O ano dos 45 minutos do segundo tempo ou (Ainda sobre o novo fim do Brasil?)

Você deve ter visto o gol do Toni Kroos aos 50 minutos do segundo tempo. Nem precisa ir muito longe: o próprio Brasil ganhou com […]

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O ano dos 45 minutos do segundo tempo ou (Ainda sobre o novo fim do Brasil?)

Você deve ter visto o gol do Toni Kroos aos 50 minutos do segundo tempo. Nem precisa ir muito longe: o próprio Brasil ganhou com dois gols nos acréscimos. Imagina se tivéssemos desligado a TV um minuto antes? Teríamos perdido simplesmente tudo: um evento explica o resultado inteiro do jogo. Qualquer semelhança com a realidade concreta não é mera coincidência. O futebol parece baseado em fatos reais. Ou talvez seja o contrário, sei lá…

Sabe uma dificuldade enorme para este momento?

As pesquisas eleitorais agora – e vamos ter uma porção delas nas próximas semanas – não oferecem qualquer materialidade para o resultado efetivo do pleito presidencial. Como podemos observar nas eleições de Teresópolis ou do Tocantins, tudo vai se resolver em cima da hora.

A volatilidade do eleitor lembra aquela das opções de Petrobras. Há uma infinidade de indecisos e “não tenho candidato”, e a campanha propriamente dita nem sequer começou – a essa altura em 2002, Ciro Gomes ainda liderava as intenções de voto. Como você deve se lembrar, muita coisa mudou depois – menos o temperamento do sujeito. A alma não muda. Ela tem seus próprios ancestrais, a própria instabilidade, a própria capacidade de ofender o outro.

O problema é que as pesquisas eleitorais, embora não signifiquem muita coisa agora, fazem preço. O mais curioso é que todo participante do mercado reconhece a incapacidade de as pesquisas agora serem, de fato, um bom previsor para o resultado de outubro. Mas ninguém quer saber.

Numa espécie de falácia da composição, as agentes de mercado, individualmente, não acreditam nas pesquisas. Mas o mercado como um todo não quer saber. A cada ponto de oscilação para cima de um candidato não reformista ou a cada ponto de não oscilação para cima de um candidato reformista, nego sai socando ações e juro longo.

E assim vamos nós provavelmente até agosto, flutuando ao sabor das pesquisas que não dizem nada, confundindo ruído com sinal; afinal, o show tem que continuar – até que surja um cisne negro no meio do caminho para nos lembrar que ninguém sabe nada e defina o rumo das coisas.

Será mesmo que, em junho, podemos já nos considerar condenados a um segundo turno entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro?

Eu procurei o discurso inteiro na internet, mas não encontrei. Talvez seja a falta de tempo – tenho de terminar isso aqui às 9h30. Talvez seja porque o filme acaba de chegar ao cinema. Sem o original, tento recuperar o discurso da personagem da Rav, em “Desobediência”, de cabeça. Com um montão de erros, mas a essência preservada, vai mais ou menos assim:

“Hashem criou três grupos de seres vivos. Primeiro, existem os anjos. Eles simplesmente atuam em conformidade com a vontade de Hashem. Eles não têm escolha, agem em completa harmonia com a programação pré-definida pelo divino. Então, temos também os animais. Esses dispõem apenas de seu instinto para guiarem-se pelo mundo. Também aqui não há opção. Não podem decidir por esse ou aquele caminho. Apenas seguem a imposição instintiva, sendo prisioneiros dentro das regras internas previamente estipuladas em prol da própria sobrevivência. E finalmente há os homens. Somente a esses cabe a possibilidade de escolha. Entre todos os seres vivos, só o homem dispõe do livre-arbítrio e é isso — nada além — que o difere do resto.”

Como são sensíveis os filmes de Sebastián Lelio… Se até uma mulher homossexual pode escolher pelo seu verdadeiro amor dentro de uma comunidade judaica extremamente ortodoxa, seguindo a sua própria essência, por que não podemos nós, como povo, também escolher a partir de nossa identidade?

O nosso caráter – aquilo que realmente nos caracteriza – é aquele do Manifesto Antropofágico, da Semana de 22, do Macunaíma, da Bossa Nova, do Tropicalismo (um tipo de recuperação da antropofagia anterior). É o caráter da complacência, da preguiça e da mediocridade.

E por mais incrível que pareça aqui emprego tudo isso no sentido positivo, de que temos uma tendência a escolher nosso destino a partir do salomônico caminho do meio, evitando extremos. Se ainda acredito num resultado razoável das eleições, não é por excesso de otimismo ou por falsas ilusões. Aliás, ao contrário. É já por ter perdido algum tempo a capacidade de me indignar, de acreditar em algo fantástico e de não conseguir mais lutar sozinho.

Nunca seremos bons demais. Mas também não seremos péssimos. Não temos vocação para explosão, para completa destruição ou para Venezuela. Se espero a realização de reformas fiscais, não é por mérito ou porque mudamos, de fato, como país. É pela completa falta de opção e pela certeza de que teríamos muito mais trabalho no caminho alternativo.

Na sexta-feira, escrevi sobre alguns pontos sob a ótica macro que compõem uma situação para os mercados brasileiros diferente daquela de 2014/15. Gostaria de pontuar outros dois, que me escaparam na semana passada.

O primeiro se liga à melhora da qualidade do debate. Se voltarmos quatro anos no tempo, não encontraremos o mesmo nível de discussão sobre a situação fiscal no Brasil. Hoje, o tema “contas públicas” está nas mesas de bar junto com o nome dos ministros do STF. Mesmo os candidatos de esquerda sabem das dificuldades do orçamento. Podemos dizer o que quisermos de Ciro Gomes, mas ele sempre vem falando da “situação patrimonial falimentar do Estado brasileiro”. Quem acompanha as apresentações de Mauro Benevides tem visto um discurso bastante técnico e ciente de que, “sem ajuste, o Brasil vai à bancarrota” (ipsis verbis). Talvez possamos criticar qual o tipo de ajuste seria feito, provavelmente com destruição do setor financeiro e da Petrobras, mas é bem diferente do “modo negação” da era Dilma.

Mesmo Fernando Haddad, provável candidato do PT, sabe das imperiosas restrições do orçamento – os petistas podem dizer o que quiser com seus discursos politicamente corretos e metidos a descolados, mas eu já ouvi isso diretamente da boca dele.

Ainda que não seja na velocidade com que gostaríamos, o Brasil avançou. Antes acelerávamos na direção do precipício, agora estamos tentando conter o suicídio coletivo.

O segundo elemento vem da esfera microeconômica. As empresas estão hoje muito mais bem preparadas do que estavam no começo da crise. A estrutura de custos e despesas é muito mais enxuta, estando todo mundo bem preparado para se apropriar de um processo de alavancagem operacional conforme a economia volte a crescer. Em paralelo, muitas companhias aproveitaram a crise para comprar concorrentes menores; outros competidores menos eficientes simplesmente morreram no meio do caminho – esse processo de concentração setorial rende margens e mais receita para os sobreviventes. Além disso, houve muita incorporação de tecnologia aos processos produtivos – veja, por exemplo, o que Gerdau está fazendo no monitoramento de estoques com drones, ou como Kroton está conduzindo sua transformação digital. Por fim, houve uma brutal desalavancagem dos balanços e a proporção lucro/Ebitda pode se encaminhar para as máximas históricas.

Isso ajuda a justificar minha visão de que não haveria razão para buscarmos aqueles 10 mil pontos em dólares do Ibovespa na era Dilma. E mesmo que esse fosse um alvo para o caso de um quadro muito negativo à frente, considerando também os efeitos do câmbio, a assimetria entre perdas e ganhos potenciais seria convidativa.

O jogo só acaba quando termina. E, com um pouco de sorte e um bom resultado das eleições, quem sabe a discussão da reforma da Previdência não volta à tona naquela janela temporal entre outubro e dezembro. Seria bom para todo mundo. Ganhar com gol no final é ainda mais emocionante.

Mercados brasileiros iniciam a semana desafiando pessimismo no exterior e esboçando ganhos. Decisão do ministro do STF Edson Fachin de arquivar pedido de liberdade do ex-presidente Lula retira um dos riscos do caminho – eventual soltura aumentaria sua influência sobre a eleição, dificultando vitória de candidato reformista claro; além disso, melhora percepção de risco institucional.

Real se valoriza contra o dólar, também contrariando desempenho de outras moedas emergentes. Banco Central anunciou leilão de linha de três bilhões de dólares, fazendo moeda brasileira destaque contra uma cesta global. Yuan se desvaloriza com redução do compulsório na China e lira turca apaga ganhos anteriores com vitória de Recep Erdogan na eleição, o que alimenta preocupações com independência do BC local.

Clima lá fora é de aversão a risco com notícia de que Departamento do Tesouro norte-americano estuda dificultar investimentos chineses em setores sensíveis nos EUA, sob uma lei de emergência. Preocupação com guerra comercial EUA e China tem sido um dos grandes motores do pessimismo externo nos últimos dias.

Agenda doméstica traz IPC-S, balança comercial semanal e relatório Focus.

Ibovespa Futuro desafia mau humor no exterior e sobe 0,4%. Juros futuros recuam.