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Os mercados globais operam em tom misto no primeiro pregão do segundo semestre, com realização parcial após os fortes ganhos do trimestre anterior e maior cautela diante da falta de avanços concretos nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Embora enviados americanos estejam em Doha para conversas com mediadores do Catar, ainda não há encontro direto confirmado com autoridades iranianas, o que mantém a fragilidade do processo de paz no radar. Ainda assim, o petróleo segue pressionado, com o Brent próximo de US$ 72 por barril, refletindo a percepção de que o prêmio de risco da guerra diminuiu com a reabertura do Estreito de Ormuz e a retomada das exportações iranianas.
Na Ásia, as bolsas fecharam sem direção única, com alta do Nikkei apoiada por dados positivos do Tankan e queda na Coreia do Sul, pressionada por empresas de semicondutores.
Na Europa, os mercados também operam mistos, enquanto investidores avaliam dados de inflação e atividade industrial. A agenda macroeconômica volta a ganhar protagonismo.
Nos Estados Unidos, onde o mercado ainda trabalha com um Fed mais hawkish, a atenção se concentra nos dados de emprego, com o ADP hoje e o payroll amanhã, além da participação de Kevin Warsh no Fórum de Sintra, ao lado de Christine Lagarde, Andrew Bailey e Tiff Macklem.
Na Zona do Euro, a inflação preliminar de junho desacelerou para 2,8% no índice cheio e 2,4% no núcleo, reforçando a leitura de moderação dos preços em meio a uma atividade ainda fraca.
Na China, o PMI industrial privado recuou levemente para 51,7, sugerindo expansão, mas com perda de força nas exportações.
· 00:57 — Medo de mergulhão
No Brasil, o Ibovespa encerrou a terça-feira em queda de 0,68%, aos 172 mil pontos, consolidando leve baixa de 0,10% em junho e o quarto mês consecutivo de perdas. Ainda assim, o índice acumulou alta de 6,8% no semestre. O movimento refletiu a rotação global de valor para crescimento, com maior apetite por tecnologia no exterior, além da ausência do fluxo estrangeiro que havia sustentado parte dos ganhos no início do ano.
Ontem, o principal dado doméstico foi o Caged de maio, que mostrou criação líquida de 72.960 vagas formais, bem abaixo das cerca de 120 mil esperadas pelo mercado e 52% inferior ao saldo de maio de 2025.
Foi o pior resultado para o mês desde 2020, reforçando a leitura de desaceleração gradual do mercado de trabalho, embora ainda sem caracterizar contração. O dado se soma ao IPCA-15 mais benigno, à PNAD Contínua e à comunicação mais clara de Gabriel Galípolo após o Relatório de Política Monetária, fortalecendo as apostas em um novo corte de 0,25 ponto percentual da Selic em agosto.
A leitura predominante é que o mercado de trabalho segue resiliente, mas perde dinamismo, reduzindo uma das principais preocupações do Banco Central com a inflação de serviços. Ao mesmo tempo, permanece no radar o cenário alternativo de desaceleração mais intensa da atividade (quase como um “mergulhão”), justamente um dos riscos que o BC parece monitorar com atenção.
O quadro fiscal, por sua vez, segue como ponto de atenção e funciona como um limitador para a extensão do ciclo de cortes. Na prática, a âncora monetária continua trabalhando dobrado diante da ausência de uma âncora fiscal mais crível. O resultado primário do Governo Central mostrou receitas crescendo 5,5% acima da inflação nos cinco primeiros meses do ano, mas despesas avançando 13,5% em termos reais, pressionadas por precatórios, pessoal e previdência.
O déficit nominal atingiu R$ 149 bilhões, com gasto de juros de R$ 107,5 bilhões no mês, ritmo que, anualizado, supera R$ 1,2 trilhão. Como temos argumentado, o panorama é insustentável e tende a exigir um ajuste fiscal inevitável no próximo ano. A grande dúvida será a profundidade desse ajuste: uma correção apenas marginal dificilmente seria suficiente e poderia resultar em problemas maiores adiante.
No campo dos combustíveis, o governo anunciou a retirada gradual dos subsídios ao diesel e à gasolina, movimento justificado pela queda do Brent e pela necessidade de preservar a neutralidade fiscal. Para Petrobras, a leitura é que o governo segue utilizando mecanismos fiscais para atenuar eventuais repasses de preços (que possam pressionar inflação), embora a velocidade do desmonte das demais subvenções ainda precise ser acompanhada.
· 01:46 — Finalizando um excelente trimestre
Nos Estados Unidos, o primeiro semestre terminou com forte desempenho dos mercados, apesar de um pano de fundo marcado por riscos geopolíticos, volatilidade no petróleo e dúvidas sobre a sustentabilidade do ciclo de inteligência artificial. O S&P 500 encerrou o segundo trimestre com alta de 14,9%, seu melhor desempenho desde 2020, e acumula ganho de 9,55% no ano. No mesmo período, o Nasdaq avança cerca de 12,8%, enquanto o Dow sobe 8,85%, registrando seu melhor primeiro semestre desde 2021.
O principal motor da alta foi, novamente, a tecnologia, especialmente os semicondutores: o Índice de Semicondutores da Filadélfia (SOX) teve o melhor trimestre de sua história, com retorno próximo de 92%, impulsionado por empresas como Sandisk, Micron e Intel. Mesmo as small caps apresentaram desempenho forte, embora com concentração relevante em companhias ligadas a chips. Ao mesmo tempo, o ouro perdeu força após atingir máxima histórica em janeiro, pressionado pela recuperação do dólar e pela expectativa de juros mais altos pelo Fed.
Para o segundo semestre, o cenário segue construtivo, mas menos simples. A rotação recente para setores como saúde, indústria e financeiro sugere que a alta pode começar a se espalhar para além das empresas diretamente ligadas à IA, enquanto a queda do petróleo, o mercado de trabalho ainda firme, a melhora da confiança do consumidor e dados econômicos favoráveis continuam dando suporte aos ativos de risco.
Ainda assim, as expectativas ficaram mais exigentes: para que os lucros do S&P 500 cumpram as projeções, será necessário um avanço relevante das margens, sustentado pela tecnologia e por ganhos de produtividade associados à inteligência artificial. O principal risco é que a própria tecnologia, responsável por liderar a alta, também se torne o ponto de fragilidade caso os retornos dos investimentos em IA desacelerem ou a volatilidade volte a aumentar.
Além disso, o Fed permanece como variável decisiva, especialmente após economistas do Bank of America passarem a esperar três altas de juros até o fim do ano. A agenda da semana traz o ADP, o PMI industrial do ISM e os resultados de FactSet e General Mills.
· 02:32 — Entendendo o rali de IA
As principais operações ligadas à inteligência artificial nos últimos meses favoreceram os investidores que compraram ações de fabricantes de chips e venderam ações de empresas de software. A tese por trás desse movimento era relativamente direta: a IA ampliaria de forma expressiva a demanda por semicondutores, ao mesmo tempo em que pressionaria os modelos de negócio tradicionais das companhias de software.
Embora essa dinâmica já fosse visível há seis meses, ela continuou ganhando força. No período, uma estratégia comprada no índice de semicondutores SOX e vendida no índice de software teria gerado retorno de cerca de 150%. Fora dos Estados Unidos, o movimento foi ainda mais intenso na Coreia do Sul, onde Samsung Electronics e SK Hynix impulsionaram o Kospi, que quase dobrou no ano. Uma estratégia comprada em Coreia do Sul e vendida na bolsa da Indonésia, por exemplo, teria triplicado o capital em seis meses, refletindo tanto o entusiasmo com os fabricantes de chips quanto a perda de confiança dos investidores em Jacarta.
Já a China ficou para trás: embora invista de forma agressiva para competir com os Estados Unidos em inteligência artificial, boa parte desses recursos tem sido direcionada a fornecedores estrangeiros de chips, sem ainda gerar um impulso relevante à demanda doméstica.
· 03:29 — O destino do acordo comercial da América do Norte
O governo Donald Trump deve declarar formalmente que não pretende prorrogar o USMCA, dando início ao processo de revisão de seis anos previsto pela cláusula de caducidade negociada durante seu primeiro mandato. A decisão não representa, por ora, uma ruptura imediata do acordo entre Estados Unidos, México e Canadá, mas inaugura uma fase mais longa e incerta de negociação. Autoridades comerciais dos três países devem se reunir virtualmente para indicar se desejam estender o acordo por mais 16 anos, enquanto o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, já agendou uma nova rodada de conversas com o México para a semana de 20 de julho.
A leitura passa a ser a de que as tarifas atuais dos EUA devem permanecer em vigor por tempo indefinido, sem expectativa de uma redução ampla. Ainda podem ocorrer acordos pontuais para aliviar tarifas setoriais, mas não se espera uma revisão abrangente. Esse cenário tende a pesar sobre a confiança e o investimento nas três economias, com custos mais concentrados em Canadá e México.
Para os EUA, os impactos devem aparecer principalmente no setor automotivo e nos estados fronteiriços. O México parece ser o mais exposto, embora parte de suas exportações venha sendo sustentada por bens de capital ligados à inteligência artificial, em grande medida isentos de tarifas. O Canadá, por sua vez, tenta diversificar seus mercados de exportação, mas esse processo deve levar tempo.
Ainda assim, a probabilidade de Trump acionar a cláusula de saída de seis meses e abandonar totalmente o USMCA parece baixa, dado o custo elevado que isso imporia ao comércio e ao investimento da economia americana, especialmente em estados decisivos do Meio-Oeste.
· 04:13 — Mudanças nas cadeias de suprimentos
Duas mudanças relevantes estão ganhando força na China e nas cadeias asiáticas de suprimento. De um lado, o conflito envolvendo o Irã está redesenhando o comércio de produtos petroquímicos na região, com produtores chineses surgindo como beneficiários inesperados. As interrupções no fornecimento do Golfo Pérsico levaram compradores do Sudeste Asiático a buscar fontes alternativas, enquanto a China aproveitou seus estoques elevados, sua capacidade ociosa e o uso de matérias-primas substitutas para ampliar exportações. Caso essas novas rotas comerciais se consolidem, o conflito terá gerado efeitos duradouros sobre as cadeias regionais.
Ao mesmo tempo, o entusiasmo com a valorização do yuan perdeu força. O tom mais duro do Fed fortaleceu o dólar e levou investidores a desfazerem posições favoráveis à moeda chinesa, especialmente diante de dados mais fracos da economia local e da percepção de que Pequim pode aceitar um yuan mais depreciado para apoiar as exportações.
No mercado de energia, mesmo com a manutenção do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã e a retomada gradual do tráfego em Ormuz, grandes compradores continuam buscando diversificação. Refinarias indianas, por exemplo, reduzem a dependência do petróleo do Oriente Médio e procuram fornecedores na Rússia, Guiana, Brasil e Estados Unidos. Assim, embora parte do mercado ainda torça por uma volta à normalidade, cresce a percepção de que o choque recente pode acelerar mudanças estruturais nos fluxos globais de energia e petroquímicos.
· 05:05 — Google entra no Dow, mas a tese vai além do índice
A entrada da Alphabet, controladora do Google, no Dow Jones Industrial Average marca um reconhecimento simbólico importante para a companhia e ajuda a atualizar um índice historicamente associado às grandes blue-chips americanas, mas que vinha ficando defasado em relação à nova composição da economia.
A substituição da Verizon pela Alphabet, somada à presença de Nvidia, Amazon, Microsoft e Apple, reforça a crescente centralidade das grandes empresas de tecnologia nos principais índices globais. Ainda assim, o Dow segue com limitações relevantes como referência de mercado, por reunir apenas 30 ações e adotar uma metodologia ponderada pelo preço dos papéis, e não pelo valor de mercado das companhias.
Para as ações da Alphabet, e especialmente para os BDRs GOGL34, a inclusão no Dow não altera sozinha os fundamentos da tese, mas reforça a visibilidade institucional da empresa e sua posição entre as principais companhias globais de tecnologia. O Google segue exposto a vetores estruturais relevantes, como publicidade digital, inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais, em um momento em que os investidores continuam buscando empresas com escala, geração de caixa e capacidade de reinvestimento.
Para o investidor brasileiro, GOGL34 permanece como uma forma de acessar uma das plataformas mais relevantes do mundo, com a ressalva de que seu desempenho também será influenciado pelo câmbio e pelo apetite global por ações de tecnologia.