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Os mercados iniciam a semana ainda pressionados pela combinação entre guerra no Oriente Médio, petróleo elevado e juros globais em níveis mais altos, enquanto o conflito envolvendo o Irã continua sem uma perspectiva clara de resolução.
Donald Trump voltou a endurecer o discurso contra Teerã, afirmando que “o tempo está se esgotando”, ao mesmo tempo em que os gargalos no Estreito de Ormuz seguem sustentando o petróleo Brent acima de US$ 110 por barril.
Esse ambiente reforça preocupações com uma inflação mais persistente e reduz ainda mais o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve, levando parte do mercado a questionar se a autoridade monetária americana já não estaria atrasada diante da nova rodada de pressão inflacionária provocada pela energia (sendo possível um endurecimento do tom muito em breve).
Como consequência, os rendimentos dos títulos soberanos permanecem elevados, pressionando bolsas ao redor do mundo e ampliando a sensibilidade dos investidores aos próximos dados e às sinalizações do Fed.
· 00:58 — Brasil entre juros, câmbio e incerteza política
No Brasil, iniciamos a semana com o Ibovespa próximo dos 177 mil pontos, patamar em que encerrou a semana passada, ainda pressionado por um ambiente externo mais desafiador e por um cenário político doméstico marcado pela deterioração das expectativas fiscais em meio a um quadro eleitoral complexo.
Na agenda econômica, o principal destaque é a divulgação do IBC-Br de março, uma prévia do PIB, que caiu de 0,7% na comparação mensal, em linha com o esperado. O dado fraco, entretanto, não alivia a pressão sobre o Banco Central, que ainda busca espaço para continuidade do ciclo de cortes de juros, podendo pausá-lo em breve caso acredite ser apropriado.
Paralelamente, após uma valorização expressiva ao longo do ano, o real passou a sofrer de maneira mais evidente com o aumento do ruído político e a piora do ambiente global de risco. Com a aproximação das eleições, o câmbio tende a se tornar ainda mais sensível às mudanças de percepção sobre o cenário político.
Além disso, uma postura mais conservadora por parte dos bancos centrais dos mercados desenvolvidos, especialmente do Federal Reserve, pode ampliar a pressão sobre o real, movimento que tende a prejudicar tanto os ativos locais quanto as perspectivas para a inflação.
No campo político, investidores também acompanharão novas pesquisas eleitorais, que devem começar a capturar de maneira mais clara os efeitos dos eventos recentes envolvendo o principal nome da oposição. Leituras preliminares já apontaram ampliação da vantagem do governo em relação aos levantamentos anteriores, embora uma leitura mais consistente dos impactos políticos provavelmente só deva emergir com maior clareza ao longo das próximas semanas.
· 01:46 — Mudança de tom no radar
Os mercados americanos encerraram a semana passada em tom mais cauteloso após uma sequência recente de recordes em Wall Street, à medida que o entusiasmo em torno da inteligência artificial passou a dividir espaço com preocupações relacionadas à inflação, ao petróleo e à perspectiva de juros elevados por mais tempo.
A alta recente dos rendimentos dos Treasuries, com a taxa de 10 anos se aproximando de 4,6% ao ano, reforçou a percepção de que o Federal Reserve pode ter menos espaço para iniciar um ciclo de cortes de juros nos próximos meses, especialmente diante da pressão provocada pelo petróleo e da persistência inflacionária associada ao conflito no Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, o mercado continua fortemente concentrado na narrativa de inteligência artificial, sustentado pelo desempenho robusto de empresas ligadas a semicondutores, infraestrutura de computação e data centers. Ainda assim, o avanço dos juros longos começa a gerar questionamentos sobre os impactos nos valuations e no custo de expansão dessas companhias intensivas em capital.
Na agenda americana, a semana será marcada por eventos relevantes tanto do lado macroeconômico quanto corporativo. O principal destaque será o balanço da Nvidia, na quarta-feira, considerado um dos eventos mais importantes do trimestre para os mercados globais, especialmente diante da forte dependência recente do rali das bolsas em relação ao tema de inteligência artificial.
Investidores também acompanharão a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve, que em breve pode mudar seu tom e se tornar mais conservador, abandonando a perspectiva de retomar os cortes de juros, os PMIs preliminares de manufatura e serviços, além das expectativas de inflação da Universidade de Michigan.
No campo corporativo, os resultados de empresas ligadas ao consumo, como Walmart, Target, Lowe’s e Home Depot, devem ajudar a calibrar a percepção sobre a resiliência da atividade econômica americana em um ambiente ainda marcado por inflação elevada, juros restritivos e maior sensibilidade do mercado aos dados econômicos.
· 02:37 — O custo da guerra segue presente
O custo econômico da guerra envolvendo o Irã continua se espalhando pela economia global, ampliando preocupações relacionadas à inflação, energia e política monetária. Nos Estados Unidos, investidores passaram a reduzir apostas em cortes de juros e já começam a considerar a possibilidade de novas altas diante da pressão provocada pelo petróleo.
Na Ásia, economias altamente dependentes da importação de energia, como Índia, Indonésia, Japão e Tailândia, já discutem medidas adicionais de estímulo e expansão fiscal para mitigar os impactos do conflito.
Ao mesmo tempo, a alta das commodities vem pressionando cadeias globais de suprimento e deteriorando o sentimento econômico, especialmente na China. O movimento também provocou uma venda relevante de títulos soberanos ao redor do mundo, refletindo receios de inflação mais persistente e de juros elevados por mais tempo.
Enquanto isso, Estados Unidos e Irã seguem distantes de um acordo definitivo para a plena reabertura do Estreito de Ormuz. Donald Trump voltou a endurecer o discurso contra Teerã, afirmando que “o tempo está se esgotando” para um entendimento, enquanto o governo iraniano anunciou um novo mecanismo para controlar o tráfego marítimo na região, incluindo cobrança de taxas e restrições para embarcações de países considerados cooperativos.
Mesmo sem um bloqueio formal, cresce a percepção de que o fluxo global de energia continuará sujeito a custos adicionais e maior instabilidade. Com o petróleo Brent acumulando alta próxima de 50% desde o início da guerra, investidores seguem atentos ao risco de uma nova escalada militar, aos impactos sobre os bancos centrais e às dificuldades crescentes das negociações diplomáticas para alcançar uma solução mais duradoura para o conflito.
· 03:23 — Um dos frutos da cúpula
A cúpula entre Estados Unidos e China terminou sem grandes acordos concretos, mas trouxe sinais relevantes de tentativa de estabilização das relações entre as duas maiores economias do mundo. Washington afirmou que Pequim concordou em ampliar as compras de produtos agrícolas americanos, com estimativa de ao menos US$ 17 bilhões anuais até 2028, além de avançar em discussões envolvendo comércio, terras raras, energia e o Estreito de Ormuz.
A China também renovou licenças para importação de carne bovina americana e sinalizou disposição para reduzir algumas tarifas, embora sem detalhar quais produtos poderiam ser afetados. Ainda assim, os mercados reagiram com relativa cautela, já que poucos compromissos efetivamente vinculantes foram anunciados, enquanto temas mais sensíveis — como Taiwan, tecnologia e segurança energética — permaneceram sem solução definitiva formal.
Ao mesmo tempo, a guerra envolvendo o Irã continuou dominando parte importante das conversas entre Donald Trump e Xi Jinping. Ambos defenderam a reabertura do Estreito de Ormuz e reforçaram a posição de que Teerã não deve possuir armas nucleares, mas a ausência de avanços concretos manteve elevada a incerteza em relação ao fluxo global de energia.
Trump também confirmou ter discutido Taiwan e a possível venda de US$ 14 bilhões em armamentos americanos para a ilha, tema que continua sendo o principal foco de tensão geopolítica entre Washington e Pequim.
O pano de fundo reforça uma percepção cada vez mais presente nos mercados globais: comércio, tecnologia, commodities, energia e segurança nacional passaram a se tornar temas profundamente interligados em um mundo marcado por crescente fragmentação geopolítica. Um pouco mais dessa Nova Guerra Fria que vivemos.
· 04:19 — Crise agravada
Cuba atravessa uma das crises mais severas de sua história após praticamente esgotar suas reservas de combustível em meio ao endurecimento da pressão americana sobre o regime. A escassez já provoca apagões generalizados, dificuldades no abastecimento de água e aumento das manifestações populares, enquanto a população enfrenta rápida deterioração das condições de vida.
Nesse contexto, a visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Havana ganhou forte peso simbólico e político. O governo de Donald Trump sinalizou disposição para avançar em negociações econômicas apenas caso Cuba aceite mudanças estruturais, incluindo maior abertura econômica e distanciamento de Rússia e China. Ao mesmo tempo, Washington busca utilizar a crise energética como instrumento de pressão para acelerar uma eventual transição política na ilha. Basicamente, a ilha pode ser o próximo foco do presidente.
O episódio também reforça uma mudança na postura dos Estados Unidos em relação à América Latina. Diferentemente da estratégia mais diplomática observada durante o governo de Barack Obama, a abordagem atual combina pressão econômica, isolamento energético e negociações condicionadas a reformas profundas.
Assim, o mercado passa a interpretar o caso cubano como parte de uma estratégia mais ampla de reafirmação da influência americana no hemisfério ocidental, especialmente diante das crescentes tensões geopolíticas envolvendo China e Rússia. Enquanto isso, cresce a percepção de que Cuba se aproxima de um momento decisivo, no qual o regime precisará escolher entre aprofundar o isolamento ou iniciar algum grau de abertura econômica e política para evitar um colapso ainda maior.
· 05:02 — Multiplan mostra força de execução e qualidade de portfólio
A Multiplan anunciou a venda de 9,33% de participação no Park Shopping Barigüi, em Curitiba, por R$ 250 milhões, em uma operação que reforça a percepção de qualidade e valorização de seu portfólio de ativos.
O shopping é um dos empreendimentos mais relevantes da companhia, voltado majoritariamente ao público de maior renda e inserido em um conceito multiuso com potencial adicional de desenvolvimento imobiliário.
A transação foi realizada a um cap rate próximo de 7%, patamar considerado bastante atrativo para um ativo maduro e premium, especialmente após a recente expansão do empreendimento. Além disso, a operação reforça a capacidade da companhia de reciclar portfólio em condições favoráveis, destravando valor para o acionista sem comprometer sua exposição operacional a um ativo estratégico.
Do ponto de vista financeiro, a venda também amplia a flexibilidade da Multiplan em um momento importante do ciclo doméstico. Os recursos fortalecem a posição de caixa da companhia, que já possui um balanço saudável, e podem contribuir tanto para financiar novas expansões quanto para administrar o endividamento ou até ampliar a distribuição de dividendos no futuro, a depender das condições macroeconômicas e da estratégia de alocação de capital da administração.
Em um ambiente ainda marcado por juros elevados e maior seletividade dos investidores, a operação reforça atributos que continuam diferenciando MULT3 dentro do setor: qualidade dos ativos, disciplina financeira, capacidade de execução e geração resiliente de caixa. Nesse contexto, seguimos enxergando uma tese estruturalmente bastante sólida para as ações da companhia no horizonte de longo prazo.