Day One

Uma conversa com a lenda Luiz Alves

Confira os melhores momentos da conversa com Luiz Alves, um dos maiores investidores de ações do Brasil, sócio do fundo Alaska, com a equipe da Empiricus.

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Data de publicação
12 de janeiro de 2018
Categoria
Day One

“Wall Street é o único lugar do mundo onde pessoas que andam de Rolls-Royce pedem conselhos a quem pega metrô.” A frase é de Warren Buffett e ela não sai da minha cabeça.

Luiz Alves esteve aqui ontem. Passou a manhã numa conversa conosco. Corrijo: acho que o termo apropriado não é conversa, mas, sim, aula. Numa situação dessa, você senta, fica quieto, escuta e aprende. Uma das coisas que agradeço diariamente é pela interlocução desenvolvida nos últimos anos, que, sinceramente, nem me acho digno de merecer.

Caso não o conheça, Luiz Alves é um dos maiores investidores de ações do Brasil, sócio do fundo de ações (Alaska) que liderou o ranking da indústria nos últimos dois anos de forma consecutiva, profundo conhecedor da dinâmica macro e micro da renda variável, capaz de discutir cada case listado em Bolsa de prontidão, um belo contador de causos e inteligentíssimo. Ah, claro, para afastar de vez a desconfiança dos fariseus, ele é muito rico – no seu fundo exclusivo, há mais de 2 bilhões de reais somente em ações. Acima de tudo, no trato pessoal, é um doce.

Há várias Empiricus dentro de uma só. A minha – e não estou aqui dizendo que é a certa; apenas como eu a vejo – se liga a uma instituição que leva às pessoas físicas estratégias de investimento tão boas quanto aquelas praticadas pelos (melhores) profissionais do mercado financeiro. Se eu puder, mesmo que marginalmente, reduzir a distância entre a forma com que o dentista de Cuiabá lida com seu dinheiro e a maneira com que Luiz Alves (ou qualquer outro grande financista genial; poderia ser o Stuhlberger, o Rogério Xavier, sei lá) o faz, estarei feliz. Trato isso como uma espécie de vocação, um chamamento impossível de se ignorar.

É com esse espírito que apresento uma espécie de “melhores momentos” da conversa de ontem.

1. A Bolsa brasileira vai subir muito mais do que você imagina. E isso é inexorável. A gente se esquece, mas os ciclos são sempre maiores e mais profundos do que concebemos a priori. Há uma capacidade ociosa brutal, as empresas estão crescendo receita, fizeram a lição de casa e não há capex por fazer. A geração de caixa vai ser simplesmente brutal. Isso volta pro acionista necessariamente.

2. A maior parte das pessoas vai achar o argumento acima inadequado. Então, quando a Bolsa tiver multiplicado por algum fator, ela passará a ser a queridinha. A pessoa física vai sofrer pressão da indústria bancária e da imprensa tradicional para comprar ações, quando já tiver subido muito e for a hora de vender. Assim, perderá um bocado de dinheiro, ficará machucada e pegará trauma da Bolsa, simplesmente porque foi estimulada a entrar na hora errada.

3. Não importam muito o presidente, a reforma da Previdência, a perda do rating ou o julgamento do Lula. Esses até podem ser elementos que nos permitam aproveitar a volatilidade de curto prazo. Certamente, darão muitos sustos. Nada, porém, muda a tendência principal, que depende muito mais do momento do ciclo econômico. E esse é muito favorável agora. Ponto final.

4. Talvez o Lula nem saia para presidente. Ele tem problemas pessoais e familiares muito sérios para resolver. Pragmaticamente – e devemos nos lembrar que ele é um pragmático -, pode ser muito mais simples sair para deputado federal (ou qualquer coisa parecida) e garantir o foro privilegiado.

5. Em poucas vezes na história, as commodities estiveram tão baratas relativamente aos demais ativos. A economia global está forte, a Europa volta a crescer depois de 15 anos e dos EUA ninguém duvida. Preço de longo prazo do minério de ferro é 80 dólares por tonelada, bem diferente dos 50 que todo mundo tem na conta. Isso muda radicalmente o jogo para a Vale, que pode se multiplicar por mais de 3x em dólar se o prognóstico para a commodity subjacente for confirmado.

6. “Estamos namorando Petrobras depois de muito tempo.”

7. Uma carteira é como um time de futebol. Precisa de defesa, meio-campo e ataque. Equilíbrio, ao melhor estilo Tite. Ou, diversificação, ao estilo Markowitz. Lendas obedecem à tradição e a turma lá joga no consagrado 4-3-3, com dois pontas bem abertos (Marcopolo e Randon) e um centroavante fixo, vindo de dois anos seguidos como bola de ouro (Magazine Luiza).

8. No IPO, o vendedor de ações está estourando champanhe. Se o vendedor está comemorando, como deveria estar o comprador? No mínimo, chorando, né? Em ofertas públicas, o investidor encontra-se do lado ruim da assimetria de informação. O vendedor escondeu tudo de ruim do balanço, antecipou tudo que poderia de bom e provavelmente empurrou para baixo do Ebitda despesas que na verdade são operacionais. Espere ser listado, estude alguns trimestres, deixe passar a camuflagem do balanço e somente então, se achar apropriado, compre.

9. “Faça a conta de TIR e dividendos de Comgás ao longo do tempo. É uma enormidade de retorno para o acionista. Vai continuar assim, porque está gerando um caixa brutal e não tem o que fazer com o dinheiro.”

10. E para quem quer arriscar em negócios bem problemáticos, com altíssimo risco, baixa liquidez e também problemas de governança, sob a contrapartida, claro, de retorno potencial muito grande, alguma possibilidade? Sabendo que há muito risco, exige-se horizonte de longuíssimo prazo e há pouca liquidez, talvez Coteminas e Login ainda sejam, lá na frente, histórias para se contar.

Sob o risco de soar arrogante, entendo que algo me aproxima do Luiz Alves – definitivamente, não é a conta bancária. Ele tem 70 anos, é bilionário e passou décadas longe da gestão de recursos de terceiros. Somente agora, depois de ganhar muito dinheiro para si, aceitou tocar a grana dos outros. É uma espécie de recomeço. O Day One é um estado de espírito. Tem que manter isso, viu? Esse sorriso doce é encantador.

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