Pra quem você vai torcer nesta eleição?

Estamos prestes a completar dez anos da quebra do Lehman Brothers e uma dúvida continua a me perturbar: será que, conforme explica a versão oficial, […]

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Pra quem você vai torcer nesta eleição?

Estamos prestes a completar dez anos da quebra do Lehman Brothers e uma dúvida continua a me perturbar: será que, conforme explica a versão oficial, Henry Paulson realmente não conseguiu interessados para salvar o lendário banco norte-americano?

Ou será que o então secretário do Tesouro dos EUA, de certo modo, permitiu a morte do Lehman, entregando ao Congresso norte-americano um cadáver emblemático, necessário para a posterior liberação do dinheiro que daria origem aos agora ortodoxos programas de “quantitative easing” (famosa impressão de dinheiro e injeção de grana no sistema)?

Será que, sem o cheiro de enxofre de uma instituição centenária, os parlamentares norte-americanos teriam mesmo liberado tanto dinheiro do pagador de impostos para salvar o malvado sistema financeiro?

Sinceramente, não sei, mas já discuti o tema até em jantares românticos – ok, dado o tema, nem tão românticos assim, reconheço. “Somos quem podemos ser”, diria o secretário do Tesouro de Porto Alegre, Humberto Gessinger.

Em determinadas situações, precisamos flertar com o abismo para então reagir na direção certa. Sem bater na mola presente no fundo do poço, ou melhor, na mola presente no porão do fundo do poço (sim, acredite, ele existe!), às vezes não encontramos forças para voltar a subir.

Por que esse papo agora?

A metáfora parece distante mas guarda uma relação direta com nosso cenário aqui. Exponho abaixo a ponte imagética entre as coisas. Peço desculpas antecipadas se, em algum momento, a argumentação ganha contornos chatos e técnicos. Vai ser rápido e eventuais comentários sobre rigor estatístico podem ser desprezados sem perda do argumento geral.

Bora lá!

Eu sinceramente não acredito nas pesquisas eleitorais que estão sendo feitas por aí. As amostras me parecem pequenas, há vieses do entrevistador, os levantamentos por telefone estão suscetíveis a muitos erros, as perguntas induzem as respostas.

Os últimos levantamentos, com o ex-presidente Lula chegando a 39 por cento das intenções de voto, me despertaram especial curiosidade. Se você comparar os resultados obtidos pelos institutos Datafolha, Ibope e Paraná Pesquisas, vê uma diferença muito grande do desempenho nas regiões Sul e Nordeste em cada um dos levantamentos.

Por exemplo, nos estudos da Paraná Pesquisas, mais especialista na região Sul por razões que prescindem de explicação, Lula aparece com 18,1 por cento das intenções de voto. No Ibope, considerando apenas essa região do país, Lula mostra 27 por cento. E, no Datafolha, ele tem 25 por cento no Sul.

A diferença é enorme e, claro, totalmente fora da margem de erro.

Sejamos honestos aqui, com a transparência de sempre: a hipótese mais corriqueira comentada nas ruas é de que cada pesquisa obedece a um determinado interesse, nem sempre muito republicano.

Pode até ser, mas eu não compro essa ideia. Todos são inocentes até que se prove o contrário. Acho que é falta de rigor e de conhecimento de estatística mesmo.

O principal problema é que as amostras me parecem muito pequenas.

Qualquer aluno de estatística básica sabe que, sob a formulação de uma hipótese de como se distribui uma determinada população (normalmente, considerada Normal ou Gaussiana) e sob o conhecimento de sua média e desvio-padrão, podemos inferir qual o tamanho da amostra necessário para que essa amostra represente adequadamente a população.

Então, vão lá os institutos de pesquisa e identificam: são necessárias 2.002 pessoas para uma amostra razoável (note: não é coincidência esse número adotado pelos institutos; vem mesmo de uma fórmula).

A partir daí você precisa estratificar a amostra, para que ela seja representativa. Você vai indo para as grande regiões, depois mesorregiões e, então, microrregiões.

Qual o problema? Você acaba chegando a amostras muito pequenas, em determinadas situações de 15 pessoas, para uma determinada microrregião. Assim, nessa microrregião, você incorre no risco não chegar a uma amostra representativa daquela população.

Ok, sei do contra-argumento. “Recorrendo ao Teorema do Limite Central e à Lei dos Grandes Números, os erros de uma microrregião serão compensados por de outras. A média das médias amostrais converge para a real média da população.”

É o mesmo argumento do estouro da crise subprime americana! Exatamente o mesmo ponto. “Uma hipoteca subprime tem alto risco, mas se a empacotarmos junto a várias outras num único título, o risco diminui muito, porque não dá para imaginar todos caloteando ao mesmo tempo.”

Bom, deu no que deu.

Apêndice técnico: talvez o leitor mais treinado no assunto argumente que as situações não são rigorosamente as mesmas. No caso das pesquisas de intenção de voto entre regiões, as amostras seriam “iid” (independentes e igualmente distribuídas), o que não valeria para o caso do subprime dos EUA, onde haveria interdependência entre o risco de calote. Se um sujeito dá o default, é provável que a situação macro esteja ruim e, logo, o risco de calote de um terceiro seria maior neste caso. É verdade. Apesar desse comentário pertinente, o argumento geral estaria preservado.

Como as amostras são muito pequenas em cada microrregião, pode ser, sim, que elas estejam enviesadas, não sendo suficientes para apelarmos à ideia de que, juntas, os vieses são eliminados.

Veja o seguinte: a região Sul, já que estamos falando dela, representa 15 por cento dos eleitores. Se temos uma amostra total de 2 mil pessoas, deveríamos assumir que 300 pessoas seriam entrevistadas no Sul (a coisa é ainda mais grosseira porque, em muitas vezes, a pesquisa não obedece essa proporcionalidade). Três centenas de eleitores apenas, para três estados, com muita dispersão e variância.

Você vai numa microrregião e entrevista 15 pessoas. Pode, sim, acontecer de as 15 votarem na Marina. Então, você vai numa outra microrregião e também encontra 15 eleitores da mesma candidata – não é absurdo porque é como amostras tão pequenas equivalem a jogar um dado pra cima. Tirar dois seis seguidos seria uma grande coincidência, mas acontece.

Muito incomodados com essas e outras coisas em torno das pesquisas, nós mesmos decidimos contratar uma.

Passei a tarde de ontem com um dos donos de um dos maiores institutos de pesquisa do Brasil. Discutimos o assunto à exaustão.

Primeira conclusão: sem brincadeira, é aterrorizante como são feitas as pesquisas por aqui.

Segunda e definitiva conclusão: ninguém sabe nada.

Sei que há vizinhos, gestores, cunhados, zeladores e analistas convictos de quem vai para o segundo turno e, ainda mais, quem já está eleito. Mas a verdade é que precisaremos esperar e aprender um jeito de conviver com o desconhecido por um tempo.

Da conversa, gostaria de dividir dois raciocínios interessantes.

1. Ainda que não saibamos o que vai ser lá na frente, é muito provável que, independentemente do real vencedor, conviveremos com um buraco negro no meio do caminho. Haverá um momento da “hora mais escura”. Precisamos nos preparar para ela e a forma para isso me parece a obrigatoriedade de termos uma posição razoável em dólares neste momento. Mesmo nos níveis atuais? Sim.

E o que seria esse buraco negro?

Haddad ainda é pouco conhecido por boa parte do eleitorado. Então, quando sair a primeira pesquisa depois da primeira transmutação da história brasileira, ou seja, da formalização do “Lula é Haddad e vice-versa”, o ex-prefeito de São Paulo deve aparece com alguma coisa em torno de 12/13 por cento das intenções de voto.

Mas a hora mais escura ainda não é essa.

O bicho vai pegar mesmo na segunda pesquisa após a transmutação. Aqui o mercado pode entrar em pânico.

Entre o momento atual e a primeira pesquisa com a formalização de Haddad candidato, apenas parte do eleitorado vai conhecê-lo como o “Lula genérico”. Entre o intervalo de tempo da primeira para a segunda pesquisa, a parte remanescente da população vai reconhecer a transmutação. Então, Haddad deve crescer ainda mais nas pesquisas, possivelmente para 14/15 por cento.

Para comemoração da jornalistada petista, as manchetes virão na linha: “Haddad confirma tendência de alta e está muito próximo do segundo turno”.

Daí prepara.

Por incrível que pareça, dai em diante pode ser o momento de crescimento de Geraldo Alckmin. Seria uma espécie de choque de realidade, com a população se dando conta de que a brincadeira precisa acabar, ou realmente teremos um segundo turno sem um candidato de centro.

Precisaríamos também aqui flertar com o abismo para poder encontrar algum crescimento do candidato percebido como reformista.

Se Alckmin é reformista de fato ou não… se vai mesmo aproveitar-se do choque e crescer a partir dai…se esse crescimento vai ser suficiente… Daí não dá para saber.

2. De quem Bolsonaro tem mais chances de ganhar no segundo turno? Haddad.

E de quem Haddad tem mais chances de ganhar no segundo turno? Bolsonaro.

Então, o que os dois vão fazer? Poupar-se mutuamente no primeiro turno e metralhar Geraldo e Marina, o que incrementa as chances, de fato, de um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad.

Resumo da história toda, em termos pragmáticos: se você ainda não tem dólares, compre alguma coisa em torno de 10 por cento da sua carteira disso. A Luciana tem aqui o melhor caminho pra você fazer isso.

Se você fizer isso, talvez o fortalecimento de Haddad não lhe seja assim tão ruim, falando estritamente do ponto de vista financeiro. Peço desculpas se pareço negligenciar as condições mais objetivas e humanas do país. Não é o caso.

Disclosure pessoal: como cidadão, falo com grande dor no coração tudo isso. Na física, odeio a esquerda e o PT. Fui pessoalmente perseguido por eles, chamado de ladrão, de bicha, maconheiro, enquanto transformavam o país inteiro num prostíbulo. Fui processado por Dilma e Lula, acusado de formador de quadrilha e bando – tudo isso por criticar o PT. Também fui capa sucessivas vezes do Brasil 247, do Conversafiada e do jornal GGN. Para não deixar qualquer dúvida do meu desconforto com os vermelhos: sou sócio do site O Antagonista, tendo formulado originalmente a ideia de nossa parceria.

Aqui, porém, estou falando apenas de dinheiro. Espero que entenda isso. Sei que não é a coisa mais importante, nem perto disso. Ao contrário, eu também vejo a destruição de valores éticos e morais a partir da revolução gramsciana e da ocupação cultural na era petista. Mas hoje o assunto é sobre ganhar dinheiro. Só isso.

Se você tiver uma posição razoável em dólares e o câmbio for a sete reais (não subestime o quanto esse negócio pode subir na hora do caos), talvez essa será a maior oportunidade da sua vida de ficar realmente rico.

Nesse caso, o Brasil entraria em liquidação. Lembre-se que no ápice do caos do governo Dilma, Bolsa era 10 mil pontos em dólares, para depois engatar uma grande alta.

Se o dólar for a 7 reais, isso representaria Ibovespa a 70 mil pontos – teria pouco para cair ou ficaríamos ainda mais baratos do que na era Dilma. Quando o dólar anda muito, a Bolsa fica barata para o gringo. E isso já começa a acontecer.

Em se confirmando o caso, veríamos muitas fusões e aquisições, com gringo raspando tudo por aqui. Eu mesmo estive nesta semana com o head brasileiro de um grande private equity global e o racional dele era muito simples: agora podemos voltar a abastecer nosso pipeline. Qualquer transação cujas conversas se iniciem agora vai ser fechada pós-eleições. Então, já vou saber se o dólar é três ou seis reais. Se for três, temos um candidato reformista eleito e o cenário para o país é bom. Se for seis, temos um não reformista eleito e o cenário é ruim, mas o preço é outro, muito mais atrativo – precisamos dar satisfação à matriz e, portanto, sempre pensamos no retorno em dólar.

Antes de ir para as coisas do dia, na condição de fã, parabenizo publicamente a Constellation e, em especial, o amigo Florian pelos lindos 20 anos deste ícone do mercado de capitais brasileiros. Poucos chegaram a tanto. E quase nenhum com tanto brilhantismo.

Depois do tiroteio de ontem, mercados começam o dia mais calmos, com valorização de commodities empurrando mineradoras mundo afora. Agenda traz dois importantes eventos, com discurso de Jerome Powell em Jackson Hole e pesquisa XP/Ipespe.

Investidores voltam às compras em mercados emergentes após grande pressão vendedora na véspera.

Para completar agenda, saem encomendas de bens duráveis nos EUA e PIB da Alemanha. No Japão, inflação ao consumidor marcou 0,9 por cento em julho, abaixo do esperado.

Ibovespa Futuro sobe 1 por cento, dólar cai 0,6 por cento e juros futuros cedem.