Eu acho que já vi este filme…

Será mesmo que, como investidores, viramos para sempre ficha suja e não poderemos irromper contra o ciclo vicioso de aderir mais uma vez a um mesmo procedimento esperando um resultado diferente?

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Eu acho que já vi este filme…

A compulsão à repetição é uma das pulsões clássicas na psicanálise. As pessoas têm uma tendência a repetir situações aflitivas, sem reconhecer sua própria participação nesse processo.

Freud apresentou o conceito pela primeira vez em “Recordar, Repetir e Elaborar”, de 1914, para depois ampliá-lo em 1920 no “Além do Princípio de Prazer”. A pulsão pode derivar do desejo de reencontrar o objeto ou talvez sem mesmo nenhuma finalidade, apenas pela própria necessidade da pulsão de repetir.

Como o homem de Dostoiévski em “Memórias do Subsolo”, escolheríamos o próprio caminho da ruína, possivelmente de maneira inconsciente. Estaríamos mais uma vez divididos entre o erótico e o tanático, condenados a repetir erros do passado, como se o futuro já fosse certo e não conseguíssemos romper a tendência de cometer sucessivamente os mesmos erros.

Será mesmo que, como investidores, viramos para sempre ficha suja e não poderemos irromper contra o ciclo vicioso de aderir mais uma vez a um mesmo procedimento esperando um resultado diferente? Essa é, aliás, uma das definições de loucura…

Eu acho que podemos mais, que somos capazes de mudar características aparentemente impregnadas sob nossa pele se realmente nos dispusermos a mudar. Firmes no propósito, podemos inclusive usar os erros do passado como guia para o futuro, evitando os mesmos percalços pregressos como maneira de perseguir acertos à frente.

Há pouco mais de um mês, o pessimismo era completo. Todos tinham certeza de um segundo turno entre Ciro e Bolsonaro, bem como estaria encerrado o interregno benigno no exterior para os mercados emergentes. O dólar iria a 5,30 reais, o Ibovespa caminharia para perto de 53 mil pontos. Aí vamos nós: 10 mil pontos em dólares para o nosso principal índice de ações. Bem-vindos de volta à Era Dilma.

Onde estamos agora, algumas poucas semanas depois? O Ibovespa beira os 80 mil pontos, o dólar está abaixo de 3,75 reais. Todos – sem exceção – estão surpresos com a rapidez e a extensão da recuperação dos ativos brasileiros, num momento de muita incerteza lá fora, principalmente com a guerra comercial, e a completa indefinição da eleição brasileira.

É sempre assim! Comete-se de forma recorrente o mesmo erro, de se acreditar que as trajetórias dos ativos são lineares, previsíveis e comedidas. “Vou esperar um crescimento de Alckmin nas pesquisas e, então, se isso se confirmar, eu aumento das posições em ações.”

Não dá tempo, entendeu? De repente, você acorda com uma notícia estampada no jornal e o índice sobe 10 por cento na sua cabeça antes mesmo de você decidir comprar Bolsa.

Das doenças crônicas do mercado, seu caráter ciclotímico talvez seja a psicopatologia mais conhecida. Em mais uma demonstração clássica de sua bipolaridade, os agentes econômicos saíram do pessimismo extremo no começo do junho para um otimismo exacerbado agora.

Por mais que mantenha um prognóstico favorável para os ativos brasileiros a médio e longo prazo, ainda acreditando na tese do bull market estrutural iniciado em janeiro de 2016 (fique claro: com pronunciadas correções e muita volatilidade no meio do caminho), preciso reconhecer a existência de muitos obstáculos e riscos no horizonte.

Em termos práticos, dado o comportamento recente dos mercados, parece bastante razoável perseguir um hedge às posições de risco comprando um teco de dólares aos níveis atuais. Como medida de proteção, faria isso entre hoje e amanhã, antes da divulgação do PIB norte-americano, aproveitando a fraqueza global da divisa – hoje é mais um dia de queda para o “greenback” contra as principais moedas.

Note que as mais recentes revisões para a atividade econômica têm sugerido um crescimento da ordem de 5 por cento – isso é bastante coisa para uma economia do tamanho da norte-americana, cujos juros devem continuar subindo, enquanto a Europa se compromete com uma política monetária ainda frouxa. A maior projeção para o PIB dos EUA é de um crescimento de 5,4%, do J.P. Morgan Asset Management; Pantheon Macroeconomics e Barclays também esperam 5 purça, após revisões bem recentes dos modelos.

Se for mesmo o caso, não parece sustentável a trajetória de queda do dólar frente às principais moedas no exterior. Aqui, como reforço, seria natural que a volatilidade eleitoral voltasse a fortalecer o apelo da moeda forte.

Talvez pudesse encerrar por aqui, mas há outras duas repetições de comportamento me incomodando agora. O tema de hoje é justamente a quebra do paradigma da repetição, e não o dólar em si.

Bitcoin voltou para cima de 30 mil reais. As pessoas se assustaram quando esse negócio caiu 70 por cento. Hoje, voltam a achar surpreendente uma alta de 20% num piscar de olhos. Para um negócio que sobe de 0 a 70 mil, uma queda de 70% é, por incrível que pareça, normal – inclusive você pode perceber isso facilmente olhando o log dos preços.

Enquanto não alterarmos nosso arcabouço mental de um instrumental analítico linear e gaussiano para outro exponencial e das distribuições de probabilidade com caudas gordas (Levy, Cauchy, Leis de Potência, etc.), estaremos condenados a desconsiderar ex-ante a possibilidade material e corriqueira de grandes multiplicações e destruições de capital, que são justamente as mais relevantes. Ou seja, estamos jogando fora a essência da coisa, exatamente aquilo que poderia mudar seu patamar financeiro de maneira definitiva.

Se você vai participar do jogo das criptomoedas, saiba que isso pode, sim, se multiplicar por 10x até o final do ano. E também pode amanhecer valendo zero subitamente. Não pode ser surpresa, nenhum dos dois cenários, saca? Este material vai ajudá-lo fortemente.

As criptomoedas são apenas o exemplo mais emblemático do argumento, mas, no fim do dia, a mesma ideia vale para todas as variáveis financeiras. Os movimentos são sempre maiores, mais intensos e mais rápidos do que imaginamos num primeiro momento.

Para encerrar, chegamos à última perna do tripé de hoje da compulsão à repetição.

Falo especificamente das ações da Gafisa. Veja o histórico da companhia em Bolsa. E veja o histórico da GWI. Hoje, a gestora detém mais de 25% do capital da incorporadora. Em 31 de janeiro de 2018, chegou a ter 30% – difícil passar daí.

Essas posições são bastante especulativas e sempre alavancadas. Gafisa está cara no relativo e, quando o mercado perceber o potencial corner de GWI, pode espremer o gestor.

Gafisa até vem mostrando boa geração de caixa e melhora tanto de vendas quanto de P&L, mas deve voltar a queimar caixa por conta da necessidade de desembolso de capital dos projetos lançados em 2016/17. A empresa negocia a 0,5x valor patrimonial, bem perto da média do setor – exigiria mais desconto, porque a operação ainda precisa melhorar muito para ser sustentável a médio/longo prazo e também porque prejuízos subsequentes destruirão o patrimônio marcado no balanço.

Uma boa ponta long para esse eventual short seria Even – tirando o aspecto do management inexperiente e incapaz de lidar com certos questionamentos, acredito que tenha upside no case. A geração de caixa deve ser zero ou até mesmo ter queima nos próximos trimestres, mas a empresa começa a sair do fundo do poço: P&L melhora e 2H18 deve ser forte em termos de resultado operacional. A Even negocia a 0,5x P/B e com uma alavancagem financeira bem inferior a Gafisa. Outras indicações de Long x Short você encontra dentro da Máquina de Imprimir Dinheiro.

Há coisas que dá para mudar. Outras são inexoráveis. Entre elas, o encontro com a realidade. Já aconteceu no passado e vai acontecer de novo.

Mercados iniciam a quarta-feira próximos à estabilidade, acompanhando desempenho das bolsas no exterior e temporada bem quente de balanços corporativos, tanto aqui quanto lá fora. Temos hoje Santander, Vale, Telefónica e Fibria soltando balanço.

No exterior, destaque para nova rodada de ameaças recíprocas entre EUA e Europa — muita espuma por enquanto, sem grandes novidades. E nesta ausência de drivers macro, foco recai sobre números corporativos.

Agenda local traz fluxo cambial semanal e prévia do IPC-Fipe. Lá fora, atenção para estoques de petróleo.

Ibovespa Futuro sobe 0,2%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.