Soros e as Eleições

“For those about to rock (we salute you)” Se você entrou neste texto esperando críticas a George Soros por sua conexão com a Mídia Ninja, […]

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Soros e as Eleições

“For those about to rock (we salute you)”

Se você entrou neste texto esperando críticas a George Soros por sua conexão com a Mídia Ninja, por seu financiamento a posições de esquerda em geral ou por seus lucros supostamente impróprios no mercado financeiro a partir de sua atuação política, desculpe decepcioná-lo.

Hoje não falo de sua atividade política, nem mesmo de sua carreira como investidor. Essa história de carreira vale mais para o Maradona, que não sossega nem durante a estreia da Argentina – parece que o cara fica dando teco em plena arquibancada.

Para mim, Soros transborda tudo isso. Escrevo sobre o filósofo George Soros. Talvez não seja claro para todo mundo, mas o megainvestidor passou a vida inteira atrás de respeito intelectual, aparentemente frustrado por não ter recebido de Karl Popper o devido reconhecimento.

Antes das críticas, por favor, leia a brilhante biografia “George Soros: Definitivo”, de Robert Slater. A mente criativa alheia já conseguiu afirmar que até eu mesmo recebo bola do Soros para falar bem dele. Caráter pode ser medido pela forma com que você trata as pessoas que não podem fazer nada por você.

Mais do que rico, Soros queria ser um filósofo renomado. E é dessa filosofia que quero tratar hoje. Já a conectei com aspectos estritos do mercado financeiro. Desta vez, procuro ligá-la às eleições – claro, sempre com o objetivo de relacionar o evento às possibilidades de investimento disponíveis e a como o leitor pode ganhar dinheiro com isso.

Deixe apropriar-me de uma parte de sua primeira palestra na Central European University. O trecho é um pouco longo – e eu peço desculpas por isso –, mas vale a pena:

‘É possível resumir a ideia central em duas proposições relativamente simples. A primeira é que, em situações com participantes pensantes, a visão do mundo dos participantes é sempre parcial e distorcida. Este é o princípio da falibilidade. A segunda é que estas visões distorcidas podem influenciar a situação a que estão ligadas porque as visões falsas levam a ações inadequadas. Este é o princípio da reflexividade.

Por exemplo, tratar toxicodependentes como criminosos cria um comportamento criminoso. Distorce o problema e interfere no tratamento adequado. Noutro exemplo, declarar que o governo é mau tende a criar um governo mau.

(…)

O conceito de reflexividade, em particular, tem sido cuidadosamente evitado e até negado pela teoria econômica.(…) Seu reconhecimento foi sacrificado à vã demanda da certeza nas questões humanas, especialmente na economia; no entanto, a incerteza é a característica principal das questões humanas. A teoria econômica está construída com base no conceito de equilíbrio e este conceito está em contradição direta com o conceito de reflexividade.

(…)

A reflexividade necessita de maior explicação. Aplica-se exclusivamente a situações que têm participantes pensantes. O pensamento dos participantes tem duas funções. Uma é compreender o mundo em que vivemos, que designo por função cognitiva. A outra é mudar a situação para nossa vantagem, que designo por função participativa ou manipulativa. As duas funções ligam o pensamento e a realidade em direções opostas. Na função cognitiva, a realidade deve determinar as perspectivas do participante; a direção da causalidade é do mundo para mente. Inversamente, na função manipulativa, a direção da causalidade é da mente para o mundo – ou seja, as intenções dos participantes têm efeito no mundo.

Quando as duas funções operam ao mesmo tempo, podem interferir uma na outra. Como? Ao privarem cada função da variável independente que seria necessária para determinar o valor da variável dependente: quando a variável independente de uma função é a variável dependente da outra, nenhuma das funções tem uma variável genuinamente independente.”

Soros quer dizer que há endogeneidade no processo. Em outras palavras, a realidade influencia as expectativas; e as expectativas influenciam a realidade. Não é um processo de causa e efeito de mão única. A dinâmica é dialética.

Não há o valor das ações e a percepção dos agentes econômicos de maneira separada. Uma coisa influencia a outra e, por isso, o próprio conceito de valor intrínseco (apartado de questões alheias à empresa) está em risco. A própria expectativa é um fundamento, determinante do valor (e não somente do preço) de uma empresa.

A proposição de Soros enquadra-se perfeitamente também para a política. Explico minha apropriação da ideia. Parto do começo.

Depois de uma longa e dura sequência de perdas, os mercados brasileiros anotaram ganhos marcantes na véspera. Para mim, a grande razão para a valorização não é nenhuma daquelas ventiladas pelos jornais desta quarta-feira.

O pessoal resolveu ir às compras atrás de barganhas por conta de um rumor no mercado de que Geraldo Alckmin vem forte na próxima pesquisa eleitoral da XP. Não sei se é verdade; só sei que foi assim.

Onde quero chegar com tudo isso?

Numa aplicação da teoria da reflexividade, a mera expectativa de que Alckmin pode crescer nas pesquisas pode levar ao efetivo crescimento de Alckmin nas pesquisas e, mais do que isso, até mesmo à sua material eleição.

Há muitos eleitores avessos a votar no candidato do PSDB justamente porque não acreditam na sua força competitiva. No momento em que perceberem que Alckmin pode, sim, ir ao segundo turno, essa expectativa pode se transformar em concreta intenção de voto.

Na esfera político-partidária, se o tucano começasse a crescer com mais velocidade, seria natural atrair o Centrão e outras forças para si. Isso resultaria em mais tempo de TV, mais apoio de prefeitos e até mesmo de veículos de mídia, sejam eles locais ou nacionais.

O próprio Paulo Guedes tem justificado por aí seu apoio a Jair Bolsonaro com o bordão: “Eu quero estar com quem vai ganhar”. E se, de repente, surge a expectativa de que quem vai ganhar é Geraldo Alckmin?

Tenho afirmado com certa recorrência que ainda é muito cedo para cravarmos um resultado das eleições. O jogo sequer começou de fato. Muita água passa sob a ponte até a campanha na TV e existe um mar de gente entre indecisos e sem candidato. Também não sabemos como será o comportamento de Bolsonaro quando efetivamente for bombardeado e tiver de falar alguma coisa com um mínimo de profundidade. Em complemento, Ciro já começa a ser Ciro – perto de um microfone, ele se explode sozinho; a natureza cuida.

O mais interessante dessa história todo, pensando no nível de mercados e investimentos, é que, aos preços atuais, Bolsonaro parece mais do que precificado; Marina também estaria mais ou menos no preço, sob o escudo de Giannetti e Lara Resende; Ciro ainda exigiria um ajuste negativo nos preços, mas sinceramente parece improvável neste momento – e sejamos justos: de uma forma ou de outra, mesmo que atabalhoado, ele tem demonstrado preocupações fiscais de maneira recorrente, além de ter governado Fortaleza e o Ceará sem déficit. Alckmin está totalmente fora do preço e virou 100% upside.

Em complemento, precisamos separar ideologia de pragmatismo. Mesmo um presidente de esquerda como Lula fez um primeiro governo totalmente pró-mercado, simplesmente porque as condições materiais o empurraram para isso. A economia acaba ditando a política. A agenda se impõe sozinha. O campo escala, nas palavras do Tite.

A necessidade de ajuste fiscal e, mais especificamente, da reforma da Previdência transborda este ou aquele partido. Com discurso radical, o próximo presidente será simplesmente expelido pelo Congresso. A gente vem da maior recessão da história, com desemprego brutal e dólar já alto. Se o sujeito não endereçar a questão fiscal, a economia explode, a população volta para a rua e o Congresso inventa um motivo qualquer para impedir o presidente. Ou você faz o ajuste por bem ou ele será feito via inflação, que é algo extremamente impopular e pior para o pobre, sendo um mecanismo concentrador de renda.

Por isso, o risco de um presidente radical (não confundir com candidato radical) parece um pouco contido.

Tenho sido frequentemente perguntado se ainda acredito no Segundo Mandato Temer, ou seja, na vitória da agenda de reformas. A resposta é bastante objetiva: sim. Por duas razões: i) não há alternativa; ii) o jogo só acaba quando o juiz apita.

A parte boa dessa história toda é que o Segundo Mandato Temer virou uma opção de graça.

Mas sem ilusões: o passeio vai ser com emoção. Mesmo os maiores bull markets da história passam por correções de até 60%. O investidor precisa estar preparado para isso se procura capturar todo o movimento positivo. Acertar topos e fundos do mercado é simplesmente impossível – há aqueles que não sabem e aqueles que acham que sabem (os idiotas convictos são os piores); não existe um terceiro grupo.

Por mais incrível que possa parecer, a cultura brasileira, principalmente em ano de eleição, é rock’n’roll, não é bossa nova. Ainda bem!

Em dia de alívio externo, mercados brasileiros começam as negociações demonstrando ganhos. Começa a ser mais consensual prognóstico de manutenção da taxa Selic nesta quarta-feira, com Banco Central sendo, ao menos até o momento, bem-sucedido em sua estratégia de intervenção no câmbio.

Lá fora, há uma menor preocupação com a guerra comercial entre EUA e China, com silêncio do secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, sendo interpretado como contrariedade à política de Donald Trump.

Na agenda internacional, evento com presidentes do Fed, BCE e BoJ são destaque, além de dados de moradias nos EUA e estoques de petróleo norte-americanos.

Por aqui, há grande expectativa por definição sobre cessão onerosa e alguma tensão após absolvição de Gleisi Hoffmann pela 2ª Turma do STF, a mesma que vai julgar Lula dia 26.

Ibovespa Futuro abre em alta de 1%, dólar cai 0,7% contra o real e juros futuros recuam.