Qual é o futuro do seu passado?

Talvez pareça estranho para você, mas há pelo menos três formas de se mudar o passado.

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Qual é o futuro do seu passado?

Talvez pareça estranho para você, mas há pelo menos três formas de se mudar o passado.

Segundo dizem por aí, a primeira delas foi resumida por Pedro Malan no clássico: “no Brasil, até o passado é incerto”. Deveria ser canonizado. Falamos de um país tão bagunçado que regras firmadas ontem podem não valer amanhã. Você assina um determinado contrato e, de repente, algum gênio dá uma canetada e o que era tão sólido quanto a tinta preta sobre a folha sulfite desmancha-se no liquid paper. A chamada incerteza jurisdicional não nos permite confiar nas regras do jogo estabelecidas, de modo que passado e presente tornam-se incertos, podendo ser mudados conforme o humor de um dos Três Poderes.

A segunda maneira pertence ao universo das Finanças Comportamentais, mais especificamente ao chamado viés de retrospectiva. Com o benefício de poder olhar para trás, temos uma tendência a revisitar o passado e fazê-lo caber numa narrativa crível e previsível. Depois do ocorrido, tudo se torna óbvio, claro e linear, como se obedecesse a uma espécie de materialismo histórico. Grandes engenheiros de obras feitas. Dá-se uma nova e estável interpretação para o passado, como se a caminhada percorrida não oferecesse alternativas, fosse absolutamente certa e sem espaço para tergiversar. No fundo, é uma manifestação clara do desejo de controle. Se assumirmos que o passado aconteceu de um determinado jeito por mera imposição de forças aleatórias, que tudo poderia, por uma pequena mudança do destino, ter sido completamente diferente, assumiríamos que assim também seria o futuro – e ninguém quer estar assim tão vulnerável. Se o passado foi linear e previsível, o futuro também será. É muito mais simples conviver com essa ideia. Alerta rápido, vapt-vupt sobre isso: desse viés, desdobra-se um outro, ligado ao excesso de confiança para tomada de decisão. Convictos de que nada poderia ou poderá acontecer diferente, nos achamos capazes de prever o futuro. Nos investimentos, fazemos apostas maiores e mais concentradas do que deveríamos, sem considerar a hipótese mais do que plausível de que podemos estar errados.

E a terceira forma de mudar o passado vem de uma abordagem meio psicanalítica. Em vez de carregarmos as mesmas neuroses e os mesmos traumas de antes, talvez possamos reinterpretá-los, livrando-nos da culpa a partir de um entendimento mais leve dos fatos de ontem. Arejamos os erros e as tragédias do passado, para nos sentirmos livres para fazer algo diferente e melhor no futuro.

Das três opções, a última é a única legal. Dessa eu gosto e é com ela que gostaria de trabalhar hoje. Sabe como é: desde que relacionaram meu último livro na seção “Autoajuda e Esoterismo”, passei a simpatizar com esse lance – a alternativa era virar esotérico; daí já é demais para mim. A velha tática do “quem não sabe ensina”. Engajei-me nessa história de tentar formar “investidores melhores”, fazendo-os reacessar suas neuroses do passado de que não podem ser tão bons quanto os profissionais nisso. Tenho a mesma crença de Peter Lynch, de que o investidor comum tem vantagens sobre o institucional – basta que ele mesmo resolva superar suas próprias convicções de incapacidade.

Mas pra evitar falar muita bobagem, pego emprestadas lições dos outros. É uma espécie de hedge. Pelo menos, as besteiras faladas são dos outros.

Para abrir a segunda-feira, roubo a ideia típica da Bloomberg de sua manchete “Cinco assuntos quentes para a semana”, adaptando para o contexto e transformando-a num “Cinco lições quentes para a vida toda”. Dica de um autor de autoajuda: apresente sua ideia como uma lista; adicione algum adjetivo para chamar a atenção (tipo “quente”) e proponha alguma mudança material na vida do leitor – ah, tente fazer a lista chegar ao número 5; não sei por quê, mas parece ter algo mágico em torno dele. Lá vai meu top 5:

1. “Na minha vida toda, eu não conheci uma pessoa inteligente sequer dentro de alguma área relevante que não passasse boa parte do seu tempo lendo – nenhuma, zero.” – Charlie Munger

Se você quer fazer seu dinheiro render mais, leia sobre isso, mas não precisa ser só sobre isso, sabe? A erudição e a diversidade de conhecimento vão lhe fazer ter ideias para várias situações diferentes. A memória não é apenas um armário, um baú em que colocamos nossas coisas e elas ficam lá estáticas, deitadas em berço esplêndido. A memória é um mecanismo associativo, que conecta várias coisas e nos permite dar um passo além.

Como resumiu Miguel de Unamuno: “Ler muito é um dos caminhos para a originalidade. Uma pessoa será tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”.

2. “O processo decisório de investimentos funciona do seguinte modo: um pequeno grupo de gestores de investimentos vê as conclusões e a lógica dos sistemas que eles mesmos desenvolveram, ao passo que também vão tirando suas próprias conclusões e explorando sua própria lógica. A máquina faz a maior parte do trabalho e interagimos com ela de uma forma qualitativa. Não dependemos de muita gente pouco confiável.” – Ray Dalio

Esse é o maior gestor de investimentos do mundo falando, entende? Ele sabe que não pode confiar nas pessoas, mesmo as mais competentes, no dia a dia. Essas pessoas estão suscetíveis a alterações de humor, disputas de poder, necessidades de provar seu ponto, vieses cognitivos.

Ray Dalio jamais teria transformado sua empresa Bridgewater na potência que é se não tivesse sistematizado os processos. Esse é um passo fundamental para o desenvolvimento do investidor. Anote e formalize seu processo decisório. Crie um checklist a ser seguido e jamais deixe de cumpri-lo, sob hipótese alguma. Escreva num papel as razões de você estar fazendo determinado investimento. Ao longo do tempo, vá checando se os motivos que o fizeram comprar aquilo ainda são pertinentes ou se revelaram impróprios com o passar do tempo. Se houve desvio da rota, não hesite em reconhecer o erro e vender. Quanto mais rápido isso acontecer, melhor.

3. “Ainda tenho uma ampla gama de ações perdedoras que estão cotadas a um preço muito inferior àquele que paguei por elas. Não as mantenho porque sou teimoso ou nostálgico. Eu as carrego porque, em todas elas, as finanças estão em ordem e há evidências de tempos melhores no futuro.” – Peter Lynch

Só pode haver um – e apenas um – critério para você manter uma ação com prejuízo em carteira: há boas razões materiais e objetivas para acreditar que ela vai subir mais do que a média do mercado.

Há uma resistência gigantesca em não vender uma ação no prejuízo. O preço que você pagou interessa somente a você e isso não pode ser critério para manter ou vender determinado investimento. Estar no prejuízo ou no lucro não pode servir de base para suas decisões. Se você está perdendo dinheiro numa determinada posição e não há razões objetivas para acreditar que essa posição vai lhe render lucros, venda e parta para a próxima. Dinheiro não tem carimbo e você pode recuperar o prejuízo do ativo A comprando o ativo B, se as perspectivas para o último foram melhores.

4. “O entendimento é um substituto ruim para a convexidade.” – Nassim Taleb

Essa é uma das minhas grandes batalhas pessoais. Você quer estar certo ou ganhar dinheiro? Investir não é um jogo de quem é mais inteligente, de quem argumenta melhor ou de quem sabe mais. Você está aqui para ganhar dinheiro e ponto final.

Há uma obsessão por entender o que se está fazendo e investir somente naquilo que se compreende. Se a lógica for levada ao extremo, vamos morrer de fome, porque simplesmente não entendemos boa parte do que a gente come.

Nunca entenderemos o mundo. Já desisti há tempos dessa ideia. Resta-nos somente essa tal convexidade, que é montar um portfólio cujos retornos aumentam muito no caso de um cenário positivo, e caem pouco num caso negativo.

Antes de colocar um real em qualquer coisa, se faça duas perguntas: quanto eu perco se estiver errado? Quanto eu ganho se estiver certo? Se o número da primeira resposta for maior do que aquele da segunda, melhor evitar.

5. “Existem momentos nos quais dinheiro pode ser feito especulando ou investindo na bolsa de valores. Mas não é possível fazer dinheiro todos os dias ou todas as semanas em um ano. Só os tolos tentarão. Não faz parte do jogo e simplesmente não pode ser feito.” – Jesse Livermore

Ou como diria papai: “Bolsa tem todo dia”. Você não precisa ganhar todos os dias, nem ganhar todo dinheiro de uma vez. Quem faz muito faz besteira. Malandro que é malandro demais se atrapalha. Em muitas situações, o melhor a se fazer é não fazer nada. A Bolsa privilegia os pacientes e os mentalmente fortes. Tenha sabedoria para esperar e, acima de tudo, não entre em pânico quando todos quiserem sair do teatro correndo ao ouvir gritos de “fogo” – também nunca entre em ondas de euforia.

Já foram as tulipas, as empresas de internet, as hipotecas subprime nos EUA. Talvez agora sejam as criptomoedas ou mesmo as ações de empresas de tecnologia. Sempre há uma mania do momento. Prefira sempre o caminho do meio.

Hoje mesmo, voltamos a ter sempre preocupação com as techs. Depois de Facebook soltar números bem decepcionantes, foi a vez de Twitter na noite de sexta-feira – na semana, ainda temos Apple publicando balanço.

Cresce um temor de que haja uma bolha no setor. Pode até ser, mas há ponderações. Primeiro porque o caminho da tecnologia é inexorável. E depois porque o Facebook sofre problemas particulares desde o escândalo da Cambridge Analytica e Twitter sempre foi uma espécie de patinho feio das redes sociais – quem investe em marketing digital sabe das menores taxas de conversão do Twitter frente às demais.

Amazon continuou porrando, por exemplo. E como cada um tem a Amazon que merece, por aqui Magazine Luiza deve soltar mais um belo resultado trimestral, servindo de gatilho de curtíssimo prazo para as ações. Mas tenho gostado mais de Via Varejo – migrando para o Novo Mercado e apresentando melhora de margens depois de muito tempo, a companhia pode estar “preparadinha” para se engajar num movimento de consolidação.

Na esfera macro, semana é muito quente, com reuniões do Fed, do Banco do Japão e do Banco da Inglaterra. Saem ainda o importante PCE (inflação) e o Relatório de Emprego nos EUA. Hoje especificamente saem vendas pendentes de imóveis e atividade em Dallas medida pelo Fed local.

Por aqui, atenção para IGP-M, superávit primário do setor público consolidado e relatório Focus.

Mercados abrem negociações de lado, ponderando preocupação com techs, queda de mineradoras no exterior a partir do recuo do cobre e conversas sobre aliança política – na margem, investidores têm aumentado confiança na candidatura de um reformista; sabe lá Deus até quando.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,17%, dólar e juros futuros também estão perto da estabilidade.

Fora de toda essa incerteza, convido você para uma verdadeira aula de como ganhar muito dinheiro em leilões de imóveis. Há um jeito simples e rápido.