Dias de trovão

“I know the suffering will end, my friend When the last note of freedom is rung throughout the land I know the hateful will burn […]

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Dias de trovão

“I know the suffering will end, my friend
When the last note of freedom is rung throughout the land
I know the hateful will burn
When the last note of freedom is heard throughout the land”

David Coverdale – The Last Note of Freedom (trilha de Dias de Trovão)

No exato momento em que terminar de escrever esta newsletter, farei uma doação de 956 reais para a AACD. Você já vai entender o motivo. Por ora, posso lhe dizer que, a exemplo de Groucho Marx, jamais aceitaria fazer parte de um clube que me quer como sócio.

Sabe o que o pessoal acha legal?

Garoto-propaganda representando o sistema dizendo que mudou porque pode garantir que a nova casa vai fazer seu dinheiro render mais.

Sabe o que mais?

Em plenos reclames do plim-plim, comercial de PIC e título de capitalização com mulher gostosa andando no passageiro de carro importado. Hiperfundo de taxa de administração de 4 por cento também é legal pra caramba. Assessoria e corretagem de graça, então, são a nova onda.

“Eu não falo pra minha mãe que trabalho no mercado financeiro. Prefiro dizer que toco piano num bordel.”

Sabe por que a Empiricus incomoda?

Porque ela fala a verdade. E não há crítica que mais incomoda do que a verdadeira, aquela que aponta as feridas como elas são. O sistema não quer que você veja isso. Ele quer ser percebido como bom moço, para que seus gerentes continuem enfiando nos clientes produtos caros e ruins, para que os agentes autônomos ganhem com os fundos de maiores rebates – nada contra os gerentes e agentes autônomos, que só estão correndo atrás de um prato de comida, respondendo aos incentivos que lhes são apresentados.

Ninguém quer que você ganhe dinheiro de verdade. Ninguém está preocupado com o seu bolso. Se você não joga o jogo do sistema, o sistema tenta cuspi-lo para fora. Querem domar todos aqueles que realmente se preocupam com o investidor, porque o investidor não é uma preocupação do sistema. O investidor mais bem informado vai procurar por produtos bons e baratos, fugindo dos ruins e caros, exatamente aqueles que deixam as maiores taxas nos bancos e nas corretoras. Sem a informação adequada, estamos condenados a recorrer à raposa no galinheiro para decidir onde aplicar nosso dinheiro.

Aquele que tentar irromper contra esse ciclo vicioso será chamado de má companhia, politicamente incorreto, indomável, selvagem, irascível.

Se esse é o preço a pagar por atender ao chamamento da vocação, eu topo. Aliás, nem sei se tenho opção. Quando seu daimon volta do Hades, ele já tem suas próprias preferências. Você está alijado da possibilidade de escolha. Deve apenas atender a si mesmo.

Eu não sou amigo do Luciano Huck. Não sou herdeiro. Não tenho amigo em Brasília. Nem sou amigo de empresário. Com os bancos, só tenho laço com o Itaú, como cliente – e confesso que estou satisfeito. Sou apenas um rapaz latino-americano, hoje com algum dinheiro no banco, mas ainda sem parentes importantes. “What I got, I have earned. What I’m not, I have learned. Desire and hunger is the fire I breathe”, como resumiu Patti Smith, ciente de que “the night belongs to lovers”.

Não estou aqui para casar com a sua filha, nem para ser professor de educação moral e cívica – muito embora, nos quesitos ética e moral, não encontre qualquer um desses que possa se colocar um milímetro sequer à frente da Empiricus; está feito o desafio a quem quiser tentar. Eu tenho um único objetivo aqui: fazer você ganhar dinheiro, falando tudo e só aquilo que acredito ser o melhor para você.

É através das palavras que me defendo. Só a elas posso recorrer. Mas parece que a turma não leva isso bem.

Eu, Felipe, acabo de ser multado em 956 reais pela Apimec. Segundo a associação privada dos analistas de investimento, como eu renunciei deliberadamente ao meu CNPI, estou impedido de tecer comentários sobre ativos mobiliários específicos. De acordo com essa grande instituição, eu realizei análise irregular de valores imobiliários.

Sabe o que eu fiz com a cartinha da Apimec? Rasguei e joguei no lixo, sem nem pensar. Não reconheço a Apimec como meu órgão regulador, capaz de exercer sobre mim (ou qualquer outro analista) poder de polícia e de cercear minha liberdade de expressão.

A verdade é que nem sequer me abalei. Já esperava por essa afronta à liberdade. A imagem que me veio à cabeça de maneira espontânea no exato momento em que me deparei com a multa foi a de Muhammad Ali falando com George Foreman no clássico Rumble in the Jungle: “Is that all you got, George?”.

Se essa é a munição que a Apimec tem contra mim, tente mais forte. Não é a primeira vez que tentam arrancar-me a cabeça para servi-la numa bandeja para os representantes dos interesses consolidados. Ainda não será desta vez. Se querem meu corpo, só se eu estiver morto, só assim.

O espírito ninguém vai conseguir quebrar e, a cada vez que tentam me ferir, aquilo serve de alimento para minha alma, uma demonstração pragmática do que é antifragilidade vivida na pele.

Por mais que vocês tentem, não vão me domar, porque não há nada pior para acontecer a um investidor do que ele ser domado. Não baterei continência para a patrulha do politicamente correto.

A Apimec é uma instituição privada, que, portanto, não pode exercer poder de polícia, que cabe somente a entes públicos. Entidades privadas atendem a interesses privados, como milícias provincianas defendendo suas motivações individuais. Veja o caso da Ancord, que perdeu na Justiça comum o direito de cercear e punir os agentes autônomos. É rigorosamente o mesmo caso da Apimec, sem tirar nem pôr.

Em paralelo, dado o caráter eminentemente editorial das opiniões da Empiricus, toda sua atuação está abarcada pelo direito à liberdade de expressão. Não é apenas a minha opinião. Jogam neste timaço os pareceristas Dr. Ary Oswaldo Mattos Filho e Dr. Modesto Carvalhosa. Há um terceiro parecer, mais sob a ótica constitucional, sendo preparado pelo brilhante Dr. Gustavo Binenbojm.

No momento em que se tenta cercear a Empiricus, em qualquer instância, cria-se a figura do censurador. É isso que queremos para o país? São dias de trovão para a liberdade de expressão. Quem vai definir o que pode falar e o que não pode? Quem enuncia a verdade? A Apimec? Who watches the Watchmen? Vamos também proibir as conversas sobre ações via WhatsApp, alegando distribuição indevida de fake news, é isso?

Como prova de que isso só alimenta a chama, hoje lhe apresento mais uma ideia politicamente incorreta. Não estou preocupado com a minha reputação, que só serve aos escravos. Eu me preocupo em fazer o certo. É um imperativo categórico.

Com a alta recente da Bolsa e o provável atingimento de novo recorde histórico para o Ibovespa nas próximas semanas, vão surgir várias e várias notícias de pseudoespecialistas opinando sobre quais ações comprar – a maioria deles nunca comprou uma ação na vida. São como o Pelé: são chamados à B3 enquanto eles mesmos são grandes investidores de imóveis. “Wall Street é o único lugar onde pessoas que andam de Rolls-Royce pedem conselhos a quem anda de metrô.”

Essa turma vai repetir clichês e fatos estilizados disfarçando-se de inteligentes, mostrando o mesmo conhecimento da minha mãe (Dona Lúcia, desculpa, não quis ser grosseiro, você mesma diz que não entende disso) sobre renda variável. Os conselhos virão assim: “Comprem ações de boas empresas, consolidadas, de marcas fortes, com grande histórico de resultados e pouca dívida”.

Não é apenas uma análise com a mesma profundidade de uma folha sulfite. É também errada, quase algebricamente errada se assumirmos que entraremos numa melhora sistêmica dos mercados. Se estamos num bull market, as ações que mais vão subir serão aquelas de empresas alavancadas, ou seja, de companhias consideradas ruins. Posso lhe provar o argumento de maneira muito simples.

O valor de uma firma (EV) é dado pela soma de dívida líquida (D) com equity (E). Suponha duas empresas:

1. A, cujo EV é dado por 50 por cento D e 50 por cento E;
2. B, cujo EV é dado por 80 por cento D e 20 por cento E.

Vamos supor que a melhora sistêmica implica uma evolução de 10 por cento para o valor de ambas as firmas (veja que falo de uma melhora sistêmica, portanto, indiscriminada entre as companhias; obviamente, é uma abstração, para demonstrar o argumento, sem, no entanto, implicar perda de generalização).

O que ocorre com a empresa A, menos alavancada? Ora, seu novo EV será equivalente a 1,1x o valor original, por construção, certo? Como a dívida é dada, ela continua lá com seus 0,5x. Então, o equity precisará passar de 0,5x para 0,6x, o que representa uma alta de 20 por cento para suas ações.

E a empresa B? Também por construção, haverá um aumento de EV de 10 por cento. Como a dívida está parada em 0,8x, o equity precisará sair de 0,2x para 0,3x. É um aumento para as ações de 50 por cento, muito mais do que os 20 por cento da empresa A, por mera aplicação da aritmética.

Pode parecer contraintuitivo num primeiro momento, mas os chamados “ralis do lixo” são frequentes em grandes bull markets e muito se deve ao efeito da alavancagem financeira sobre essas companhias, cujos valores de mercado estão muito comprimidos frente ao tamanho do EV. Se você sai de 9 para 10, você aumentou 11 por cento basicamente. Se sai de 1 para 2, você dobrou.

“Ah, mas então todas as ações de empresas alavancadas representam boas apostas?”

É evidente que não. Mas algo parece escapar aos especialistas de plantão. Não importa tanto a frequência com que você está certo, mas quanto você ganha quando está certo. Se você pegar um único Google surgindo, sua vida está definida. Também é preciso perceber que estar errado, se isso não lhe custa muito, não tem nenhum problema.

Foi com esse exato espírito que Peter Lynch fez do Magellan provavelmente o fundo de ações mais incrível de todos os tempos. Ele comprava um montão de ações de small caps e observava, em meio àquilo, algumas supermultiplicações, seus famosos “tenbaggers”.

Eu sinceramente acho que Peter Lynch deveria ser multado por usar essa expressão nada comedida, nada serena, nada moderada chamada “tenbaggers” (alusão às multiplicações de 10x das ações). O problema da guilhotina do Período de Terror é que, subitamente, ela pode se voltar contra você.

Mercados brasileiros iniciam a terça-feira sob pressão vendedora vinda do exterior. Há um clima pesado lá fora, com sell-off generalizado sobre ativos de risco. Existem vários fatores citados como catálises para a maior aversão a risco, como a crise na Arábia Saudita envolvendo a morte do jornalista Jamal Khashoggi, realização de lucros nas Bolsas asiáticas (depois da forte alta da véspera) e tensão com a questão fiscal na Itália.

Ao que me parece, Wall Street tem sofrido um pouco mais no mês com questões técnicas desencadeadas por ajustes dos modelos de VaR e desalavancagem.

Agenda doméstica traz novas pesquisas eleitorais (ninguém aguenta mais), IPCA-15 de outubro, prévia do IPC-S e sondagem industrial da CNI. Nos EUA, temos atividade regional do Fed de Richmond.

Ibovespa Futuro cai 1 por cento, dólar e juros futuros operam em alta.

P.S.: Se você não aguenta mais esse discurso politicamente correto, vê seu dinheiro no banco ou na corretora rendendo menos do que você gostaria e tem a vontade de dobrar sua renda, por favor, passe os olhos no Double Income.