Quando o Macro vacila

Por mais que tente chamar atenção para casos particulares, o macro insiste em aparecer também. Como aquela criança egoísta que quer tudo para si, ele traz referências importantes nesta terça-feira.

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Quando o Macro vacila

Eu me lembro de quando faltava energia na cidade. Em meio às velas e às pingas, meu avô Dácio puxava a cantoria: “Ow, Senhora do Porto, cidade que seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. Era um retrato do Brasil profundo, para onde olho quando tento entender Jair Bolsonaro, Lula, Ciro Gomes, o apoio à greve dos caminhoneiros e os xingamentos a Neymar. Ali passei as férias escolares, do pré à universidade.

E também ali passei a amar Minas Gerais mesmo nas horas mais escuras. O problema sempre foi amar demais. Amava aquele jogo triste, amava Senhora do Porto até pela falta que ela me fazia, pela sua essência. E até pelo que a cidade poderia ter sido, se a maré das circunstâncias não a tivesse banhado nas águas do equívoco.

Sem luz na praça e sem bar aberto para beber, íamos todos ao terraço de uma casa no alto da montanha, de onde podíamos observar a cidade inteira. A gente se reunia em torno de uma mesa e um baralho, concentrados no truco e na garrafa de Chapinha – não necessariamente nessa mesma ordem. Às vezes, tinha rum, quando conseguíamos roubar o Montilla dos tios do Alberti.

Eu escapava da mesa. Com algum esforço, afastava-me também dos gritos de “vale seis, rato!” e procurava algum canto daquele quintal. Buscava distanciamento de todo o barulho, que conseguia depois de uma viagem para dentro. Os efeitos da introspecção eram muito mais poderosos do que aqueles dos fones de ouvido da Apple.

O mais interessante a se observar não eram as cartas despejadas sobre a mesa de plástico amarelo da Skol. Eu ia para um canto atrás de silêncio e de olhar para cima com calma, para poder ver as estrelas cadentes que passavam contrastando com toda aquela escuridão.

Era um momento mágico, uma voando atrás da outra, quando a revoada cósmica se confundia com um encontro com minhas partes mais íntimas. Foram raras as situações de magia tão nítida. Essas carrego comigo e tento passá-las para a frente. Antes de ser um bom financista, quero mesmo ser um bom pai. E por isso levei o João Pedro nesse mesmo lugar. Ele também conseguiu se teletransportar para sua terceira margem do rio. Isso me alegrou, montão. “Esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.”

Enquanto todos se distraíam com o barulho e a Chapinha, havia algo muito mais especial ao fundo, longe da reluzente superfície. Precisamos enxergar além daquilo que atrai aos olhos e aos ouvidos de maneira mais imediata e estridente.

Não vamos encontrar momentos mágicos lendo as manchetes de jornal. Pepitas de ouro não podem ser extraídas da tela de seu iPhone ou desktop.

Temos de nos afastar do que é percebido por todos na camada superior. A parte mais óbvia do gramado é aquela com a grama mais pisada.

Enquanto estão todos focados nas pesquisas eleitorais, na guerra comercial entre EUA e China e na subida de juros nas economias desenvolvidas, algo realmente importante acontece ao fundo.

No âmbito microeconômico, há uma porção de novidades marcantes rolando, com capacidade de produzir lucros expressivos, alguns deles no curto prazo, para o investidor.

Abre um parêntese rápido: acho curioso — para dizer o mínimo — a porção de gestores de ações que se dizem buffettianos e estão, neste momento, absolutamente obcecados pelo cenário macroeconômico, esquecendo-se das idiossincrasias micro. Fecha parêntese.

Da agitação corporativa mais gritante, destaco cinco elementos com potenciais de lucros significativos para o investidor, alguns deles a curto prazo:

• Há uma movimentação bem interessante em torno do controle da Energias de Portugal, com possíveis desdobramentos imediatos para Energias do Brasil. Não me surpreenderia se surgisse uma guerra de preços para este negócio, inclusive gerando implicações para todo setor. Veja o que aconteceu com Eletropaulo..

• Veja o que aconteceu com Eletropaulo II: olha Alupar. Ativo de alta qualidade, negociando a uma elevadíssima TIR real em Bolsa, às vésperas de importante leilão de transmissão. Chance de pegar um movimento societário aqui nos próximos 12 meses me parece nada desprezível. E se não acontecer, você compra um ativo bom e barato.

• Vale ler matéria da “Folha” hoje dizendo como a guerra comercial entre os EUA e a China pode acabar tendo um efeito positivo sobre o Brasil, alternativa clara para o capital asiático. Já está acontecendo, mas movimentação pode acelerar bem agora. Infraestrutura, utilities, tecnologia e agribusiness seriam setores-alvo um tanto claros.

• Na sexta-feira, enquanto todos assistiam ao jogo do Brasil, a ANS fixou em 10% o índice máximo de reajuste a ser aplicado aos planos de saúde individuais e familiares, entre maio de 2018 e abril de 2019 – o valor veio acima do cogitado e pode oxigenar bastante o setor. Sempre gostei muito de Fleury, que ganhou um reforço na preferência depois da medida. Hapvida no preço do IPO também parece bem legal.

• Faz sentido toda essa posição short e essa taxa de aluguel sobre Raia? Se o resultado não vier tão ruim quanto se ventila por aí (e a minha visão é de que não vem), pode gerar short squeeze geral. Alternativamente, pense em comprar e disponibilizar a ação para aluguel.

Por mais que tente chamar atenção para casos particulares, o macro insiste em aparecer também. Como aquela criança egoísta que quer tudo para si, ele traz referências importantes nesta terça-feira. Ata do Copom trouxe uma mensagem, na margem, um pouco mais aberta sobre juro, ao reforçar possibilidade de movimentação da Selic na próxima reunião – nem me parece o caso material, mas a comunicação agora é acertada; não há por que se comprometer neste momento de muita indefinição do cenário externo. Juros futuros recuam, digerindo documento do Copom e leve baixa do dólar contra o real.

Ainda sobre política monetária, CMN define à noite meta de inflação para 2021. Agora há pouco, IPC-Fipe apurou alta um pouco acima das projeções.

Nos EUA, seguem as preocupações da guerra comercial com a China, com declarações, ameaças, mordidas e sopros para todo lado. Mais tarde, saem confiança do consumidor e atividade regional do Fed de Richmond. Argentina atualiza taxa básica de juro, o que pode ser referência interessante depois da desvalorização recente do peso.

De olho no comportamento das Bolsas no exterior e no recuo dos metais diante da preocupação com guerra comercial, Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,4%.