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Day One

Reminiscências do Edifício Detroit

Financistas engomados transformam a pessoa física em uma abstração estúpida e pensam que ela não sabe comprar uma ação de dividendos para complementar a renda. Eu discordo. Leia mais.

Por Rodolfo Amstalden

26 abr 2018, 11:07

Era manhã de evento na Faria Lima.

Eu estava ali, pegando minha terceira xícara antes de entrar no auditório, quando um sujeito dá dois tapas no meu ombro esquerdo, e pergunta:

“Você é o Rodolfo da Empiricus, certo?”

Ele vestia terno e gravata, trabalhava em um banco grande (20% de chance de você acertar qual banco).

“Acho que sim, sou o Rodolfo da Empiricus”, respondi, agora tentando equilibrar a xícara.

Foi quando ele emendou:

“É simplesmente um absurdo isso que vocês fazem, induzindo um investidor pessoa física a comprar ação de dividendos, e ainda chama por um nome engraçadinho, tipo vaca leiteira“.

Um absurdo de ruim?

Ou um absurdo de bom?

“Absurdo de ruim, lógico! Você acha que o brasileiro médio sabe o que é uma ação? Sabe o que é um dividendo? O cara mal investe na poupança!”

Confesso que, depois disso, até entrei no auditório, mas não consegui prestar tanta atenção no evento.

Na melhor das hipóteses, um evento é sempre tão bom quanto o menor nível de sua audiência.

Mas suspeito que eu sei, mais ou menos, quem é o brasileiro médio (se é que ele existe).

Já aquele financista de terno e gravata não tem a mais puta ideia. Ele nunca tomou uma breja com os manobristas do prédio.

Hoje, não conseguimos mais, infelizmente. Os manobristas do Malzoni foram institucionalizados, “men in a mission”. Você pode ser algemado aqui por esquecer o crachá, ou por andar na contramão, mesmo que sóbrio.

Eu mesmo, no primeiro dia de garagem, soterrado debaixo do décimo subsolo, comecei a suar frio. Saí correndo em busca de uma única catraca que me cuspisse para fora dali… em vão.

As câmeras eventualmente me pegaram (elas sempre me pegam) e fui parar na sala de segurança, onde tive que emitir uma certidão negativa de qualquer coisa.

Quando trabalhávamos no saudoso Edifício Detroit, tudo era mais afirmativo e natural.

A cada happy hour de sexta, o Bigode insistia em oferecer sua cachaça de pneu para mim, pro Beto e pro Andrezão.

Aquilo era horrível, tinha gosto de borracha e 68% de álcool, mas tomávamos mesmo assim, porque o Bigode era demais.

Subindo e descendo rampa, uma média de cem carros por dia, motor 1.0, Land Rover, todo tipo de carro, com pneu na cabeça de segunda a sexta, sem nunca precisar acionar um seguro em trinta anos de profissão.

Se esse cara não souber comprar uma ação de dividendos para complementar a renda, quem é que sabe?

O PhD em Finanças da GV, que treme antes de investir em B-26 com cupom?

Financistas engomados transformam a pessoa física em uma abstração estúpida, pois nunca tomaram cachaça com os manobristas do Detroit.

Só posso lhe contar o que eu vi: o Bigode toma cachaça de pneu misturada com leite de vaca leiteira.

Não por acaso, o maior investidor da Bolsa brasileira também é fã dos pelos faciais entre o nariz e o lábio superior.

Restam dúvidas?

Sócio-fundador e CEO da Empiricus, é bacharel em Economia pela FEA-USP, em Jornalismo pela Cásper Líbero e mestre em Finanças pela FGV-EESP.