O ponto 3G

Os problemas macroeconômicos brasileiros certamente não convivem em harmonia com os QIs de Pérsio Arida ou de Paulo Guedes. Isso é boa notícia. Mas também tem a notícia ruim.

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O ponto 3G

Duas coisas importantes sobre a cena política brasileira hoje: pesquisa XP/Ipespe com as intenções de voto e debate com os presidenciáveis na RedeTV!.

Como a primeira é sempre conhecida com 48 horas de antecedência pelas torcidas dos semifinalistas da Copa do Brasil, resta-nos descobrir qual é o canal da RedeTV! na NET. Lá vamos nós sintonizar pela primeira vez na frequência da Luciana Gimenez, que nunca foi boba nem nada e tem muito a ensinar sobre os frutos de primeiras vezes. Garantia de boas risadas com a turma da Ursal, do fim do SPC e daí pra baixo. Tirem as crianças da sala.

Antes de todas as maldades reservadas para esta sexta-feira, um causo rápido. Lá se vão 26 anos, mas o paralelo encaixa tão bem com a atualidade que tem cheiro de tinta fresca. Não ouvi diretamente da fonte (fique claro: o interlocutor do diálogo abaixo não sou eu, que nunca estive pessoalmente com o protagonista), nem sei se foi exatamente assim. Se não foi, deveria ter sido, porque a história é boa. Por trás da licença literária, há sempre uma lição valiosa.

“Você sabe como eu fiquei rico?”, perguntou Paulo Guedes.

“Ah, eu tenho uma noção vaga, sei das coisas do Pactual e pans”, respondeu o interlocutor interessado e ansioso.

“Claro que sou grato ao Pactual, ao Luiz César e ao Jakurski, principalmente. Mas a grana de verdade não veio por conta do banco, não.”

“Isso é uma surpresa pra mim. Nem vou tentar adivinhar como foi. Se puder me contar…”

“Era 1992. Os títulos da dívida externa brasileira negociavam com desconto de 90% sobre o valor de face (ou seja, estavam cotados no mercado secundário a 0,1x o valor que seriam resgatados lá na frente). Eu soube que o Gustavo Franco estava indo para o Ministério da Fazenda, como secretário-adjunto de política econômica…”

“E o senhor já o conhecia?”

“Conhecia de sua performance acadêmica. Você pode até discordar de umas coisas que o Gustavo pensa, mas o sujeito é um gênio, sabe?”

“É mesmo?”

“Todo mundo do meio acadêmico meio que se conhecia naquela época. E o Gustavo é um QI absurdo. Então, eu só confrontei as duas coisas: aquele QI não combina com 10% de valor de face.”

“Mas a genialidade do Gustavo Franco seria suficiente para resolver o problema todo?”

“Não todo, mas era 90% de desconto, sabe? E o problema macro brasileiro é razoavelmente bem conhecido e documentado. As questões micro são mais minuciosas e idiossincráticas, quase por definição, né? Mas o macro tem a receita pronta a ser prescrita. O QI do Gustavo e 0,1x não ficariam juntos, era certeza.”

“E depois de ligar os pontos, o que o senhor fez?”

“Fui lá pra fora e apresentei minha tese. Num primeiro momento, duvidaram. Depois, blindei todo o banco e, sei lá como, organizei um sindicated loan de 1 bilhão de dólares pra comprar dívida brasileira.”

“Subiu muito depois?”

“Meu Deus! As últimas nós fomos vender, poucos anos depois, com desconto em torno de 15% de valor de face (ou seja, a 0,85 do valor do resgate). Multiplicamos por quase 10 vezes, era muito dinheiro…”

Moral da história: os problemas macroeconômicos brasileiros certamente não convivem em harmonia com os QIs de Pérsio Arida ou de Paulo Guedes. Isso é boa notícia. A má é que, fora do discurso e da retórica, QIs mais baixos têm dificuldades de reconhecer a própria incapacidade e a superioridade alheia em realizar qualquer tarefa na prática – o clássico “Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments” documenta com precisão a ligação entre a inteligência e a autocrítica. Se a eleição fosse para ministro da Fazenda, e não para presidente, eu dormiria mais tranquilo.

Antes de prosseguir para as frivolidades do dia, três coisas vapt-vupt. Todas elas começam com G. “Mundo, mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não a solução.” Queria eu ter uma sincronicidade (ou uma ideologia) para viver. É só uma coincidência mesmo, não nos iludamos pelo acaso:

Guararapes: ontem, as ações subiram destacadamente com a notícia de que Seu Nevaldo Rocha deixou o Conselho. Se agora a companhia for mesmo para o Novo Mercado como se especula e, eventualmente, vender o shopping Midway, potencial de valorização pode superar 100 por cento. Isso se, num grande devaneio aqui, não acabar junto da Renner lá na frente. Uma das minhas paixões antigas, que inclusive tenho na física há tempos.

Gafisa: a empresa anunciou ontem autorização do Conselho para busca de alternativas estratégicas que podem incluir aquisição do controle ou combinação de negócios. Ação pode subir com a notícia, mas, sinceramente, não consigo colocar fé aqui. Quem compraria o controle para dividir com a GWI? E se for a própria GWI comprando para liquidar a empresa e fechar capital, pode ser um pouco mais complexo do que sugerem as planilhas – mesmo caso de Vinci/PDG lá atrás, com narrativa de desconto sobre valor de liquidação. Não é tão simples quanto parece liquidar uma incorporadora, com obra em curso, estoque, fornecedores, problema trabalhista…

Gauss: como falei do fundo lá atrás, inclusive como cotista, recebi uma série de emails hoje, possivelmente por conta de matéria no Valor, que conta a saída de Fabio Okumura do Credit Suisse, para tocar uma gestora própria, levando consigo os recursos do fundo e seu histórico. Vai aqui o feedback público à série de perguntas. A Luciana Seabra já havia retirado a recomendação do fundo em sua série. E, se ela falou, a gente obedece, porque é a Luciana quem entende desse riscado aqui – na verdade, a julgar pelas barbaridades que se lê sobre fundos neste Brasil de meu Deus, não só aqui, mas deixa pra lá. Okumura sempre foi ganhador de dinheiro, como tesoureiro e trader – eu o conheci pessoalmente na mesa do Deutsche Bank, quando trabalhava de copeiro e operador de máquina foto-copiadora, embora me chamassem de estagiário. Pude testemunhar pessoalmente seu brilhantismo intelectual e, para acalentar os corações da Faria Lima, também financeiro. A admiração cresceu ao perceber sua filosofia de investimentos, muito próxima inclusive ao que eu pessoalmente acredito ser ideal para gestão de portfólio. Okumura é, pra mim, o mais deliberadamente talebiano dos gestores brasileiros – Stulhberger não conta; primeiro porque ele é hors concours, depois porque não sei se ele se autodenomina assim. Dito tudo isso, a verdade é que a performance do fundo foi ruim. E ponto final. No meu entendimento aqui, Okumura sofreu com as mazelas da transição de tesoureiro para gestor – uma coisa é tocar grana proprietária, não ter que lidar com dinheiro de terceiros e não ter a publicidade e as cobranças associadas à marcação a mercado; outra é conviver todo dia com esse bafo no cangote. Também houve erros de gestão, notadamente no sizing (tamanho das posições), em especial das proteções, e na instrumentalização de algumas estratégias. O passivo concentrado atrapalhou bem, em adição. Para completar, sofreu perdas importantes na equipe e na capacidade de distribuição dentro do próprio CS, que em determinado momento “desencanou” de vender o fundo – sei das fofocas e das politicagens, mas delas não me ocupo. Voltando ao lado bom, acho honrada a decisão de levar o histórico e querer ele mesmo recuperar o dinheiro dos clientes depois da performance recente ruim. Seja como for, em que pesem a honra, o brilhantismo intelectual, o bom histórico de tesoureiro/trader e a filosofia, neste momento está sem o benefício da dúvida. Terá de entregar primeiro, voltar a captar com força depois. Mais experiente na função e bem guiado, tem tudo para recuperar os bons tempos. Por ora, Luciana observa de fora, com o benefício da perspectiva exterior, a trajetória.

Mercados iniciam a sexta-feira em clima de maior aversão a risco. Sofrem com pressão vendedora adicional sobre emergentes diante da falta de definição da crise turca e com incertezas na esfera política, em meio a especulações variadas sobre denúncia iminente sobre o candidato Geraldo Alckmin.

Agenda doméstica traz IPC-Fipe, IGP-M e boletim regional do BC. Nos EUA, saem sentimento do consumidor e indicadores antecedentes.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 1%, dólar e juros futuros sobem.

P.S.: Se você se interessou pelo projeto O Grande Salto, mas não pôde se inscrever por falta de tempo ou por restrições financeiras, lançamos hoje a solução do problema. Você ainda pode dar um grande salto.