de operações. O futuro de juro serve para que se faça ‘hedge’ de operações de crédito”, lembra o meu interlocutor.

Não tenha dúvida, portanto, que os mercados futuros continuarão a ter influência sobre sua vida, tenha você a idade que tiver. Outros contratos poderão ser criados, inclusive na BM&F para atender às necessidades do investidor pessoa física.

Essa é a expectativa do meu colega aqui da Empiricus, Luiz Rogé, que é um especialista em renda fixa.

Você deve saber quem é o Rogé. Ele trabalha aqui há muito mais tempo que eu, que comecei dez dias atrás, e é muito respeitado por quem entende (e muito) sobre taxa de juro.

Leia abaixo a sugestão de Luiz Rogé sobre o ativo que pode ser criado pela BM&F.

O MINICONTRATO QUE FALTA NA PRATELEIRA

A B3 negocia há muitos anos, e com bastante sucesso, o minicontrato futuro de índice Ibovespa, em que cada ponto de oscilação do índice resulta em uma variação de 20 centavos frente a 1 real do contrato padrão. É um contrato voltado para o pequeno investidor pessoa física.

Na mesma linha, a B3 também negocia o minicontrato futuro de dólar, que tem um tamanho de 10 mil dólares, cinco vezes menor do que o contrato padrão de futuro de dólar, que é de 50 mil dólares.

Dá para notar por esses dois exemplos que a B3 procura adequar o tamanho dos minicontratos futuros, ou o valor em reais de sua oscilação, ao porte da pessoa física para viabilizar a sua entrada no mercado.

Dessa forma, ela consegue dimensionar a capacidade financeira do pequeno investidor (ou especulador) ao seu mercado de seu interesse, tornando possível que ele venha a se utilizar desse mercado da mesma forma que o grande investidor (ou especulador) o faz.

No entanto, acredito que falta para a B3 lançar um ativo muito importante: o de minicontrato de DI, mercado onde se negocia o futuro de taxas de juros.

Atualmente, esse mercado só é acessível aos grandes investidores (bancos, investidores institucionais como fundos de investimento, seguradoras, etc.), dado o tamanho de seu contrato padrão, que é de 100 mil reais de valor de resgate, na data de seu vencimento.

O contrato futuro de DI funciona como uma “aposta” entre duas pessoas na qual , de um lado, tem uma pessoa que aposta na queda da taxa de juros prefixada, e do outro, existe alguém que aposta no contrário — na alta dos juros até a data de vencimento do contrato.

Importante lembrar que esse é um jogo controlado pela B3, que garante todas as operações. Assim, quem obteve ganhos nas operações realizadas com os futuros recebe o valor que ganhou, e quem sofreu perdas paga o prejuízo sofrido.

Por isso dizem que o “mercado futuro é um jogo de soma zero”, pois o valor ganho por uma pessoa corresponde exatamente à perda sofrida pela outra, a sua contraparte na “aposta”.

Por fim, com os minicontratos de DI seria possível viabilizar para a pessoa física muitos tipos de operações, especulativas ou de proteção (hedge) de suas aplicações. Dessa maneira, a existência desse mercado iria possibilitar, com certeza, uma gestão mais eficiente do patrimônio de renda fixa dessas pessoas.

 

E o Ibovespa, enfim, rompeu a barreira dos 100.000 pontos, atingiu a máxima de 100.038 pontos, mas escorregou e fechou a segunda-feira aos 99.993 pontos. Essa cotação convertida pela taxa de câmbio corresponde a 26.237 pontos e está 41 por cento abaixo do recorde do Ibovespa em dólar, 44.616 pontos, alcançado em 19 de maio de 2008. Em moeda local, o índice estava em 73.438 pontos. No embalo positivo das Bolsas aqui e no exterior, o dólar caiu abaixo de 3,80 reais. Do segmento de juros não se deve esperar volatilidade expressiva porque operadores e analistas já estão em contagem regressiva para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic, nesta quarta-feira, e do Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve (Fed) – o Banco Central dos EUA.

Angela Bittencourt

Adilson chega ao escritório estampando Gene Simmons na camiseta. O contraste entre a tinta branca predominante no rosto da estampa, com o vermelho da língua de fora sangrando e o preto da própria camiseta chama atenção. Sorrateiramente, ele espalha por aí que Felipe Miranda copia sua moda de vir vestido de camisa de banda de rock, como se ele, Adilson, esse grande vigarista, fosse um trend setter. É mentira, claro.

Felipe, o verdadeiro homem por trás da tendência indumentária, logo lembra do Dinasty, mais precisamente de “Sure Know Something”. A imagem do gelo seco saindo por detrás do baixista, com sua máscara de demônio, o clássico baixo em forma de machado e as unhas pintadas de preto forma-se em sua cabeça, somando-se sensorialmente à voz aguda da estrela Paul Stanley: “I’ve been a gambler but I am nobodies fool” — contrariando a noção tipicamente dada à palavra (os vocábulos gozam de larga elasticidade semântica no mercado financeiro), eu adoraria ser chamado de “apostador” (gambler).

Sabe por quê? Porque, pra mim, a única forma possível de se fazer dinheiro, tanto como empreendedor quanto como investidor é por meio de várias apostas com retornos convexos. O resto não existe. Puro mimimi, cientificismo disfarçado de ciência. Quanto mais elegante, mais convincente — e técnicas convincentes são as mais perigosas. Você acha tudo muito sofisticado; então, seu interlocutor, inventor da tal técnica, pode convencê-lo do que quiser.

Por apostas com retornos convexos me refiro a decisões tomadas ex-ante sobre as quais não se pode determinar o resultado final específico. Pode-se apenas enxergar uma matriz de payoffs (várias possibilidades de retornos futuros, ponderadas pelas respectivas probabilidade de ocorrência) e, a partir daí, selecionar a alternativa com assimetrias convidativas. Em outras palavras, se ganho muito no cenário positivo e perco pouco no caso negativo, a aposta vale a pena (consideradas as probabilidades associadas, claro).

Isso é um resumo da minha vida. Aplico essa abordagem, filosófica ou pragmática, sei lá, sobre o “caso Bettina”. Essa é a última vez que tratarei do assunto aqui. A série continua em todos seus detalhes para aqueles que estiverem cadastrados na lista de interessados. Basta clicar aqui para sua inscrição totalmente gratuita. O texto de hoje empresta o fenômeno Bettina para uma espécie de manifesto de “no que acreditamos”, além de servir para esclarecimentos finais sobre o assunto. Depois, o Day One vira a página. Tópico encerrado.

O que eu, Felipe, acho que aconteceu com Bettina para que ela pudesse multiplicar seu capital em Bolsa? Tento responder à pergunta sob uma perspectiva ontológica.

A primeira coisa que me vem à cabeça: ela deu sorte. Isso precisa estar claro. Retornos como os apurados por ela são raros, exceções à regra e não devem se repetir com frequência. Não subestime o poder da sorte e da aleatoriedade em ambientes de incerteza e estocasticidade. Estamos no Quarto Quadrante de Nassim Taleb e competência é apenas uma parte do processo. Deusa Fortuna escolhe seus próprios vencedores. Se você colocar sete bilhões de macacos em frente a um computador por bastante tempo, um deles vai escrever Os Lusíadas. A probabilidade de Warren Buffett ser um multibilionário pela mera imposição de forças aleatórias é baixíssima. Mas a probabilidade de haver um multibilionário qualquer no mundo pela mera imposição de forças aleatória é igualmente (em módulo) alta. Essa inversão escapa à muita gente. Isso não invalida a genialidade de Buffett, obviamente.

“Ah, então foi só sorte?” Não. Claro que não. Bettina investiu criteriosamente em small caps selecionadas pela equipe de especialistas da Empiricus (sim, é verdade; ela e seu pai eram assinantes). E, sim, Bettina é uma privilegiada intelectualmente — essa é sua maior herança.

Deliberadamente ou não, acabou se aproveitando da característica que, na minha opinião, é a maior virtude das ações: convexidade (de novo ela). Insisto no ponto mais uma vez: o pior mal que pode acontecer-lhe ao comprar uma ação é perder 100 por cento do capital ali aplicado; e o maior bem pode ser multiplicar seu dinheiro por infinitas vezes (não há limite de alta). É uma assimetria convidativa, entende?

Pense um investidor sem nenhuma inteligência que compra 100 ações. O que deve acontecer, aleatoriamente, a esse sujeito depois de 50 anos? Sei lá, mas imagino algo como 1/3 vira zero (perda de 100 por cento do capital investido em cada uma dessas ações), 1/3 fica ali no zero a zero, e 1/3 vai muito bem, se multiplicando por várias e várias vezes. O 1/3 muito positivo mais do que compensa o 1/3 muito negativo e o investidor sai vencedor em termos líquidos, tendo se aproveitado da tal assimetria convidativa entre perdas e ganhos potenciais.

Essa mesma assimetria beneficiou fortemente a celebridade milionária de 22 anos, que se beneficiou, por exemplo, de supermultiplicações como aquelas apresentadas pelas ações de Rumo, Banco do Brasil, Ferbasa, Springs, entre várias.

Outro ponto importante a se observar no “caso Bettina” (está meio Cidade Alerta isso, né? Ah, se for pra fazer um Thriller brasileiro, eu queria logo era produzir um filme do Celso Daniel; já pedi até pro Paulo Lemann levar a ideia pro Zé Padilha, tenho roteiro na cabeça bonitinho): como as coisas na vida, e aí se inserem os retornos em Bolsa, que, como qualquer outra situação, fazem parte das “coisas da vida”, não são lineares. A vida da Bettina era completamente diferente há 10 dias, quando tinha 260 mil seguidores a menos no Instagram. Subitamente, boom! Um caso clássico de Ponto de Virada do Malcolm Gladwell, de Contágio do Jonah Berger, de Teoria do Caos, até mesmo de Cisne Negro (ou talvez cinza) ou de um exemplo canônico de fenômeno exponencial.

Essa mesma dinâmica vale para o comportamento dos ativos financeiros. A trajetória não é linear, gradual e bem comportada. As coisas vão caminhando a passos de formiga sem vontade, às vezes ficam paradas por muito tempo. Até que, de súbito, acontece um evento que muda tudo. Aquela tal ação se multiplica por 3x do nada. Veja agora mesmo: BTG, Banco Pan, PetroRio, CSN. Alguém poderia imaginar uma variação dessa magnitude e nesta velocidade? Evidentemente, fazer projeções em ambientes de convexidade e distribuições de variância infinita beira o ridículo, mas é sobre isso que se debruçam os pseudoanalistas todos os dias. Nada é linear no mercado, nada é Normal ou LogNormal.

No final do dia, os movimentos são muito maiores do que nossas cabeças lineares conseguem conceber a priori.

Quando afirmei, lá atrás, que as ações da Rumo poderiam subir 400 por cento até 2020, fui taxado de louco e até punido pela ilibadíssima Apimec — os papéis estavam 5 reais à época; hoje, valem mais de 20 (André, nunca te agradeci formalmente pela ajuda na construção do racional, o que é um pecado grave; espero que aceite tardiamente o agradecimento e se aqui não exponho seu sobrenome é apenas para preservar sua privacidade).

Quando escrevi há três anos sobre a possibilidade de o Ibovespa bater 100 mil pontos, um jornalista acusou a Empiricus de fazer marketing vale tudo, dando inclusive print da pontuação futura sugerida para o índice. O que aconteceu a quem acreditou no “marketing vale tudo”, além de ter multiplicado seu capital por 2,5x? Qual o impacto do marketing da Empiricus na vida das pessoas? Digo em termos práticos mesmo. Humildemente, essa me parece a pergunta relevante. E tem uma provocação também, porque ninguém é de ferro: o que aconteceu ao jornalista?

Voltando à Bettina especificamente, preciso também dizer que ela entrou num momento muito bom da Bolsa. Pegou o início desse bull market agora em vigor pujante. E, meu amigo, por várias vezes, tudo que você precisa é de um bom ciclo. Um bull market faz milionários. Faz até bilionários. E, claro, todos os bilionários viram gênios. Uma vez, eu estava andando de bicicleta e me sentindo o Pedro Cerize. Parecia que eu estava voando. De repente, percebi que era só um vento a favor.

Todo investidor se acha capaz de “gerar alfa”, ou seja, de consistentemente bater o mercado e gerar resultados acima da média. Com todo respeito, devo frustrar os quatro leitores sobre isso. E dentro desse escopo incluo, sim, os gestores, tanto de ações como multimercados. Pra mim, somos todos grandes beta players (andamos com os ciclos de mercado), embora nosso narcisismo vá resistir a essa ideia. Desafiando a lógica, 90 por cento das pessoas se acham acima da média. A conta não fecha. Os ganhos dos fundos com alguma exposição a risco se dão de forma altamente correlacionada (embora todo gestor se apresente como descorrelacionado com a indústria) e costumam ser bastante dependentes dos ciclos de mercado.

Multimercado separa aqueles 10 por cento para aplicar em Bolsa e ganha com fechamento da curva de juros — obviamente, os prêmios de risco de Bolsa e de juro são correlacionados. E os fundos de ações, claro, ganham com altas dos índices de Bolsa.

Poderia ainda ser mais crítica e apontar uma espécie de conluio, mais tácito do que formal, reconheço, entre os gestores brasileiros. Uma gestora carioca famosa tem uma determinada ideia. A turma do shopping Leblon olha, conversa entre si e considera replicar. Um dos gestores do Rio vem pra São Paulo e almoça no Kosushi com algum paulista. Daí a conversa saí da Rua Viradouro para adjacências do Itaim, para espraiar-se à Vila Olímpia num segundo momento, passando, claro, pela turma da velha guarda no Plaza Iguatemi.

De repente, todo mundo está comprando a mesma coisa. Subitamente, elegem-se as queridinhas do smart money local. Os nomes do momento: Eneva e Jereissati. Suspeito que Hypera logo sobe no pódio também.

Pra mim, manada mesmo tem é no investidor institucional, uma espécie de clubinho que prefere errar com todo mundo do que acertar sozinho. O varejo hoje tem alternativas para não comer grama pisada por todo mundo. Falo isso com todo respeito aos gestores e humildade sobre minha insignificância no mundo. Eu não me vejo, em nenhum momento do meu dia, capaz de bater o mercado. Sinto-me um completo idiota desempenhando diariamente uma tarefa impossível.

Como sei que não sei, sugiro sempre a diversificação, alerto que retornos passados não são nunca garantia de retorno futuro e que a geração real de valor vem do asset allocation (alocação entre classes), e não de uma ou outra dica esperta. Foco no portfólio como um todo.

Agora, quero encerrar com esclarecimentos finais sobre a propaganda em si da Bettina, e não sobre sua construção patrimonial especificamente.

• Houve outras fontes de renda. Não foi falado que ela só fez dinheiro com ações. Não tente fazer contas de retorno saindo de mil para milhão. Também considere o efeito-base antes de dizer que “se continuar assim, Bettina supera o PIB global”. Sair de 1 para 2 é muito mais fácil do que sair de 2 para 4. Decreasing marginal returns.

• Sim, houve uma pequena doação de seu pai no meio do caminho — inclusive um presente de formatura em ações de Vale e Petrobras (pra mim, isso é motivo de orgulho e exemplo; não o contrário). Por mais pais como senhor Joachim (aliás, parabéns pela filha! Que orgulho!).

• “Ela é rica e a família tem empresa.” Ter empresa é bem diferente de ser rica. Eu tenho uma empresa com minha mãe de aulas de Eutonia (estaremos aceitando inscrições). Fatura três mil reais mês. Em mês bom. Mês ruim é pura despesa.

• “Ah, mas isso tudo não fica tão claro na propaganda. Poderia ter dado mais ênfase.” Olha, aí é uma questão de estilo e gosto. Era uma propaganda de 15 segundos, com intuito de convidar para uma lista de interessados para assistir a uma série de três vídeos em que absolutamente tudo seria detalhado e escrito. Simplesmente, seria impossível tratar de todo tema em 15 segundos. Desde então, estamos empenhados em esclarecer as dúvidas mais frequentes. E o resto virá na própria série de vídeos, como não poderia deixar de ser. Era só um teaser, sabe? O conteúdo está todo a caminho.

Quem perde com mais Bettinas? Quem ganha com mais Bettinas?

Isso está na minha cabeça agora. Depois de muito pensar, sinceramente não consigo apontar quem perde. Mas vários são os ganhadores.

A B3, suspeito, vai ganhar dezenas de milhares de CPFs por conta dela. De imediato, na semana do lançamento, chuto 50 mil (faço isso apoiado nas nossas métricas históricas; funciona como lei dos grandes números, pela nossa experiência aqui). Se for isso mesmo, Bettina, sozinha, terá sido responsável por um crescimento de 5 por cento da base de investidores brasileira em uma semana. Gilson, vou perguntar o que ela gosta pra você mandar como agradecimento.

As corretoras, pois essas dezenas de milhares de pessoas vão precisar instrumentalizar as indicações da Empiricus em algum lugar. Sugestão aqui, aproveitando a pauta de empoderamento feminino: Ana Magalhães e Nathalia Arcury, por que vocês não procuram conhecer um pouquinho mais o caso (não precisa ser muito, só um pouquinho) e se juntam à Bettina numa grande campanha para popularizar a entrada das mulheres num mercado ainda tão dominado por testosterona? Tenho certeza de que a Bettina topa. E daí eu tento convencer a Luciana Seabra também — se ela aceitar, podemos ter um colosso. Vira uma coisa importante mesmo. Aposto que juntas vocês são melhores. Amoleçamos todos os corações e façamos algo de fato pela investidora. E também aposto que as corretoras que pagam os salários de vocês estão felizes com a Bettina.

Acima de tudo, porém, quem ganha mesmo são os milhões de pessoas impactadas por essa campanha, que terão a chance de serem mais bem assessorados em seus investimentos. Se não fosse o impacto causado pela Bettina, esse pessoal continuaria sentado na poupança, nos PICS, nos CDBs ruins, nos fundos de bancos que cobram 4 por cento. Qual a alternativa, sabe?

O Brasil precisa de mais Bettinas.

Pessoas como ela levam a resultados como estes (não escondi a identidade das pessoas nos depoimentos porque elas os fizeram em suas redes sociais, em caráter público portanto): https://content.empiricus.com.br/depoimentos/

Gostaria de encerrar este texto com um agradecimento público a Henrique Bredda e João Braga. Romanos entre gregos. Entendedores entenderão. Gratidão se aprende em casa. Coisas assim, em momentos como este, ficam guardadas aqui dentro pra sempre. Eu não esqueço, saibam disso.

Inscreva-se em nossa newsletter