O Grande Salto: aquilo que você não vê

Jantávamos em três. Eu, uma San Pellegrino e um Vega Sicilia, que ganhara como presente de Dia dos Pais. “Só e muito bem acompanhado”, resumiu […]

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O Grande Salto: aquilo que você não vê

Jantávamos em três. Eu, uma San Pellegrino e um Vega Sicilia, que ganhara como presente de Dia dos Pais. “Só e muito bem acompanhado”, resumiu Carlos, num fino paradoxo, típico dos garçons de grande sensibilidade. Poucos minutos e meia garrafa mais tarde, ele me confidenciaria: “Depois de 25 anos servindo pessoas dos mais variados tipos, meço o caráter dos clientes a partir dos vinhos que bebem”.

Qual terá sido sua opinião sobre aquele Tempranillo?

Sai de lá pensando nisso. Uma boa água e um bom vinho formam caráter. Ou será que é o contrário?

Se você sabe exatamente o que lhe caracteriza, se tem uma missão e valores muito bem definidos, sabendo quem você é, fica mais fácil caminhar em direção ao que deseja ser. No aspecto empresarial, também vale. Sem a exata caracterização corporativa, não pode haver relação profícua com clientes, colaboradores e stakeholders em geral. Sem regras claras e devidamente comunicadas, como alinhar expectativas entre as partes?

Ontem, por razão das óbvias circunstâncias, me peguei pensando pela primeira vez: “Será que se o papai não tivesse morrido, eu estaria onde estou?”. E por conseguinte: “A Empiricus estaria onde está?”.

Diante da adversidade de ter ficado órfão cedo, por absoluta falta de alternativas, por vezes fui levado além do meu limite. Estudei sem parar, trabalhei loucamente, errei, errei e errei (e ainda erro, erro), aguentei pressões insuportáveis, apanhei feito um cão. E nunca liguei para isso. Simplesmente não tive escolha.

Logo vieram à minha cabeça os casos de Steve Jobs, Elon Musk e Jeff Bezos, que também tiveram “dad issues” bastante claros – não que eu esteja me comparando, obviamente. Seria uma covardia comigo mesmo. Mas penso que, talvez, uma dificuldade aparentemente intransponível nos leva à obsessão por determinada coisa, a um nível de loucura, a uma coisa patológica que nos desencadeia uma paixão avassaladora contra a qual simplesmente não podemos lutar. Entregamos a nossa própria alma.

Só isso para explicar a capacidade de enfrentamento incólume de algumas situações, a jornadas de trabalho de 23 horas, as conversas profissionais no WhatsApp em plena madrugada. E tudo feito com amor, como se aquilo fosse mesmo a maior diversão para um sábado à noite.

Quando leio nos jornais a forma com que o Guilherme Benchimol defende a XP, vejo ali paixão. Acho bonito, fico encantado por aquilo. Percebi paixão semelhante nas conversas que tive com o André Esteves sobre o BTG Pactual.

É a paixão que te leva a fazer algo realmente especial. A razão pode lhe oferecer elementos de otimização. Mas somente algo verdadeiramente patológico pode conectá-lo ao brilhantismo, àquele “plus a mais”. Só a paixão vai forjar seu caráter, no sentido de caracterizá-lo diferente dos outros — a razão, a lógica e a matemática são as mesmas para todo mundo. Não há diferenciação. Precisa ser necessariamente algo geral.

Às vezes, me perguntam por que a Empiricus é diferente, qual é o nosso caráter e como ele se formou.

Seríamos fundamentalistas?

Olha, no sentido de que estudamos os fundamentos de um país, de um setor e/ou de uma empresa e tentamos, a partir do que vemos, identificar oportunidades de investimentos, sim, sem dúvida alguma.

Mas se fôssemos apenas isso, não seríamos muito diferentes dos outros. Estão todos por aí se auto-batizando fundamentalistas. Eu, porém, não pertenço a nenhuma religião.

Num outro aspecto, sou o exato contrário do que seria um financista fundamentalista.

Na concepção original de Benjamin Graham, as ações de uma empresa deveriam ter seu valor relacionado àquilo que há de concreto, numa conexão umbilical entre os tickers piscando no home broker e o que está acontecendo, de fato, na realidade material, concreta e objetiva daquela companhia.

Assim, o analista preocupa-se com o que acontece, com o que se vê, com aquilo que já é. Daí tira conclusões sobre o que comprar e o que vender.

Fazemos isso por aqui. Mas estamos mais preocupados com o oposto. Nosso maior interesse é naquilo que ainda não é, mas poderá ser. E, claro, o que “já é” representa apenas uma das várias possibilidades do que poderia ser. Uma coisa é subconjunto da outra.

Neste momento, bato violentamente as pontas de meus dedos indicadores e médios nas letras do teclado e a lateral do polegar na barra de espaço. É a única tarefa que faço, mas poderia estar fazendo uma infinidade de outras. Trabalho na Empiricus, em vez de ser encanador, pedreiro, lixeiro, professor, guitarrista de banda de rock, jogador de futebol, cafetão, modelo, ator de filmes pornôs – com maior vocação para as três primeiras alternativas, infelizmente.

O espectro do que “não é” oferece muito maior riqueza e amplitude, levando ao investidor, por conseguinte, oportunidades mais ricas e amplas, principalmente porque o que “já é” pode ser facilmente identificado por todos e, logo, já está devidamente incorporado no preço dos ativos.

Talvez esse seja o nosso grande salto epistemológico. Em vez de nos apoiarmos na certeza do que já existe, queremos explorar a incerteza do que virá à frente. Aceitar que vivemos num mundo que não entendemos, pelo simples fato de que o mundo é mesmo ininteligível.

É uma completa mudança de forma de ser e estar no mundo. Explorar tudo que pode ser e que ainda não está no preço. Vendo toda a matriz de possibilidades à frente, podemos identificar as assimetrias mais relevantes para investir o dinheiro. Daí pode vir o seu Grande Salto financeiro.

Mercados iniciam a segunda-feira dando continuidade ao pessimismo observado no último pregão, ainda pressionados pela crise na Turquia, com temores de contágio sobre mercados emergentes. Dólar supera marca psicológica de 3,90 reais e já flerta com maior valor do ano.

O dia é marcado pela maior aversão a risco em nível global, com Banco Central da Turquia anunciando medidas consideradas insuficientes para conter o pânico. Mercado parece demandar uma expressiva subida da taxa de juro local, diante da súbita e grande desvalorização da moeda, uma inflação galopante, elevado déficit em conta corrente e poucas reservas cambiais.

Preocupação maior é de que o BC turco seja muito subserviente a Recep Erdogan, resistindo a subir os juros. Parece-me improvável a capacidade de aguentar a pressão, mesmo que a subida da taxa básica venha a fórceps.

Contágio para emergentes e para o Brasil em particular pode ainda durar no curto prazo, pois o clima é de pânico, embora com intensidade inferior à vista na sexta. Mercado é um grande teatro com uma porta pequena e, se alguém grita fogo, o pânico se instala, sem nenhuma diferenciação. Primeiro você vende e depois pergunta se aquele país também tem fundamentos ruins.

O Brasil tem características bem diferentes da Turquia. A inflação está bastante controlada, a despeito dos últimos números um pouco acima do esperado. Temos boas reservas internacionais, déficit em conta corrente quase zerado e um BC com autonomia operacional. Em contrapartida, temos um problema fiscal gravíssimo, há muita incerteza sobre as eleições e somos ainda um grande beta sobre as Bolsas globais, porta de entrada e saída clássica de gringo em momentos de bonança e estresse.

Ou seja, o curtíssimo prazo ainda deve ser complicado, com modelos de VaR respondendo a aumento da variância com redução adicional das posições de risco, criando um ciclo vicioso nefasto. No entanto, ainda não parece ir muito longe, com respeito aos canais de alta.

Aproximação maior do BCE à Turquia poderia pavimentar uma saída para a crise, pois há preocupação com a exposição dos bancos da zona do euro ao país. Daí poderia vir o abrandamento do pânico, num momento em que as condições de liquidez global, embora mais restritas na margem, ainda se mostram adequadas.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,8%, dólar e juros futuros sobem. Agenda local traz relatório Focus e balança comercial semanal. À noite, sai produção industrial na China.