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Investimentos

Ibovespa hoje: Guerra econômica no Oriente Médio e preocupação com as contas públicas no Brasil; veja destaques desta quinta (20)

EUA anuncia nova fase de “guerra econômica” contra o Irã e ameaça sanções severas a países, bancos e empresas que ajudem o regime

Por Matheus Spiess

20 ago 2026, 10:39

Atualizado em 20 ago 2026, 10:39

Estreito de Ormuz Oriente Médio

(Imagem: Suphanat Khumsap/iStock)

Os mercados globais operam em tom misto nesta quinta-feira, com recuperação das bolsas asiáticas e leve pressão sobre os mercados europeus e os futuros americanos. O principal foco permanece na escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, após Donald Trump anunciar uma nova fase de “guerra econômica” contra Teerã, ameaçando impor sanções severas a países, bancos, empresas e instituições que ajudem o regime a contornar o isolamento.

Ao mesmo tempo, o pano de fundo financeiro segue dominado pela reação do Tesouro americano à recente disparada dos juros de longo prazo. A decisão de ampliar as recompras de Treasuries trouxe alívio imediato às curvas de juros, enfraqueceu o dólar e melhorou o sentimento dos mercados, embora ainda existam dúvidas sobre a sustentabilidade desse efeito sem avanços mais consistentes na consolidação fiscal.

· 00:52 — Pequeno alívio

No Brasil, o Ibovespa interrompeu uma sequência de 11 pregões consecutivos de queda e encerrou a quarta-feira em alta de 0,90%, aos 167.830 pontos, depois de avançar mais de 2,4% na máxima do dia e superar temporariamente os 170 mil pontos. O principal gatilho para a melhora foi o anúncio do Tesouro dos Estados Unidos de ampliar as recompras de títulos de longo prazo, movimento que derrubou os rendimentos dos Treasuries, enfraqueceu o dólar e favoreceu o apetite global por risco, com impacto especialmente positivo sobre os mercados emergentes.

No Brasil, os juros futuros recuaram e o dólar caiu cerca de 0,9%, para a região de R$ 5,18, enquanto a Petrobras ajudou a sustentar o índice em um dia de valorização do petróleo. Parte dos ganhos iniciais da Bolsa, contudo, foi devolvida ao longo da tarde, diante de um desempenho mais moderado das grandes empresas de commodities e do setor bancário, mantendo a volatilidade elevada em meio às incertezas do cenário eleitoral.

No ambiente doméstico, a agenda fiscal e política continua no centro das atenções. O governo projeta aumento de 7,7% nas despesas previdenciárias em 2027, para R$ 1,223 trilhão, reforçando as preocupações de médio e longo prazo com a sustentabilidade das contas públicas. Ao mesmo tempo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve discutir a agenda fiscal com Pedro Malan e Armínio Fraga.

Paralelamente, o governo avalia reduzir os juros dos financiamentos do Minha Casa, Minha Vida destinados à Faixa 3 e pressiona o Congresso pela aprovação da medida provisória que elimina a taxa de 20% sobre compras internacionais. Na área energética, após a descoberta de petróleo na Margem Equatorial, o governo prepara novas diretrizes para a transição energética, buscando conciliar a expansão da produção com a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis.

· 01:28 — Recompras no radar

Os mercados reagiram positivamente na quarta-feira a uma combinação de fatores: resultados clínicos promissores da Moderna, sinais de maior disposição do Federal Reserve para manter os juros estáveis e, principalmente, o anúncio surpresa do Tesouro americano de ampliar as recompras de títulos de longo prazo. O Tesouro informou que dobrará, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, o limite das recompras de Treasuries com vencimentos entre 10 e 30 anos, em uma tentativa de melhorar a liquidez e aliviar a pressão sobre os juros de longo prazo. A reação foi imediata: os rendimentos recuaram, o dólar perdeu força e o ouro avançou.

O anúncio, contudo, não resolve o problema estrutural das contas públicas americanas. A dívida bruta dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões, mais que o dobro do nível registrado há uma década, enquanto os gastos com juros já representam a terceira maior despesa do orçamento federal. O Tesouro pode reduzir temporariamente o estresse nos vencimentos mais longos, mas as recompras são pequenas diante da dimensão do mercado e não equivalem a um programa de afrouxamento quantitativo conduzido pelo Fed.

Na prática, a medida foi interpretada como um sinal de desconforto do governo com a escalada recente dos rendimentos e de disposição para agir diante do aumento dos custos de financiamento. O desafio é que déficits elevados, forte emissão de dívida pública e crescente competição por capital, inclusive por parte das empresas de tecnologia que financiam o ciclo de investimentos em inteligência artificial, continuam exercendo pressão sobre a parte longa da curva de juros.

Já a ata do FOMC revelou um Comitê mais inclinado ao aperto monetário em julho do que os três votos dissidentes sugeriam. Diversos dirigentes defenderam uma alta de 25 pontos-base, enquanto vários reconheceram que algum aperto adicional poderia ser necessário caso a inflação não cedesse. Ainda assim, o documento chegou ao mercado parcialmente defasado, uma vez que os dados divulgados desde aquela reunião mostraram atividade, emprego e inflação mais fracos.

O debate também passou a incorporar com maior intensidade o uso do balanço patrimonial do Fed como instrumento complementar à taxa básica de juros, além da possibilidade de reduzir de oito para seis o número de reuniões anuais a partir de 2027. Em síntese, o Federal Reserve permanece atento aos riscos inflacionários associados às tarifas, aos preços de energia e à expansão da inteligência artificial, mas os dados mais recentes ainda favorecem uma postura de espera no curto prazo.

· 02:34 — Guerra econômica no Oriente Médio

Donald Trump ampliou a pressão sobre o Irã ao anunciar uma “guerra econômica” contra Teerã, ameaçando impor sanções a países, bancos e empresas que continuem ajudando o regime a contornar o isolamento americano. O alvo mais sensível é a China, principal compradora do petróleo iraniano, o que transforma a estratégia também em um teste para a relação entre Washington e Pequim. A mudança de foco evidencia, ao mesmo tempo, os limites da campanha militar: com a guerra cada vez mais custosa, impopular e pressionando os preços da energia, a Casa Branca busca intensificar a coerção financeira para tentar forçar o Irã de volta à mesa de negociações.

A escalada já começa a produzir efeitos regionais e econômicos relevantes. Os Emirados Árabes Unidos suspenderam comércio e transações financeiras com o Irã após acusarem Teerã de disparar mísseis contra seu território, enquanto o Brent avançou para perto de US$ 92 por barril, refletindo o menor otimismo com uma reabertura rápida do Estreito de Ormuz.

Apesar disso, a Saudi Aramco sinalizou que continuará entregando integralmente os volumes contratados a refinarias europeias, oferecendo algum alívio ao risco de abastecimento. O quadro permanece, portanto, marcado por forte tensão: mais pressão econômica sobre o Irã, maior risco de retaliações e um mercado de petróleo ainda sensível a qualquer sinal de deterioração adicional no Golfo Pérsico.

· 03:29 — Revoluções farmacêuticas

O setor de saúde voltou a ganhar destaque após anos de desempenho relativo mais fraco, especialmente desde a ascensão das ações ligadas à inteligência artificial. O catalisador mais recente foi o avanço clínico da vacina personalizada contra o câncer desenvolvida por Moderna e Merck, que, combinada ao Keytruda, reduziu a recorrência do melanoma e o risco de disseminação da doença após a cirurgia.

A notícia levou as ações da Moderna a dispararem cerca de 177% e as da Merck a subirem quase 13%, além de impulsionar índices de saúde e biotecnologia. O tratamento utiliza informações genéticas específicas do tumor de cada paciente para desenvolver uma vacina de mRNA personalizada, capaz de estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas. As companhias também testam a tecnologia em cânceres de pulmão, bexiga e rim, e a expectativa é de avanço regulatório nos próximos meses, embora os dados ainda precisem de revisão independente.

O entusiasmo também reforça uma recuperação mais ampla do setor de saúde. A Moderna vinha de quatro anos de prejuízos e de uma queda de 94% desde o pico de 2021, mas já mostrava sinais de diversificação para além da Covid antes mesmo dos resultados do estudo. Ao mesmo tempo, 53 das 55 empresas de saúde do S&P 500 superaram as expectativas no segundo trimestre, e o setor passou a se beneficiar de uma rotação de capital para fora dos semicondutores.

Ainda existem riscos, como incertezas regulatórias, pressões sobre Medicaid e o alto custo de tratamentos personalizados, mas a combinação entre inovação em oncologia, maior clareza sobre preços de medicamentos e melhora operacional recoloca a saúde no radar dos investidores como uma possível nova frente de crescimento.

· 04:17 — Subvalorizado e centralidade

O renminbi chinês parece estar significativamente subvalorizado, com diferentes modelos apontando uma defasagem entre 11% e 30%, e as estimativas consideradas mais robustas concentradas na parte superior desse intervalo. As análises mais abrangentes, baseadas em comparações internacionais de paridade do poder de compra, renda per capita e modelos de equilíbrio cambial, chegam a indicar uma subvalorização próxima de 25% em alguns casos.

Essa leitura também encontra respaldo no avanço da participação chinesa nas exportações globais e em sinais de intervenção cambial voltada a limitar a valorização da moeda. A estratégia parece fazer parte de uma política deliberada para sustentar o crescimento em meio à fraqueza da demanda doméstica, embora carregue o risco de intensificar reações protecionistas, sobretudo porque os subsídios industriais chineses já contribuem para ampliar a competitividade das exportações do país.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial pode reforçar ainda mais a centralidade global do dólar. A lógica guarda semelhanças com a dinâmica histórica do petrodólar: se capacidade computacional, energia, contratos de data centers e serviços de IA forem predominantemente precificados e pagos em dólares, parte relevante dessas receitas poderá ser posteriormente reciclada em ativos denominados na moeda americana.

À medida que a IA se consolida como uma infraestrutura essencial e empresas passam a contratar capacidade computacional por horizontes de décadas, como já ocorre em grandes projetos de data centers, o mundo pode caminhar para uma espécie de economia de “dólares por unidade de computação”. Nesse cenário, empresas de IA, provedores de nuvem e redes de pagamento podem contribuir para reforçar estruturalmente a demanda internacional por dólares, mesmo em um ambiente de crescente debate sobre alternativas à moeda americana.

· 05:05 — Robôs humanoides: a próxima fronteira da inteligência artificial

A chinesa Unitree Robotics teve uma estreia explosiva na Bolsa de Xangai, com as ações chegando a subir quase 630% e encerrando o primeiro pregão com valorização de 460%. A empresa levantou cerca de US$ 900 milhões em sua oferta pública inicial e foi avaliada em aproximadamente US$ 9 bilhões, o equivalente a mais de 200 vezes o lucro registrado no último ano.

A demanda foi excepcional: investidores individuais solicitaram cerca de 5.000 vezes mais ações do que o volume disponível. Primeiro IPO de uma empresa de robôs humanoides na China continental, a operação contou com o apoio de nomes como Tencent, Alibaba, DeepSeek e companhias estatais, reforçando o interesse crescente pela robótica como uma das próximas grandes fronteiras da tecnologia chinesa.

Por trás dessa euforia está uma tese estrutural poderosa: a expectativa de crescimento acelerado do mercado de robôs humanoides. As estimativas citadas apontam que as vendas globais podem sair de cerca de US$ 2 bilhões em 2025 para algo próximo de US$ 300 bilhões em 2035, enquanto o mercado chinês pode alcançar US$ 15 bilhões até 2030.

A China parte de uma posição competitiva relevante, sustentada por cadeias de suprimentos integradas, escala industrial, apoio governamental e custos significativamente menores. Segundo estimativas do Morgan Stanley, o custo dos componentes de um robô humanoide típico seria de aproximadamente US$ 46 mil na China, contra US$ 131 mil nos Estados Unidos, ajudando a explicar a capacidade das empresas chinesas de oferecer soluções mais acessíveis do que muitos concorrentes ocidentais.

Ainda assim, o setor permanece em estágio inicial, e a forte valorização da Unitree evidencia tanto o potencial da tecnologia quanto o grau de expectativa já incorporado aos preços. Grande parte dos robôs comercializados atualmente ainda se destina a pesquisa, educação, demonstrações e projetos-piloto, de modo que o verdadeiro teste será transformar essa tecnologia em aplicações industriais e comerciais confiáveis, escaláveis e economicamente rentáveis.

Além disso, as restrições impostas pelos Estados Unidos a robôs avançados de fabricação estrangeira adicionam uma camada importante de risco geopolítico. Em outras palavras, a robótica humanoide parece avançar de uma fase predominantemente experimental para uma disputa por escala, eficiência e plataformas, mas ainda precisará provar sua capacidade de converter entusiasmo tecnológico em retornos econômicos consistentes.

Sob a ótica de alocação, esse movimento também abre espaço para estratégias temáticas específicas. Entre as alternativas disponíveis estão ETFs como o Global X Robotics & AI (BOTZ), o ROBO Global Robotics & Automation (ROBO), o ARK Autonomous Tech & Robotics (ARKQ) e o First Trust Nasdaq AI & Robotics (ROBT). No mercado brasileiro, a BDR BOTZ39 pode cumprir função semelhante. Ainda assim, a cautela permanece essencial. Teses temáticas costumam atrair entusiasmo excessivo e podem gerar retornos expressivos em períodos curtos, justamente por isso exigem disciplina redobrada para evitar exageros na exposição. Em uma estratégia de longo prazo, uma alocação moderada, tipicamente entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado em torno de 5% para temas específicos, tende a oferecer um equilíbrio mais saudável entre o aproveitamento das oportunidades e a visão estrutural de que essa nova “corrida espacial” tecnológica ainda está apenas no começo.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.