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Rumo à riqueza dos sentimentos morais

Citei Jung no Day One de quinta-feira e me vieram com provocações do tipo: “Seu trouxa, babaca, Freud é melhor que Jung!”.

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Data de publicação
25 de agosto de 2019

Citei Jung no Day One de quinta-feira e me vieram com provocações do tipo: “Seu trouxa, babaca, Freud é melhor que Jung!”.

Eu não tomo partido nesse tipo de disputa, levo só na esportiva.

Então, para ser justo, quero tentar equilibrar o jogo hoje.

Para Freud, a existência humana se apoia – fragilmente, é claro – sobre um tripé: id, ego e superego.

Aliás, muito mais legal que o trilema impossível dos macroeconomistas, que tentaram copiar Freud com livre fluxo de capitais (id), política monetária endógena (ego) e câmbio fixo (superego).

Se você já sentiu algum impulso primitivo na vida (espero que sim), sabe exatamente qual é o papel do id. Necessidades viscerais e desejos lascivos, ignorando amarras materiais ou sociais.

Fossemos pautados apenas pelo id, seríamos todos discípulos de Baco. Neste momento, você estaria bêbado, dançando, transando, e jamais lendo uma newsletter financeira com alusões baratas à psicanálise.

Você só está lendo esta newsletter pois o ego regula a interação do id com o mundo exterior, ponderando por limitações de ordem material (não é possível atravessar paredes, precisamos de trabalho para ter dinheiro para comprar gostosuras).

E está lendo também pois o superego lembra de lhe impor outras limitações, de ordem social e cultural.

Gosto de pensar que o id é a criança, o ego é o adolescente e o superego é o adulto. Somos tudo isso ao mesmo tempo, mas só percebemos quando já estamos velhos demais para deixar que a tríade se equilibre em pesos rigorosamente idênticos.

Se você quer parar por aqui, fique à vontade. Para uma tarde de domingo, já fez esforço demais. Obrigado pela leitura!

Já se quer continuar, buscaremos uma nova distração para estas próximas linhas: imaginar o que Freud diria sobre o estado atual da macroeconomia global.

Há uma clara identificação entre as coisas econômicas e o embate direto de id versus ego. 
Aquelas leis que hoje entendemos como núcleo duro da teoria econômica surgiram justamente desse embate, que é o embate da melhor alocação possível para recursos sabidamente escassos.

Mais recentemente, porém, o superego resolveu entrar em campo, por meio daquilo que apelidamos de “economia comportamental”, “modern monetary theory” e demais expressões da moda.

Na verdade, esse lance do superego já tinha começado com os sentimentos morais de Adam Smith, von Mises, a tradição da economia política, etc; mas foda-se, não dá pra falar de tudo em uma newsletter de domingo.

O que está acontecendo agora, neste momento, com as economias desenvolvidas do Planeta Terra?

Vamos admitir: o ego já não é mais tão capaz de “domar” o id sozinho, pois as restrições estritamente materiais estão se tornando menos limitadoras à medida que a humanidade evolui.

Em particular, o dinheiro deixou de ser tangível como o ouro. Torna-se um dinheiro digital, que depende unicamente da fidúcia.

Moeda confiável é moeda livre para ser distribuída por helicópteros ou para ser guardada em local seguro por um custo módico (juros negativos).

De repente, as velhas ordens de superávit fiscal e controle inflacionário, historicamente propagadas com austeridade pelo ego, perderam a razão de ser para as economias desenvolvidas (o Brasil ainda está muito atrás).

No limite último dessa tendência, nosso id econômico será regulado tão somente pelo superego.

Sob as custas de ficar ultrapassada e inútil, a nova teoria econômica terá de se adaptar. Você, como investidor, terá de se adaptar também.

No fim das contas, seremos investidores morais, à caça de oportunidades de arbitragem moral.

Concluiremos que o lucro é também um moralismo.