Sinal de alerta ligado

Eu não faço previsões. Mas se vejo uma grande nuvem negra se aproximando, às vezes me arrisco a dizer: desconfio que talvez possa chover. Antecipo […]

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Sinal de alerta ligado

Eu não faço previsões. Mas se vejo uma grande nuvem negra se aproximando, às vezes me arrisco a dizer: desconfio que talvez possa chover.

Antecipo uma provável situação desagradável a ser observada nos próximos meses e anos no portfólio dos investidores individuais. Curiosamente, esse problema já acontece hoje nas carteiras de investidores profissionais e multimilionários, sem que eles percebam, claro. A indústria não quer que eles identifiquem essa barbaridade, pois ela se apropria do problema a partir de altas taxas, colhidas por muito tempo de seus clientes endinheirados. É capaz até de criar uma narrativa para acreditar nas próprias mentiras — se forem sinceras, sempre interessam.

Já chego lá. Antes, um questionamento ao discurso preconceituoso sobre o varejo e algumas palavras sobre estrutura de incentivos.

Há uma história contada por ai de que o investidor de varejo se comporta de forma inadequada, de que comete muitos erros na montagem e no carregamento de sua carteira. Ele precisaria, portanto, sempre ser monitorado e protegido pelos verdadeiros profissionais de investimento, as freiras do prostíbulo. Ou seriam as raposas no galinheiro?

Ocorre que o erro típico de alocação comentado aqui hoje já é cometido com frequência e intensidade por investidores profissionais e clientes de private bankings ou grandes gestoras de patrimônio. Atraídos por promessas de altos retornos (sim, eles também são movidos por um dos mais primitivos sentimentos humanos, a ganância!), acham que estão fazendo um movimento sofisticado e alinhado aos princípios da diversificação. Na verdade, não estão.

O problema maior é que essa alocação desequilibrada e desalinhada ao interesse do investidor começa a chegar ao varejo. E daí pega pra mim.

Agora um comentário brevíssimo sobre incentivos. As pessoas respondem a eles, sabe? Então, se aponto problemas na estrutura de alocação proposta por alocadores ou vendida por agentes autônomos (alguns deles também acabam propondo uma alocação, mesmo sem poder, mas façamos vistas grossas pra isso), não é por uma questão pessoal. É uma questão justamente de incentivos, que provoca desalinhamento entre os interesses do alocador (ou do agente autonômo) e do investidor. Sempre que a recompensa/remuneração do vendedor estiver desalinhada do interesse do comprador teremos problemas. Aquele que vende tem incentivos financeiros para atuar no melhor interesse daquele que compra? Ele ganha ou perde junto com o cliente? Ou sua remuneração independe disso, sendo atrelada a outros elementos que não sejam o resultado dos lucros/prejuízos do investidor?

Quando as coisas não estiverem casadas, o vendedor tenderá a atuar conforme seu próprio interesse individual, maximizando o próprio lucro, ainda que isso possa ferir o comprador. Precisa estar claro que não é um defeito do vendedor. O camarada está apenas lutando pelo próprio prato de comida. Não há ética capaz de sobrepujar a sobrevivência. Enquanto não mudarmos a estrutura de incentivos, poderemos substituir as pessoas….o problema vai continuar lá. Logo, não pode ser um problema com as pessoas…

Essa é uma regra geral, mas quero falar de um caso particular, em que esse desalinhamento é gritante e vai fazer feridas no investidor individual. Falo especificamente dos fundos de private equity.

Se você pegar uma alocação de investimentos recomendada pelas grandes gestoras de investimento ou mesmo alguns private equities de bancos, vai ver um percentual entre 10 a 15 por cento reservado para essa categoria de fundos. Ao mesmo tempo, fundos de ações tradicionais ficam ali em torno de 5 por cento — nos casos mais agressivos, vão para 10 por cento.

Isso não faz sentido. Qual a razão de se amarrar num fundo de private equity por, sei lá, sete anos, tendo exposição, muitas vezes, a empresas fechadas, sem liquidez e sem bom acesso à informação? Se fosse um tequinho de seu portfólio, de maneira diversificada, eu até entenderia… mas 15 por cento? Mais do que os fundos de ações, em que você saca muito mais fácil, possuem mais liquidez e oferecem maior disclosure de informações? Nem precisamos entrar no histórico amedrontador do resultado médio dos fundos de private equity no Brasil. Ficamos no argumento geral mesmo.

E por que acontece tamanha exposição aos fundos de private equity? Porque se você amarra o investidor por sete anos num fundo (exatamente como são os private equities), às vezes até por dez anos, ele fica pagando ao alocador ou ao assessor taxas de rebate por todo esse tempo.

Imagine que o alocador/agente autônomo sugere ao investidor uma posição num determinado fundo de ação. O fundo comete um ou outro erro no mês seguinte, caindo bem mais do que a Bolsa. O que ocorre? O investidor fica furioso e saca à primeira oportunidade, deixando de pagar taxa para seu assessor financeiro.

No private equity, não. Ali, a história é uma delícia (para o alocador, claro). Você pega um ou dois casos de sucesso estrondoso, aponta para o investidor um retorno brutal (embora raros, eles são sempre possíveis e, em retrospectiva, eu consigo selecionar os maiores sucessos — a beleza do cherry picking!) e coloca as algemas no investidor por uma década. O negócio não tem volatilidade, porque os investimentos não estão listados em Bolsa, e vai sendo marcado na curva ou conforme algum critério de avaliação arbitrário do fundo. Convive-se bem por anos e anos. O investidor não vê potenciais problemas no meio do caminho — ele está apenas alijado do bom acesso à informação típico da marcação a mercado, mas prefere não conviver com a volatilidade. Os problemas ficam escondidos sob o tapete até que…. boom! Temos uma surpresinha lá na frente.

Esse alerta ocorre agora, quando as plataformas tradicionais de distribuição ao varejo começam a flertar mais intensamente com os fundos de private equity. Logo, logo virá o canto da sereia para convencer a pessoa física. Amarre-se ao mastro, coloque cera no ouvido. Lembre-se o quão sedutor pode ser esse som. Na dúvida, só pergunte qual a taxa de rebate seu assessor vai receber por aquele fundo que ele quer empurrar por sete anos.

Vou aproveitar que a Luciana Seabra chegou descansada de uma semana de férias, carregando um raríssimo bom humor, para apontar outro erro na alocação de fundos de investimento (sim, ele acaba de ser cometido também por investidores profissionais). Deixo claro: quem entende mesmo desse segmento de mercado é a Luciana, pra mim, hoje a pessoa mais relevante dessa indústria no Brasil. Mas dou aqui também meus pitacos.

Muita gente acaba de perder dinheiro com fundos multimercados — parte dessa turma foi atrás de diversificação e exposição em ações. E o que encontrou? Um belo instrumento de concentração (você leu certo) e uma desmontagem enorme de posições em contratos futuros de Ibovespa no pior momento.

Em tese, o multimercado se presta mesmo a uma estratégia de diversificação. Em determinados momentos, porém, pode atuar na direção oposta. Imagine que você tenha uma grande posição pessoal em NTN-B (títulos indexados ao IPCA). Então, você quer diversificar e compre um tal fundo multimercado. Ocorre que esse mesmo fundo também tem lote de NTN-B. Ou seja, você acabou aumentando a concentração de seu portfólio, porque entrou numa caixa preta assinando um cheque em branco para o gestor, cujas convicções acabaram convergindo para as suas.

Outro ponto me preocupa mais: a atuação desse tipo de fundo no mercado de ações. Sendo direto e transparente, a verdade é que gestor de multimercado no Brasil não entende de Bolsa. Mesmo os melhores, dominam câmbio e juro, mas manjam pouco do segmento Bovespa.

O sujeito que realmente entende de ações sai de dentro do fundo multimercado e monta seu próprio FIA. Isso acontece porque as ações são mais convexas do que os demais mercados convencionais, oferecendo ao gestor uma chance maior de uma grande porrada ao final do ano, que render-lhe-ia uma generosa taxa de performance, justamente o grosso de sua remuneração — de novo, uma questão de incentivos.

Se você quer ter uma exposição a ações via fundos, não obtenha isso por meio de um multimercado. Invista num fundo de ações propriamente dito.

E é uma questão de vice-versa, valendo a volta também. Cuidado com fundo de ações metido a multimercado. Nada pior do que gestor de FIA metido a trader de câmbio e renda fixa. Você procura Bolsa e o sujeito estraga sua exposição à renda variável negociando inclinação de curva de juros e vértices do cupom cambial.

Para saber os melhores fundos para se investir, recomendo fortemente a assinatura da série da Luciana Seabra. Guie-se pelo que há de melhor.

Mercados brasileiros iniciam a terça-feira próximos à estabilidade. A pressão por realização de lucros, resultado um pouco abaixo do esperado de Itaú e desaceleração da produção industrial na medição oficial chinesa imprimem certa cautela. Em contrapartida, certo otimismo no exterior com manutenção de uma postura expansionista pelo Banco do Japão, frustrando aqueles que esperavam uma atitude mais dura, inibe o pessimismo.

Agenda é bem importante lá fora. Olhos atentos ao PCE, aos gastos e à renda do consumidor norte-americano. Na Zona do Euro, saem PIB e preços ao consumidor.

Por aqui, temos dados de desemprego da PNAD e início da reunião do Copom, além da digestão da entrevista de Jair Bolsonaro ao “Roda Viva”. Nada muito novo ali.

Os jornalistas fazem perguntas para si mesmo e para seus pares. Escrevem e perguntam para ficar bem com os coleguinhas, às vezes até de maneira inconsciente. Então, insistem em questões sobre temas caros aos próprios jornalistas, negligenciando o que é caro para as pessoas em geral — ir para outros assuntos implicaria sair de sua zona de conforto e debater temas que o próprio jornalista não domina. Foram 225 perguntas sobre ditadura militar, 4.772 a respeito de minorias e duas de economia. Como teremos as respostas se os jornalistas não sabem as perguntas? O entrevistado agradece por ter de falar somente sobre coisas que domina.