Poucas ações fazem a diferença

Do portfólio total, duas ou três ações vão lhe oferecer um retorno espetacular e elas serão responsáveis pela maior parte do resultado consolidado. Essa assimetria dos retornos potenciais das ações, garantida pela lei da responsabilidade limitada, é o que a renda variável oferece de mais atraente.

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Poucas ações fazem a diferença

Poucos dias fazem a diferença.

Lembra aquele dia em que você acabou se atrasando por conta do portão quebrado no prédio e, por conta disso, sem querer esbarrou naquele que viria a ser seu sócio no futuro? Se não fosse pela queda da eletricidade no fatídico 12 de maio de 1996, sua fortuna hoje seria muito menor, talvez nem houvesse fortuna.

Ou quando aceitou um despretensioso convite para jantar, que terminou num romance apaixonado, dois filhos e um casamento para a vida toda? E como se esquecer da vez em que a Tia Isabel passou mal, exigindo que você cancelasse a viagem para Paris, naquele avião que acabou caindo?

A vida é feita de fatos cotidianos aparentemente corriqueiros, mas que acabam definindo tudo. Uma viagem fortuita com as filhas para Foz do Iguaçu faz com que se comprem alguns dólares como hedge e, de repente, enquanto tenta se aproximar das cataratas, boom! Anuncia-se a maxidesvalorização e temos a formação do maior fundo brasileiro de todos os tempos!

Em Bolsa, é assim também. O mercado financeiro é uma metonímia da realidade. Alguns poucos dias definem a coisa toda (com um palavrão ficaria melhor, mas sou elegante demais para isso).

De abril de 2008 a abril de 2018, o S&P 500, principal índice da Bolsa dos EUA, sobe aproximadamente 93%, sem incluir dividendos e em dólares, claro. Se você tirar os 10 piores dias, o retorno acumulado salta para simplesmente 305%. Já se desconsiderar as 10 melhores variações diárias, o rendimento vai para -2,48%.

É assustador! De um total de 2.518 pregões, apenas 10 mudam a coisa completamente.

A brincadeira é a mesma por essas bandas. No mesmo período, o Ibovespa, nosso principal índice de ações, tem um retorno de cerca de 31% (em reais agora). Sem os 10 piores dias, isso salta para 216%. Sem os 10 melhores, também vamos para o negativo, mergulhando nas profundezas de -46%. Aqui são 2.474 dias (na Terra de Macunaíma, precisamos curtir mais feriados, é evidente) e, de novo, 10 dias mudam muita coisa.

Já falei desse fenômeno algumas vezes. Meu orientador e amigo Paulo Tenani escreveu esse artigo para o “Valor” há coisa de uma década.

Essa é uma das formas mais simples de se perceber como as séries financeiras habitam o mundo do Extremistão de Nassim Taleb. Uma única observação na amostra transforma as coisas por completo.

Pense numa amostra de mil pessoas. Calcule a média do peso dessas pessoas. Agora, adicione a pessoa mais gorda do mundo a esse grupo – vamos chamá-la aleatoriamente de A.K. Recalcule a média da amostra. Mesmo com a adição do adiposo A.K., pouco mudou frente à média original. Peso e altura, assim como a maior parte das medidas físicas e naturais, obedecem ao mundo do Mediocristão, das trajetórias bem-comportadas, tipicamente associadas à distribuição Normal ou Gaussiana.

Agora considere essa mesma turma. Calcule a média do patrimônio da galera. Insira na amostra Jorge Paulo Lemann. Refaça o cálculo da média do patrimônio. JPL vai explicar quase a integralidade do resultado. Uma única observação muda tudo. Aqui estamos no mundo do Extremistão, onde a distribuição Normal, a linearidade e a previsibilidade não habitam.

Esse comportamento, em que uma única observação pode mudar tudo, talvez explique um pouco do puzzle da literatura econômico-financeira ligado ao chamado Equity Risk Premium (Prêmio de Risco de Mercado ou quanto o investidor exige de retorno adicional para estar em Bolsa relativamente à renda fixa). Roberto Barro fez uma tentativa brilhante em 2005 de ligar as coisas no artigo “Rare Events and the Equity Premium”, que no fundo era uma aplicação da mesma ideia de Rietz em 1988, no chamado “The Equity Risk Premium: A Solution”. Como esse último era um pesquisador de uma universidade considerada menor, acabou não recebendo a devida atenção, precisando de Robert Barro para dar alguma exposição mais relevante ao tema – a Academia também tem suas próprias vicissitudes; sob o Sol, tudo é vaidade.

Pode parecer técnico, mas a ideia é bem simples. Em português, quer dizer o seguinte: com medo de ser surpreendido por um evento súbito e inesperado capaz de impor-lhe uma grande perda, fora da linearidade e do que seria considerado algo bem-comportado, o investidor cobra um prêmio adicional para estar em Bolsa, além do que seria considerado razoável.

Essa já é uma conclusão interessante. Mas hoje gostaria de transpor essa mesma dinâmica para outro escopo. Da mesma forma com que poucos dias fazem a diferença, poucas ações também podem ser capazes de explicar quase todo retorno de sua carteira mesmo no longo prazo.

Há uma falsa impressão de que se você montar uma carteira com 10 ações, depois de muita diligência e estudo, seus retornos serão distribuídos uniformemente. Seu trabalho árduo no sentido de descobrir distorções entre preço e valor vai levá-lo a selecionar papéis e todos eles subiram mais ou menos a mesma coisa, algo como 15% a 20%, mais um ruído branco, uma “sujeirinha” aleatória para cima ou para baixo.

Mas na prática não é assim. Do portfólio total, duas ou três ações vão lhe oferecer um retorno espetacular e elas serão responsáveis pela maior parte do resultado consolidado. Veja que um retorno positivo espetacular pode render-lhe um mil por cento. Um retorno negativo espetacular vai render-lhe -90%. Essa assimetria dos retornos potenciais das ações, garantida pela lei da responsabilidade limitada (você não responde com seu próprio patrimônio no caso de falência da empresa), é o que a renda variável oferece de mais atraente.

Talvez isso inclusive ajude a explicar porque é tão difícil de se bater os índices de mercado. Se o Ibovespa sobe 30% no ano, não é porque metade das ações subiu 60% e a outra fatia ficou estável. Esses 30% de alta normalmente vêm de meia dúzia de ações que subiu, sei lá, 200%. Então, se você não tinha algumas dessas seis ações (e lembre-se de que a chance de ter essas ações em meio a 70 papéis vai mesmo ser baixa), vai mesmo perder para o índice.

Peter Lynch, um dos maiores investidores de todos os tempos, a lenda viva que tocou o mitológico fundo Magellan na Fidelity com retorno anual de 29,2% entre 1977 e 1990, no melhor retorno do mundo nesse intervalo, levando os ativos sob gestão de 18 milhões de dólares para 14 bilhões de dólares, resumiu com precisão o argumento:

“Em minha experiência, poucos vencedores de um portfólio são capazes de produzir resultados satisfatórios. Por que isso ocorre? Suas perdas são limitadas à quantidade que você investe em cada ação, enquanto seus lucros não têm um limite absoluto. Invista 1 mil em uma ação pouco expressiva e, no pior caso, você poderá perder 1 mil. Invista 1 mil em ações de alto desempenho e poderá ganhar 10 mil, 15 mil, 20 mil ou ainda mais ao longo dos anos. Tudo que você precisa para uma vida de investimentos bem-sucedidos são apenas alguns grandes vencedores.”

Peter Lynch é também famoso por ter cunhado o termo “Tenbagger”, uma referência a oportunidades de investimento capazes de multiplicar seu capital por 10x. Como encontrar uma dessas?

Lynch tinha uma preferência por uma relação de Preço sobre Lucro baixa, tanto na comparação com a indústria quanto frente à média de seus últimos cinco anos, combinada a um crescimento do lucro operacional por ação alto.

Há outras coisas muito interessantes a serem apreendidas com Peter Lynch. Se você quer conhecer com profundidade o método capaz de vasculhar oportunidades de multiplicar por 10x em Bolsa, recomendo se cadastrar aqui. Alexandre Mastrocinque é um grande fã de Peter Lynch, há anos e está totalmente dedicado em oferecer esse método mastigado e adaptado à realidade brasileira para você. O cadastro é totalmente gratuito, sem qualquer ônus, e garante acesso a essa metodologia em primeira mão. Já pude ter uma prévia do material e estou muito orgulhoso do que o Ale produziu.

Antes de partir para os comentários mais frívolos do dia, um outro convite/pedido do coração. Meu mais novo livro “Seis caminhos para o seu dinheiro render muito mais” está em pré-venda na Saraiva. O livro, que eu imagino será meu último, é uma síntese definitiva de minhas ideias mais íntimas de investimento. Se, em alguma instância, você aprecia esta newsletter, faço o convite para entrar em contato com essa obra, preparada com muita dedicação em parceria com a brilhante Juliana Almeida, que organizou todo o material. Não é pelo dinheiro. Abri mão de toda a renda proveniente de meus direitos autorais. Topei fazer o livro simplesmente pela proliferação das ideias e como uma forma de, humildemente, tentar colaborar para a melhoria da performance do investidor pessoa física no Brasil. Há algum tempo deixou de ser pela grana. Acho que nunca foi. Vocação não tem classe social. PS.: Também não estou ganhando nada da Saraiva ou de qualquer outra instituição, antes de suposições criativas que possam vir a surgir.

O dia é marcado pelo aumento do grau de aversão a risco, em meio ao recrudescimento da tensão geopolítica internacional, à beira de uma ação militar dos EUA na Síria. Com acusações de uso de armas químicas por Bashar al-Assad, Donald Trump estaria prestes a anunciar uma ação militar norte-americana.

Agenda desta quarta-feira é bastante relevante, com ênfase para inflação e política monetária nos EUA. Temos agora CPI e à tarde ata do Fed. Por aqui, saem IGP-M e pesquisa industrial regional.

Ibovespa Futuro registra queda de 0,54%, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam.