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Os mercados globais operam em queda nesta terça-feira após Donald Trump endurecer o discurso em relação ao Irã, classificando a proposta de cessar-fogo como “lixo” e afirmando que o acordo está em “estado crítico”, reacendendo os temores de escalada militar no Oriente Médio e elevando a aversão ao risco.
O petróleo voltou a avançar de forma significativa, com o Brent acima de US$ 107 por barril, enquanto futuros de Wall Street e bolsas europeias recuam diante da maior incerteza geopolítica. Os Estados Unidos anunciaram novas sanções contra indivíduos e empresas acusados de facilitar exportações iranianas à China, movimento que antecede o encontro entre Trump e Xi Jinping, no qual Washington deve pressionar Pequim sobre o impasse diplomático e a reabertura do Estreito de Ormuz.
Nesse contexto, cresce a sensibilidade dos investidores aos dados de inflação divulgados hoje (IPCA no Brasil e CPI nos Estados Unidos), ambos impactados pela alta do petróleo e pela pressão sobre combustíveis, energia e expectativas de juros.
00:52 — Inflação qualitativamente ruim
No Brasil, a semana começa com nova queda do Ibovespa. O índice voltou a perder o patamar dos 182 mil pontos, mesmo com o dólar ainda abaixo de R$ 4,90. A moeda brasileira segue beneficiada pelo bom posicionamento do país em um cenário de petróleo mais alto. Esse fator que melhora os termos de troca e sustenta o fluxo cambial, ainda que o ambiente externo permaneça desafiador para ativos de risco.
Na agenda doméstica, o mercado digere o dado de inflação de abril. No período o IPCA desacelerou na comparação mensal de 0,80% em março para 0,67%, resultado abaixo das expectativas.
No entanto, o número aparentemente mais benigno na margem não deve ser interpretado de forma excessivamente otimista. Assim como ocorreu na prévia inflacionária, a composição do índice foi qualitativamente desfavorável.
Em termos acumulados em 12 meses, a inflação acelerou de 4,14% para 4,39%, aproximando-se do teto da meta estabelecida para este ano. Além disso, houve surpresa altista na média dos cinco núcleos e nos serviços subjacentes, indicadores que costumam refletir a dinâmica mais estrutural da inflação.
Esse conjunto reforça a percepção de expectativas ainda pressionadas e dificulta a atuação do Banco Central, cujo espaço para cortes de juros permanece limitado no horizonte relevante. Nesse contexto, a tendência de abertura na curva de juros tende a pressionar o mercado de ações. Em contrapartida, que pode sustentar o real por conta do diferencial de juros elevado.
Além da inflação, o mercado acompanha os desdobramentos do resultado da Petrobras. A companhia reportou lucro líquido de R$ 32,66 bilhões no trimestre, queda de 7,2% na comparação anual, e aprovou a distribuição de R$ 9,03 bilhões em dividendos. O desempenho ficou abaixo das expectativas do mercado. O impacto mais positivo da alta recente do petróleo deve se refletir com maior intensidade apenas no segundo trimestre.
A teleconferência da empresa será observada com atenção, pois pode ajudar a calibrar as expectativas dos investidores, especialmente considerando o peso relevante das ações da estatal na composição do Ibovespa e sua influência sobre o humor geral do mercado brasileiro.
01:41 — Ritmo acelerado
Wall Street iniciou a semana em ritmo moderado, mas suficiente para renovar máximas históricas. O S&P 500 e o Nasdaq voltaram a registrar recordes em 2026, sustentados sobretudo pelo otimismo persistente em torno da inteligência artificial e pela resiliência dos resultados corporativos, mesmo com a temporada de balanços já próxima do encerramento.
O mercado tem demonstrado relativa indiferença ao conflito no Oriente Médio e ao impasse envolvendo o Estreito de Ormuz, apesar dos reflexos sobre o petróleo, cujo avanço levou o setor de energia a liderar os ganhos do dia. A leitura predominante entre investidores é de que a demanda estrutural por infraestrutura de IA permanece robusta, especialmente diante das restrições de oferta enfrentadas pelas grandes empresas de tecnologia e computação em nuvem. Esse movimento é o que sustenta projeções favoráveis para receitas e investimentos no segmento.
Na agenda do dia, o principal destaque é a divulgação do CPI de abril, que confirmou uma nova aceleração inflacionária, impulsionada principalmente pela alta da gasolina em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. Caso esse movimento se consolide, reforçará o receio de um ambiente mais próximo de estagflação. Trata-se da combinação de inflação persistente com perda de fôlego da atividade, cenário que tende a manter o Federal Reserve em postura cautelosa por mais tempo.
02:37 — Janela de oportunidade para o Brasil
Donald Trump passou a demonstrar de forma mais explícita sua preocupação com a crise de acessibilidade (preço acessível), adotando medidas voltadas à contenção dos preços de itens especialmente sensíveis ao consumidor, como carne bovina e combustíveis.
Nesse contexto, o governo avalia suspender temporariamente as tarifas sobre importações de carne de países como Brasil e Austrália. Essa seria uma tentativa de aliviar a inflação de alimentos em um momento no qual os preços da carne bovina acumulam alta superior a 16% desde janeiro de 2025 e permanecem próximos de máximas históricas.
A pressão decorre de um problema estrutural: o rebanho americano está no menor nível em 75 anos. Após um período prolongado de seca e condições desfavoráveis de pastagem, analistas estimam que uma recuperação mais significativa só deva ocorrer em 2028. A eventual remoção das tarifas poderia ampliar a oferta e reduzir custos no curto prazo. Por outro lado, impõe risco político a Trump, ao contrariar pecuaristas americanos, um grupo relevante dentro de sua base de apoio, e ao reacender críticas do setor em relação aos padrões sanitários da carne bovina brasileira. Seja como for, se trata de uma oportunidade para o Brasil.
03:24 — O estado do cessar-fogo
O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã atravessa um momento de grande fragilidade, depois de Donald Trump afirmar que o acordo está em “estado crítico”, rejeitar a resposta mais recente de Teerã à proposta de paz apresentada pelos EUA e classificá-la como “lixo”. Embora o presidente ainda preserve a possibilidade de uma solução diplomática, o impasse ampliou a incerteza em torno das negociações. Também elevou a tensão regional e também passou a repercutir na sua agenda internacional, que inclui um encontro previsto com Xi Jinping em Pequim.
Ao mesmo tempo, o mercado acompanha com atenção crescente o risco de novos ataques militares, os relatos de ofensivas na região e a mobilização iraniana no Golfo Pérsico, em um cenário no qual o Estreito de Ormuz segue parcialmente bloqueado e continua pressionando o fluxo global de energia. Nesse ambiente, o petróleo voltou a encontrar sustentação, com o Brent superando US$ 105 no início do pregão asiático, ao mesmo tempo em que a pressão sobre os combustíveis nos Estados Unidos se intensificou.
04:11 — O destaque sul-coreano
A Coreia do Sul se consolidou como um dos retratos mais expressivos do boom global da inteligência artificial, impulsionada principalmente pela Samsung Electronics. Líder mundial no fornecimento de chips de memória, a companhia registrou um salto de 755% no lucro no trimestre encerrado em março. Além disso, viu seu valor de mercado ultrapassar US$ 1 trilhão e contribuiu para que o principal índice acionário do país acumulasse alta de 81% no ano, o melhor desempenho entre os mercados globais.
Esse movimento, porém, também ampliou o debate em torno da distribuição dos ganhos gerados pela IA. Propostas para destinar à população parte da arrecadação adicional associada ao setor, na forma de um “dividendo”, somadas à pressão de sindicatos para que os funcionários recebam uma parcela maior dos lucros, indicam que a dimensão social desse avanço ganhou relevância. Diante da expectativa de que Samsung e SK Hynix sigam expandindo seus resultados, a tendência é de aumento da pressão sobre empresas e governo para compartilhar essa nova riqueza.
05:06 — Infraestrutura a todo vapor
A demanda por infraestrutura física voltada à inteligência artificial segue muito forte, a ponto de o principal gargalo ter deixado de ser a oferta de chips e passado a ser a capacidade de construir e energizar data centers. Para companhias como a Microsoft (MSFT34), esse contexto reforça a percepção de que a empresa continua engajada em um ciclo robusto de investimentos para ampliar sua oferta em nuvem e em IA, sustentando a tese de crescimento de longo prazo do Azure e dos serviços associados à inteligência artificial.
Mesmo com atrasos pontuais em alguns projetos e com o aumento do poder de barganha de construtoras e empresas de engenharia, o quadro de fundo permanece positivo, já que a urgência em colocar novas instalações em operação indica que a demanda final continua aquecida.
Se a construção dos chamados “shells” (a estrutura física dos data centers) passou a representar um gargalo, o ritmo de monetização da IA pode depender não apenas da capacidade tecnológica da Microsoft, mas também da execução das obras, da disponibilidade de energia e da implantação dos sistemas de suporte. Para MSFT34, isso pode se traduzir em pressão de curto prazo sobre prazos e custos de expansão, sem necessariamente comprometer a narrativa estrutural de crescimento.
Em termos práticos, o mercado pode interpretar esse cenário mais como um sinal de demanda reprimida do que de fragilidade operacional: se a Microsoft hoje enfrenta limites físicos para acelerar ainda mais sua expansão, isso sugere que a oportunidade comercial permanece ampla, desde que a companhia consiga conduzir esse ciclo de investimentos com disciplina e eficiência.