Os mercados globais operam nesta quarta-feira divididos entre dois grandes focos de atenção: a viagem de Donald Trump à China e o agravamento das tensões envolvendo o Irã. Antes de embarcar rumo a Pequim, Trump afirmou que pretende ter uma “longa conversa” com Xi Jinping sobre o conflito no Oriente Médio, embora tenha minimizado a necessidade de apoio chinês para resolver o impasse.
O pano de fundo da reunião, contudo, vai muito além da diplomacia tradicional. A China permanece como principal compradora do petróleo iraniano, enquanto as restrições e riscos envolvendo o Estreito de Ormuz passaram a afetar diretamente cadeias globais de suprimento.
· 00:55 — Sem ter para onde ir
No Brasil, o mercado voltou a registrar queda em meio à pressão internacional provocada pela indefinição envolvendo o Oriente Médio. Ainda assim, o Ibovespa conseguiu encerrar acima dos 180 mil pontos, enquanto o dólar permaneceu abaixo de R$ 4,90, sustentado tanto pela força recente do petróleo quanto pela percepção de menor espaço para cortes adicionais de juros após o dado de inflação qualitativamente mais deteriorado comentado ontem.
A inflação começa a pressionar itens com forte impacto sobre a percepção da população e, consequentemente, do eleitorado, movimento que ajuda a explicar a tentativa do governo de rever medidas impopulares, como a chamada “taxa das blusinhas”, criada anteriormente pela própria equipe econômica e que acabou gerando desgaste político relevante. O tema, inclusive, provocou atritos dentro do governo entre a ala política e a equipe técnica.
No campo político, a pesquisa Quaest divulgada hoje mostrou uma melhora apenas marginal na aprovação do governo, enquanto as intenções de voto oscilaram dentro da margem de erro. Na agenda econômica, o mercado acompanha a digestão dos resultados corporativos, a fala de Gabriel Galípolo na manhã de hoje e os dados de vendas no varejo, que vieram acima do esperado. O número do setor reforça a percepção de uma atividade econômica ainda resiliente e reduz ainda mais o espaço para o Banco Central prolongar o ciclo de cortes de juros nos próximos meses.
· 01:49 — Sem espaço para cortes
Nos Estados Unidos, a agenda desta quarta-feira concentra atenções no PPI de abril, em um ambiente de preocupação crescente com a inflação após o CPI ter alcançado 3,8% em 12 meses, o maior patamar em três anos.
O mercado também acompanhará os dados de estoques de petróleo bruto e discursos de dirigentes do Federal Reserve, como Susan Collins, Neel Kashkari e Lorie Logan, em meio à percepção de que o choque energético provocado pelo conflito no Oriente Médio começa a contaminar de forma mais ampla os preços da economia americana.
Mais de 40% da alta recente da inflação veio da energia, enquanto alimentos e serviços continuam pressionados, fazendo com que o custo de vida volte a superar o crescimento dos salários. O resultado tem ampliado o desconforto dos consumidores americanos e reforçado os temores de manutenção de juros elevados por um período mais prolongado.
Ao mesmo tempo, o mercado acompanha a ascensão de Kevin Warsh dentro do Federal Reserve. O Senado americano aprovou seu mandato de 14 anos no Conselho de Governadores do Fed, restando agora apenas a votação final para sua confirmação como sucessor de Jerome Powell na presidência da instituição, movimento hoje considerado praticamente certo pelo mercado.
Embora Warsh historicamente tenha defendido juros mais baixos, a reaceleração inflacionária recente passou a elevar as apostas de que o Fed poderá adotar uma postura mais dura ao longo dos próximos meses. Nesse contexto, o PPI ganha relevância adicional, especialmente diante da expectativa de aceleração dos preços ao produtor para 4,8% em 12 meses, com núcleo projetado em 4,3%, reforçando a leitura de que as pressões inflacionárias seguem disseminadas na economia americana.
· 02:36 — Na corda bamba
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer atravessa um dos momentos mais delicados desde que assumiu o cargo, pressionado após o fraco desempenho do Partido Trabalhista nas eleições locais e por pedidos crescentes de renúncia dentro da própria legenda.
Embora tenha conseguido, ao menos temporariamente, preservar apoio suficiente para permanecer no cargo após uma reunião de gabinete marcada por demonstrações públicas de respaldo, o movimento veio acompanhado da saída de ministros e de pressões internas para que estabeleça um cronograma de transição. Starmer reagiu de forma dura, afirmando que uma mudança de liderança neste momento seria “desestabilizadora” para o país.
Ao mesmo tempo, investidores passaram a monitorar os impactos políticos e fiscais da crise, especialmente em meio ao aumento das preocupações com a fragilidade das contas públicas britânicas, o que pressionou o mercado de títulos e levou os rendimentos de longo prazo aos níveis mais altos em quase três décadas.
Mesmo enfraquecido, Starmer segue no comando e participa da abertura oficial do Parlamento conduzida pelo rei Charles, tentando manter sua agenda focada em custo de vida, saúde e segurança, ainda sob forte incerteza política. A verdade é que o Reino Unido parece cada vez mais ingovernável.
· 03:24 — O recuo da França abriu espaço para o avanço chinês na África
Uma das principais derrotas estratégicas da França na África acabou beneficiando sobretudo a China, que consolidou sua posição como principal parceira econômica do continente ao longo da última década. Enquanto Paris perdia influência política e militar após sucessivos golpes no Sahel e o desgaste progressivo do antigo modelo da “Françafrique”, Pequim ampliou de forma acelerada sua presença por meio de investimentos massivos em infraestrutura, energia, telecomunicações, portos, ferrovias e mineração dentro da iniciativa “Belt and Road” (Nova Rota da Seda).
No Fórum China-África de 2024, Xi Jinping prometeu quase US$ 51 bilhões em novos financiamentos para o continente ao longo de três anos, além da criação de 1 milhão de empregos e da ampliação dos acordos comerciais. A China também eliminou tarifas de importação para praticamente todos os países africanos, aprofundando ainda mais sua integração econômica com a região e reforçando sua influência sobre cadeias estratégicas de recursos naturais e infraestrutura.
Além da dimensão econômica, Pequim tem conseguido capitalizar politicamente o forte sentimento anticolonial presente em diversos países africanos, apresentando sua atuação como uma parceria pragmática voltada ao desenvolvimento e à industrialização, em contraste com o legado intervencionista europeu.
O avanço chinês também se expandiu para o campo educacional, diplomático e cultural: em 2020, a China ofereceu 12 mil bolsas de estudo para estudantes africanos, número amplamente superior às cerca de 600 disponibilizadas pela França, fortalecendo significativamente seu soft power no continente.
Ainda assim, a presença chinesa também enfrenta críticas crescentes relacionadas ao aumento da dependência financeira, à exploração de recursos naturais, aos impactos ambientais e à concentração do processamento industrial dentro da própria China.
Mesmo com essas ressalvas, o movimento evidencia uma transformação estrutural importante: a África passou a ocupar posição cada vez mais central na disputa geopolítica e econômica entre China, Ocidente e Rússia dentro de um ambiente global progressivamente mais multipolar e fragmentado.
· 04:13 — Grande comitiva
A aguardada visita de Donald Trump à China ganhou um componente adicional particularmente relevante com a inclusão de última hora de Jensen Huang, CEO da Nvidia, na delegação americana. A presença do executivo reforça como inteligência artificial e semicondutores passaram a ocupar posição central na disputa estratégica entre Estados Unidos e China.
Huang, cuja empresa fornece os chips que sustentam o atual boom global de IA, defende maior flexibilização nas relações comerciais envolvendo tecnologia e enxerga no mercado chinês uma oportunidade potencial de US$ 50 bilhões.
Ele se junta a outros nomes de peso da indústria americana, como Tim Cook (Apple), Elon Musk (Tesla), Kelly Ortberg (Boeing) e David Solomon (Goldman Sachs), em uma viagem que ocorre em meio à guerra no Oriente Médio, tensões tarifárias e discussões envolvendo Taiwan. Paralelamente, negociadores liderados por Scott Bessent e He Lifeng iniciaram conversas preparatórias em Seul, em mais uma tentativa de estabilizar a relação entre as duas maiores economias do mundo.
Apesar da expectativa de Trump de avançar em acordos econômicos e ampliar a cooperação comercial, a visita acontece em um momento no qual Xi Jinping chega politicamente fortalecido, enquanto os EUA enfrentam limitações estratégicas impostas pelo conflito envolvendo o Irã. O pano de fundo da cúpula vai muito além de tarifas e comércio, abrangendo também a disputa por cadeias críticas de suprimento, minerais estratégicos, semicondutores e energia.
A China permanece como principal compradora do petróleo iraniano e ampliou sua influência global ao mesmo tempo em que consolidou posição dominante em minerais críticos e expandiu exportações para outros mercados após a guerra comercial. Nesse contexto, a lógica central parece ser ganhar tempo: os EUA buscam reduzir gradualmente sua dependência chinesa em setores estratégicos, enquanto Pequim tenta atravessar esse período de tensão preservando crescimento econômico, fortalecendo sua posição tecnológica e ampliando sua influência dentro de um mundo cada vez mais multipolar.
· 05:08 — A corrida global pelos semicondutores no centro da revolução da inteligência artificial
O atual rali das empresas de semicondutores continua sendo um dos principais motores dos mercados globais, impulsionado sobretudo pela explosão dos investimentos em inteligência artificial. Companhias como TSMC, Samsung Electronics e SK Hynix ganharam peso cada vez mais relevante tanto nos índices globais quanto nos mercados emergentes, refletindo um ambiente de forte revisão positiva das expectativas de lucro para o setor.
A tese permanece sustentada pelo avanço dos gastos com infraestrutura de IA, expansão de data centers, crescimento da computação em nuvem e demanda crescente por dispositivos conectados, além da percepção de que a oferta de chips avançados continuará relativamente restrita nos próximos anos.
Ainda assim, existem riscos importantes no horizonte, como a dependência parcial de capital vindo do Oriente Médio para financiar projetos ligados à inteligência artificial, a perspectiva de juros elevados por mais tempo e a possibilidade de desaceleração econômica global caso o conflito envolvendo o Irã produza impactos mais profundos sobre energia, inflação e atividade.
Outro ponto central envolve a crescente disputa geopolítica entre Estados Unidos e China no setor de semicondutores. Hoje, o mercado ainda precifica um cenário no qual a oferta global de chips avançados permanece limitada, sustentando elevado poder de precificação para as grandes fabricantes. Porém, uma eventual flexibilização das restrições americanas à China, especialmente em relação ao acesso a equipamentos avançados da ASML, poderia alterar estruturalmente essa dinâmica ao longo do tempo, ampliando a concorrência global no segmento.
Mesmo assim, a tendência secular ligada à inteligência artificial continua extremamente forte, sustentada por investimentos bilionários em infraestrutura computacional, automação avançada e capacidade de processamento de dados. Nesse contexto, o CHIP11, que replica o VanEck Semiconductor ETF, segue como uma alternativa, diversificada e acessível para capturar essa megatendência global de longo prazo, oferecendo exposição às principais empresas do ecossistema mundial de semicondutores em um setor que permanece no centro da transformação tecnológica global.