No oftalmologista, sem mil pontos

Sem superpoder algum, estamos aqui condenados a escolher sem saber direito.

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No oftalmologista, sem mil pontos

“Esse… ou este?”
“Hmm, esse.”
(Tec)
“Eeeesse ou este?”
“Este. Pera. É, este mesmo.”
(Tec, tec)
“Esse ou… o anterior?”
“Puts, acho que o anterior:”
(Tec)
“Esse ou eeeeste?”
“Difícil… Deixa eu ver… Sem abusar, será o que senhor poderia dar uma repetida nessa última? Vapt-vupt, aquela rapidinha…
“Tá… (tec) Esse ou este?”
“Talvez este, hein?”
“Mas você tinha falado o outro!”
“Ah, doutor, sei lá, o senhor tá de brincadeira.”

É assim que eu me sinto, todos os dias. Fico perplexo porque o tal do oftalmologista toma uma decisão sobre a minha vista baseado nessas respostas que eu não faço ideia se estão certas. Cara, eu morro de medo. O Dr. Nelson operou o meu olho, entendeu? Enquanto aquela luz vermelha sumia da minha frente, no momento em que o bisturi entrava em contato com a córnea, eu juro que rezava: “Tomara que ‘esse’ fosse mesmo melhor do que ‘este’”.

Fica tranquilo, deu tudo certo e já faz tempo. Embora, sei lá, às vezes talvez fosse melhor ser cego a ver certas cenas lamentáveis.

Olha (supondo que está tudo ok com a sua visão), por um lado, eu tenho inveja dessa turma que tem tanta certeza sobre as coisas. Por outro, me assusto. Acho uma loucura essa gente que não duvida de si, dos outros e do mundo. Que acha que chegou a uma conclusão e pronto: fim da história. Não há mais antítese para concorrer com a síntese. É aquilo e não tem mais conversa.

No mundo real, as decisões são tomadas no ambiente de incerteza, sem que você saiba ao certo se há mesmo consistência naquilo ou se o caminho diferente, por vezes antagônico, seria a melhor opção. Estamos, a cada dia, decidindo sem saber direito o que é certo ou errado, tentando penetrar um futuro absolutamente sem luz. A ótica ainda não deu solução ao problema. Na escuridão, nem mesmo a melhor das lentes de contato pode nos fazer enxergar.

Sou como Luke Skywalker na Estrela da Morte sem o sabre de luz. Ou como Frank Dux (Van Damme) contra o Chong Li (Bolo Yeung) em “O Grande Dragão Branco”. O camarada está com os dedos das mãos bem abertos e espalmados, o nariz sangrando e os dois olhos muito arregalados; ainda assim, não consegue ver nada por conta da maldade do outro lutador, que alvejara seus olhos com um projétil contendo um punhado de pó branco capaz de cegar até mesmo o Dr. Nelson. No caso, sem problemas. O mestre Senzo Tanaka (Roy Chiao) já sabia dessa possibilidade e treinara Frank Dux para enfrentar esse cenário. Com o superpoder do Ninjutsu, Dux recobrar a serenidade e, mesmo cego, derrota o fortão Chong Li com uma voadora no peito, para alegria geral da nação.

Sem superpoder algum, estamos aqui condenados a escolher sem saber direito. Perseguimos teses de investimento assimétricas, calculando preços potenciais e probabilidades associadas, sempre tentando exposições em que podemos perder pouco se estivermos errados e ganhar muito se estivermos certos.

A verdade, porém — e aqui vai uma confissão —, é que, se o analista/gestor/investidor mantém alguma mínima dose de sanidade (por vezes, não é o caso!), ele tem menos certeza do que pode parecer quando escreve determinadas linhas sobre sua tese de investimento.

Por mais que se esforce para narrar todos os riscos associados e tente admitir sua falta de convicção no tal “cenário-base”, o fato é que não há qualquer certeza nem mesmo sobre os cenários possíveis e as probabilidades associadas. O mundo é mais do que podemos conceber. Existem as coisas não materializadas, mas mapeadas como possibilidades; e existem coisas que nem sequer conseguimos admitir como possibilidade — essas últimas, os chamados “unknown unknowns” de Donald Rumsfeld, configuram justamente os maiores riscos e, também, as maiores oportunidades de lucro, pois não estão em nenhuma instância contemplados nos cenários possíveis.

Se ainda não ficou claro o ponto, deixe-me ser um pouco mais direto: isso aqui — me refiro à prática de tentar bater o mercado de forma sistemática — é difícil pra caramba. Eu sei que você é muito inteligente, capaz, dedicado e tudo mais. Juro. Acredito mesmo. Só que há muita gente inteligente ai fora também, todos eles munidos dos melhores processos, das melhores pessoas e das melhores tecnologias. Cada um deles está perseguindo a melhor oportunidade antes dos outros. Você está jogando a Major League, todos os dias, num país em que, vamos combinar, a organização dos campeonatos não ajuda em nada. Cada jogo é uma guerra e você não pode entrar como um jogador comum, de uniforme azul; a sua farda tem que ser preta.

Confesso hoje uma mistura de felicidade e alívio. A Empiricus não é só o lugar onde eu trabalho, passo 10 horas do meu dia e vou para casa, esperando meu holerite ao final do mês. Eu tenho com isso aqui uma relação familiar (no sentido que Ray Dalio dá em “Princípios” à Bridgewater) e vocacional. Se você leva sua profissão a sério — e é o meu caso —, o resultado e o impacto daquilo importam para você. Como se conecta com o propósito daquilo? E qual seu nível de pertencimento?

Por trás das tentativas de textos bonitinhos, disfarçados de comida, diversão e arte, há uma obstinação pragmática por gerar para o bolso de nossos assinantes resultados tão bons ou melhores do que aqueles obtidos pelos grandes profissionais do mercado financeiro. Só quem está aqui e vive isso no dia a dia sabe a responsabilidade que é escrever todos os dias sabendo que aquilo vai impactar a realidade financeira de 200 mil famílias, com real mudança de comportamento — e esse talvez seja um dos grandes diferenciais da Empiricus como publicadora de conteúdo: há efeito material do que a gente escreve nas decisões sobre finanças.

Este ano tem sido particularmente difícil. Não é exclusividade minha. Pegue os melhores fundos de ações e compare com o Ibovespa — são raríssimos, mesmo entre os incontestáveis, aqueles que batem o benchmark em 2018. Refaça o exercício para os multimercados e o CDI. Mesma coisa. E se lhe resta alguma dúvida sobre a falta de clareza para os mercados até aqui, apenas considere que as melhores cabeças vinham mantendo teses de investimento bem diferentes (coloque lado a lado as cartas aos cotistas de Verde, SPX e Adam, por exemplo).

Agora, deixe-me explicar o motivo do alívio pessoal.

Desde que a Empiricus saiu da garagem, tenho dado muita sorte. Se vai continuar ou não, sinceramente não sei. Narro apenas a trajetória até aqui, como ela foi.

Desde 2014, propus três grandes teses macro. A primeira delas, que agora virou cult, mas à época recebeu aqueles adjetivos costumeiros atribuídos à Empiricus, era O Fim do Brasil — para tornar curta uma longa história, a ideia era de que a nova matriz econômica do governo Dilma nos levaria rapidamente ao precipício. Foi legal e bem importante para a Empiricus, mas a verdade é que muita gente pensava parecido. Nem houve muito mérito aí — lembro da entrevista do Stuhlberger para as Páginas Amarelas da Veja tratando do “flerte com o abismo”.

Pessoalmente, gosto muito mais do que chamamos de Virada de Mão, escrito ao final de 2015. Ali, foi bem mais difícil, porque a maior parte dos economistas, gestores e analistas ainda se mantinha pessimista. A ideia aqui, no entanto, era de que o Brasil, com o Ibovespa em dólares abaixo de 10 mil pontos, havia ficado barato, configurando uma excelente oportunidade de compra para investidores de médio e longo prazo. Tenho uma empatia especial pela proposição, não somente por tê-la colocado contrariamente ao consenso, mas também porque era uma aplicação bem talebiana: “Não é porque não estamos enxergando uma saída para a crise que ela não existe”. Vieram as manifestações, o áudio do “Bessias”, o impeachment e cá estamos nos 21,4 mil pontos em dólares para o Ibovespa.

Chegamos à terceira tese e no porquê disso tudo. No dia 2 de janeiro deste ano, escrevi sobre O Segundo Mandato Temer. Não era algo pessoal, evidentemente. Propunha a imposição da agenda liberal como algo inexorável para o Brasil. A alternativa seria a explosão, algo desalinhado à natureza macunaímica do país. Não importava tanto a cara do próximo presidente, ele daria continuidade às reformas estruturantes e liberais iniciadas no governo Temer.

Como resultado, observaríamos um longo ciclo de valorização dos ativos de risco brasileiros, semelhante aos maiores bull markets já vividos por aqui, sempre considerados exagerados quando tratados ex-ante. Depois que acontecem, se tornam óbvios e comedidos.

Obviamente, as caminhadas nunca são lineares, há altos e baixos, percalços, obstáculos, momentos em que parece que não vai dar certo, brigas, xingamentos, desconfiança. Mesmo os maiores bull markets passam por correções vigorosas, de até 60%, e o investidor precisaria estar preparado para isso.

No final, porém, tudo daria certo, sendo que Petrobras seria o melhor cavalo para atravessar o Segundo Mandato Temer.

Tivemos um começo de ano espetacular. Tudo parecia caminhar rigorosamente conforme o esperado. Mas então vieram as preocupações no cenário internacional: os juros subiriam muito intensamente nos EUA, Trump era uma ameaça indomável, a guerra comercial poderia acontecer a qualquer momento, a Itália sairia da Zona do Euro, Turquia e Argentina explodiriam.

Por aqui, a recuperação da economia fraquejava, a trajetória fiscal preocupava e as eleições eram um grande mistério — Haddad é Lula 1 ou Dilma 2? Bolsonaro é Paulo Guedes ou Bolsonaro?

Passei de março a agosto muito preocupado. Apanhei, apanhei e apanhei — com razão, eu digo. O maior crítico sou eu mesmo, fique tranquilo. A pressão interna é a maior de todas. Sempre foi. Mas a verdade é que nunca perdi a fé — e fé aqui não no sentido de desapego da racionalidade, numa oposição de crença à ciência. Os deuses modernos (a ciência, a tecnologia e o dinheiro) não preenchem como o verdadeiro Deus. Como brilhantemente descreveu André Lara Resende no “Em busca do heroísmo genuíno”, matamos Deus com o Iluminismo e ainda não fomos capazes de colocar nada no lugar — talvez isso explique nosso vazio existencial.

Além da intuição (e por intuição quero dizer uma manifestação bastante sofisticada do que são os processos mentais não estruturados e formalizados; não me refiro à conotação negativa por vezes ventilada), foi a percepção de que os fundamentos estruturais estavam lá que me manteve sintonizado à tese original.

Três coisas essenciais descrevem a alma do prognóstico:

1. Ainda que os juros possam subir nos EUA e haja, na margem, algum recrudescimento das condições de liquidez global, os valuations de mercados emergentes já estão suficientemente deprimidos e há subalocação em ativos de risco nessas regiões. Em linhas gerais, por mais que estejamos numa fase avançada do ciclo, a economia global ainda parece em boa forma, com os efeitos da tecnologia sobre inflação e produtividade ainda subdimensionados — essa história de computação em nuvem, automatização, 4a revolução industrial, inteligência artificial, machine learning e afins está apenas começando. O Brasil ou, mais rigorosamente, seus mercados sempre foram um grande beta (muito sensível) às condições globais — cumpre também lembrar o excelente comportamento das commodities, cuja correlação é positiva com o desempenho da Bolsa brasileira.

2. Depois da mais brutal recessão da história, a economia brasileira está preparada para uma consistente recuperação cíclica (lenta, mas gradual e prolongada), tão logo superemos a incerteza eleitoral. Temos um nível absurdo de ociosidade da economia, que permite crescer sem inflação, não há problema de balanço de pagamentos, dispomos de muitas reservas internacionais, a inflação está baixa, tivemos reformas recentes que devem impactar sobre a produtividade (governança das estatais, PEC do teto de gastos, reforma trabalhista), as empresas fizeram seu dever de casa e estão preparadíssimas para viver um momento de grande alavancagem operacional. Tudo isso se traduziria em grande crescimento dos lucros corporativos, com desdobramentos sobre os preços das ações.

3. A história transcorre em movimentos dialéticos, de alternância entre tese e antítese, esquerda e direita, ortodoxos e heterodoxos, keynesianos e neoclássicos. Agora, depois de dominância dos governos petistas, o pêndulo do espectro político migraria do polo intervencionista e de esquerda para o lado liberal e da direita. Seriam feitas reformas liberais, dando uma trajetória crível para a dívida pública brasileira e recuperando o crescimento econômico e os indicadores de produtividade.

Em que pese algum desconforto pontual na abertura dos mercados nesta quinta-feira, o fato objetivo é que nunca estivemos, em nenhum momento deste ano, tão próximos à tríade acima.

Os últimos indicadores da atividade econômica mostram algum aquecimento na margem e a inflação vem sistematicamente surpreendendo para baixo. A última temporada de resultados corporativos não foi ruim. Depois de muito assustarem, a Turquia e a Argentina, ao menos por enquanto, sumiram do noticiário. Há um pouco mais de conforto com a ideia de que a economia norte-americana tolera aumentos de juro. E a onda Bolsonaro parece ganhar força a cada dia, ainda que o Ibope insista no contrário.

Em conversas no final da tarde de ontem com gente que realmente entende do negócio, ouvi assim: 30% de chance de levar no primeiro turno; 65% de levar após as duas rodadas.

Fica o convite para que você acompanhe tudo no Bootcamp Empiricus Eleições.

Com a visão devidamente ajustada pelas lentes de contato e pelas bolas de cristal, já posso avistar os 100 mil pontos. Eu e Dr. Nelson concordamos em uma coisa: somos os dois cegamente ridículos.

Mercados iniciam a quinta-feira realizando lucros depois do rali dos últimos pregões. Há alguma frustração com pesquisa Ibope divulgada na noite de ontem, com Fernando Haddad numericamente à frente de Jair Bolsonaro no segundo turno — a essa altura, não acredito que essa pesquisa em si faça tanto preço; a data de coleta dos dados é mais “velha” do que aquela do Datafolha. Amanhã soltaremos a nossa última com o Instituto Paraná, o primeiro a identificar a “onda Bolsonaro”, para a qual convergiram os demais institutos num segundo momento.

Lá fora, clima também é um pouco ruim, com escalada dos juros dos títulos do Tesouro norte-americano para maior nível desde 2011, em meio a indicadores fortes da economia.

Agenda doméstica é relativamente fraca, contendo apenas dados da Anfavea. Nos EUA, saem pedidos de auxílio-desemprego e encomendas à indústria.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 1,1%, dólar e juros futuros sobem.