Imagem: Edição CanvaPro
Nos últimos meses, o Bitcoin (BTC) atravessou um período de volatilidade excepcionalmente baixa para seus próprios padrões, chegando a registrar uma das fases de menor movimentação de sua história recente. Esse ambiente de aparente estabilidade se prolongou por várias semanas, enquanto o mercado acumulava condições para um movimento mais expressivo.
Nos últimos dias, esse equilíbrio se rompeu a partir de três vetores principais.
(i) O primeiro impulso veio de uma melhora no ambiente macroeconômico, que favoreceu os ativos de risco de forma mais ampla;
(ii) No caso do Bitcoin, porém, esse movimento foi amplificado pela própria estrutura do mercado. O acúmulo de posições vendidas transformou o rompimento em combustível para a alta: à medida que essas posições começaram a ser liquidadas, novas compras foram geradas, reforçando o movimento;
(iii) Ao mesmo tempo, o ambiente regulatório nos Estados Unidos continuou avançando, com SEC e CFTC ampliando gradualmente a clareza para o setor — ainda que a consolidação desse processo dependa de avanços legislativos mais estruturais.
O resultado foi uma valorização de mais de 20% em apenas três pregões, em um ativo que, nas seis semanas anteriores, oscilava em média cerca de 1% ao dia e permanecia concentrado em uma faixa entre US$ 59,9 mil e US$ 66,5 mil.
Na edição de hoje, vamos explorar esses três catalisadores e discutir o que eles sinalizam para os próximos meses. De antemão, para os mais ansiosos, a conclusão é que o Bitcoin retomou a tendência de alta, abrindo espaço, em nossa visão, para uma maior tomada de risco no portfólio.
Catalisador 1 — O “Bessent Put”
No âmbito macro, a ponta longa da curva de juros americana vinha chamando cada vez mais atenção.
Mesmo com as expectativas de inflação relativamente comportadas, os rendimentos dos Treasuries de longo prazo continuavam elevados, refletindo não apenas a política monetária, mas também fatores estruturais, como crescimento nominal, maior oferta de dívida e o prêmio exigido pelos investidores para carregar títulos por períodos mais extensos.
Esse movimento importa porque juros longos elevados tornam os ativos de risco relativamente menos atraentes. Se o investidor consegue obter retornos elevados em títulos do governo americano, o incentivo para assumir volatilidade diminui — especialmente em ativos que não geram fluxo de caixa, como Bitcoin e ouro.
Foi nesse contexto que o Tesouro americano anunciou a ampliação de seu programa de recompra de títulos de longo prazo.
A medida passou a ser chamada pelo mercado de “Bessent Put”, em referência ao secretário do Tesouro, Scott Bessent. O apelido surgiu da percepção de que o Tesouro demonstrou disposição para atuar quando a deterioração da liquidez na ponta longa da curva começa a se intensificar.
Na prática, as recompras ajudam a retirar do mercado títulos mais antigos e menos líquidos, liberando espaço nos balanços dos dealers e melhorando o funcionamento do mercado secundário.
Isso não significa que o Tesouro tenha estabelecido um teto para os juros de longo prazo, tampouco que esteja promovendo uma nova rodada de estímulos monetários. A relevância da medida está principalmente no sinal transmitido: existe disposição para agir quando a pressão sobre os Treasuries longos começa a comprometer a liquidez.
Com isso, os juros longos recuaram, o dólar perdeu força e ativos de risco como um todo responderam positivamente.
No entanto, quando comparamos a reação entre diferentes mercados levando em consideração a volatilidade típica de cada um, fica mais evidente que o movimento do Bitcoin foi desproporcional.
Para entender essa diferença, é necessário olhar também para a estrutura do próprio mercado cripto.
Catalisador 2 — Nunca duvide do BTC
A baixa volatilidade observada nas semanas anteriores teve papel relevante na intensidade da alta recente.
Após um período prolongado de estabilidade, parte do mercado passou a se posicionar com base na continuidade desse regime, inclusive por meio de posições vendidas próximas às regiões que vinham limitando o avanço do Bitcoin.
Com a melhora do ambiente macroeconômico e o rompimento dessa faixa, essas posições passaram a ser pressionadas.
Em operações vendidas e alavancadas, uma valorização suficientemente intensa pode provocar a liquidação automática das posições. Como o encerramento de uma posição vendida exige a recompra do ativo, essas liquidações se transformam em fluxo comprador adicional.
Esse mecanismo contribuiu para acelerar o movimento: a alta inicial levou à liquidação de posições vendidas, que geraram novas compras e ampliaram a pressão sobre os demais participantes posicionados para a queda.
Trata-se de um processo conhecido como short squeeze.

A dinâmica ajuda a explicar por que o Bitcoin apresentou uma reação significativamente mais forte do que outros ativos de risco no mesmo período.
Catalisador 3 — Avanço regulatório reduz incertezas
O ambiente regulatório nos Estados Unidos também segue contribuindo para uma percepção mais favorável em relação ao setor de ativos digitais.
Durante anos, parte relevante da regulação americana foi construída por meio de ações de fiscalização, processos judiciais e interpretações posteriores das autoridades. Esse modelo aumentava a incerteza jurídica e dificultava a atuação de empresas e instituições financeiras no mercado.
Nos últimos meses, SEC e CFTC vêm avançando na construção de regras mais claras e na definição de estruturas que permitam uma maior integração dos ativos digitais ao sistema financeiro tradicional.
A mudança é relevante porque a redução da incerteza regulatória tende a diminuir uma das principais barreiras à participação de empresas, bancos e investidores institucionais no setor.
Apesar dos avanços, parte significativa dessa estrutura ainda depende de decisões e interpretações das próprias agências reguladoras. Uma consolidação mais duradoura exige também uma definição legislativa por parte do Congresso.
Nesse contexto, o CLARITY Act permanece como uma das principais iniciativas em discussão. O projeto busca estabelecer de forma mais permanente as competências regulatórias e as regras aplicáveis ao mercado de ativos digitais nos Estados Unidos.
Nesta semana, Donald Trump voltou a pressionar o Congresso pela aprovação do projeto. Ainda assim, o processo legislativo continua sujeito a incertezas, e sua aprovação não deve ser considerada garantida.

O mercado de previsão reagiu de forma contida: a probabilidade atribuída à aprovação ainda em 2026 subiu apenas alguns pontos percentuais após o pedido presidencial e segue bem abaixo dos níveis observados em junho.
O avanço regulatório, portanto, representa uma melhora concreta no ambiente institucional, mas ainda incompleta. Esse fator provavelmente não foi o principal responsável pela alta recente do Bitcoin, mas contribuiu para reforçar um ambiente já mais construtivo para o setor.
Como aproveitar esse movimento de alta
O Bitcoin voltou a ser classificado em tendência de alta e isso abre espaço para uma maior tomada de risco no portfólio. Essa melhora já está se espalhando para as altcoins — e, historicamente, é nesse tipo de ambiente que surgem as maiores valorizações.
O desafio é capturar esse movimento na largada, com a seleção certa de ativos e sem depender de decisões tomadas no calor do momento.
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