Está tudo bem, mãe (eu só estou sangrando)

De agora até as eleições, teremos definido se adentramos um período propício à grande multiplicação do capital ou se devemos proteger a riqueza comprando dólares e afins.

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Está tudo bem, mãe (eu só estou sangrando)

“My eyes collide head-on with stuffed graveyards
False gods, I scuff
At pettiness which plays so rough
Walk upside-down inside handcuffs
Kick my legs to crash it off
Say okay, I have had enough
What else can you show me?

And if my thought-dreams could be seen
They’d probably put my head in a guillotine
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only”

Bob Dylan – It’s alright, Ma (I’m only bleeding)

Eu chamaria esta newsletter de “18 is the new 89”, tentando explicitar semelhanças e diferenças entre as eleições deste outubro e aquelas de 89. Resolvi mudar, porque – sejamos sinceros – não há como competir com Bob Dylan.

Os dois leitores assíduos deste espaço talvez tenham percebido a melhora de qualidade nas últimas duas semanas. Eu estava de férias e o Rodolfo assumiu o timão; se fosse com maiúscula, entraria no lugar do Loss e, dados seu perfil multitarefas e a semântica da coisa, talvez tivéssemos evitado a última derrota.

Em nove anos de Empiricus, é a primeira vez que passo tanto tempo afastado. Do ponto de vista pessoal, isso quer dizer duas coisas: i) volto renovado de um longo descanso; e ii) estava com saudades.

Em alguns momentos, você precisa de certo afastamento. Ao se debruçar sobre os sulcos e a textura das folhas, perde-se a imagem de toda a floresta. E, neste momento, entendo que precisamos ter a visão do todo, porque há no horizonte fatores sistêmicos essenciais para determinar a evolução do preço dos ativos.

De forma mais direta, saí de férias justamente porque precisava me preparar para o que considero ser um dos períodos mais decisivos para a construção de patrimônio de nossos assinantes.

Grosso modo, de agora até as eleições, teremos definido se adentramos um período propício à grande multiplicação do capital ou se devemos proteger a riqueza comprando dólares e afins. Se um ou outro, depende basicamente de duas coisas: a eleição de um candidato reformista e a manutenção de um cenário externo favorável. O resto é, como poderia dizer, o resto.

O Brasil é um grande beta ou um grande prêmio de risco. Vai tudo meio junto: na hora boa, Bolsa e pré voam, dólar desaba – e vice-versa. Filigranas entre Renner ou Guararapes, GOAU ou GGBR, Iguatemi ou Multiplan, prés ou indexados, intermediários ou longos podem render-lhe algum troco. Mas o grosso do dinheiro mesmo nos próximos anos depende desses dois elementos de cunho macro. Rico será aquele que acertar o vetor.

Primeiro, gostaria de falar um pouco sobre a cena internacional. Ela vinha afetando dramaticamente os mercados emergentes desde março, com a subida das taxas de juro de mercado nos EUA e, mais recentemente, com o temor de uma ampla guerra comercial.

Ocorre que o dólar se valorizou fortemente, os mais recentes indicadores não apontaram tanta potência da economia norte-americana (e, principalmente, das demais economias desenvolvidas) e o presidente do Federal Reserve voltou a se comprometer com uma política gradual de subida de juros.

Ao menos até agora, o nervosismo mais agudo com mercados emergentes passou, com fluxo retornando à periferia e uma porção de casas relevantes voltando a recomendar aumento de posição nessas regiões.

Essa é uma notícia fundamental para aqueles que acreditam ser a pressão vendedora iniciada em março sobre emergentes apenas uma correção natural (embora significativa) dentro de um bull market estrutural, e não uma real inversão de tendência do processo ascendente começado em janeiro de 2016.

Sem ninguém dar muita bola, o Ibovespa já sobe 13% da mínima local ali na região dos 69,5 mil pontos. Isso aconteceu, mais uma vez, num piscar de olhos, para desafiar nossas cabeças lineares e afeitas a distribuições normais/gaussianas. Ah, sim, também aconteceu num momento em que ninguém previa e o alvo dos analistas técnicos era a região dos 64 mil pontos. As desculpas fundamentalistas eram a guerra comercial internacional e um provável segundo turno entre Bolsonaro e um radical de esquerda.

Então chegamos ao tema “eleições”. No período em que estive fora (pois é, o afastamento não é assim um afastameeeento), circulou uma brilhante análise do pleito, ligando a disputa de outubro com aquela de 1989. O autor destilava seu brilhantismo de sempre, com a precisão de sempre e, o que mais preocupa, o nível de acerto de sempre.

Segundo ele, estaríamos condenados a um segundo turno entre Bolsonaro e o candidato do PT, que deslancharia a partir do apoio público de Lula. Provavelmente, esse candidato do PT seria Jacques Wagner, muito forte na Bahia, que já ameaça a posição do RJ em número de eleitores.

No paralelo com 89, Bolsonaro seria Collor; o candidato do PT seria Lula.

A análise faz bastante sentido. O pior não é isso. A análise faz medo. Gostaria apenas de contrapor a esse sentimento a esperança, apontando uma ou outra ponderação. Fazendo a tese dialogar com a antítese, possivelmente cheguemos a uma síntese mais apropriada, com sorte por superação positiva.

Não me pergunte como nem por quê, mas eu estive presente naquela reunião narrada na “Folha” pelo Mario Sergio Conti, em que se discutiu um potencial apoio do PT à candidatura de Ciro Gomes. Sentei ao lado do Nelson Marconi – ele à esquerda, claro. Também estavam ali o próprio Ciro, Delfim Netto, Bresser Pereira, Fernando Haddad (podem falar o que quiserem, mas o Haddad é muito gente fina!). Duas coisas me pareceram claras ao sair da reunião:

i. É muito improvável o PT não ter candidato próprio; e
ii. Jacques Wagner, ao menos naquele momento, não queria nem ouvir falar em ser candidato.

Essas duas coisas são bem importantes. A primeira porque divide os votos da esquerda. Se Lula declarasse apoio a Ciro, então as chances de um segundo turno Ciro x Bolsonaro seriam enormes. Sem isso, a esquerda se divide entre Ciro e o candidato do PT, além daquela esquerda Vila Madalena/Baixo Gávea migrar para a Marina.

Com Jacques Wagner tentando garantir o foro privilegiado por meio do Senado na Bahia, Haddad seria lançado candidato do PT. E por mais legal que ele seja na física – de fato, ele é – a capacidade de aglutinar votos não parece das mais substanciais.

Então, entra a notícia mais recente de apoio do Centrão ao Alckmin. Além de dar ao tucano muito tempo de TV e mais apoio no sentido de fazer-lhe uma figura de projeção nacional, representa o automático impedimento de que haja apoio às candidaturas de esquerda mais extremas. Ciro, que tem em si seu pior inimigo, sai perdedor também de uma batalha contra um adversário externo.

Estamos num momento de clara aplicação da teoria da reflexividade do filósofo George Soros às eleições brasileiras. A mera expectativa de que a candidatura do tucano possa se fortalecer a partir do apoio do Centrão fortalece a candidatura – Ciro provavelmente vai radicalizar o discurso à esquerda (e ninguém foi eleito no Brasil com discurso radical de esquerda) e Bolsonaro já enfrentou adversidades no final de semana, com Paulo Guedes atacando a imprensa de “dois pesos, duas medidas” e Janaína Paschoal falando groselha (desculpe, mas ela é péssima).

Resumidamente, portanto, se tivermos um ambiente externo ainda favorável para fluxo de recursos a mercados emergentes e um segundo turno aqui dentro sem um candidato de esquerda, a desvalorização dos ativos brasileiros iniciada em março terá sido apenas uma pequena barrigada dentro de uma grande trajetória de alta.

Enquanto passamos por ela, parece infinita e insuportável. No gráfico de longo prazo, porém, quase não aparece. Ao final do processo, aqueles que tiverem disciplina, obediência ao método e confiança para não largar o galho da árvore ao primeiro chacoalhão, serão recompensados. Não é fácil ser um Travelling Wilbury…

Mercados brasileiros iniciam a semana sob certa pressão por realização de lucros, atentos ao comportamento das Bolsas lá fora. Há algum desconforto com ameaças de Donald Trump ao Irã, mas nada muito fora de controle. Alertas do G20 sobre impactos da guerra comercial também geram uma certa dose de cautela.

Agenda doméstica traz IPC-S, balança comercial e relatório Focus. Lá fora, atenção para temporada de balanços corporativos.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,2%, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros avançam.