(Imagem: Canva)
O cenário global segue dominado pela incerteza geopolítica, com o impasse entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz ainda sem solução clara e com baixa visibilidade de resolução no curto prazo. Embora Teerã tenha sinalizado disposição para flexibilizar o bloqueio em troca do fim das restrições americanas e do adiamento das negociações nucleares, a rejeição dessa abordagem por Washington mantém as posições distantes e sustenta as restrições ao fluxo de petróleo.
Esse ambiente amplia a pressão sobre a inflação global e eleva o risco de desaceleração econômica. Ao mesmo tempo, revela uma mudança relevante na dinâmica dos preços: à medida que a escassez física ganha importância, as expectativas deixam de ser o único guia dos movimentos que também passam a refletir limitações concretas de oferta.
Apesar desse pano de fundo mais adverso, os mercados acionários ainda encontram algum suporte em resultados corporativos mais construtivos, embora o quadro técnico tenha apresentado deterioração recente e o fluxo, especialmente para mercados emergentes como o Brasil, mostre sinais de acomodação.
No campo monetário, a postura dos bancos centrais reflete esse ambiente mais complexo: o Banco do Japão manteve os juros, mas adotou tom mais duro e revisou para cima suas projeções de inflação. O Fed e Copom devem seguir cautelosos nas decisões derivadas das reuniões quem começam hoje e se encerram amanhã, equilibrando as pressões inflacionárias vindas da energia com sinais ainda mistos de atividade.
· 00:57 — Uma inflação acelerando
No Brasil, iniciamos a semana, mais curta e marcando o encerramento de abril, com viés negativo, em continuidade à queda do Ibovespa verificada nesta segunda metade de mês. Ainda assim, a aversão ao risco não se manifesta de forma homogênea: o dólar permanece abaixo de R$ 5,00, em grande medida sustentado pela força do petróleo, que segue favorecendo o real. Em tese, um câmbio mais apreciado poderia contribuir para aliviar a inflação, mas o choque energético começa a se sobrepor a esse efeito.
Nesse contexto, a divulgação do IPCA-15 de abril, prévia da inflação oficial, trouxe um alívio apenas parcial: o índice avançou 0,89% no mês, abaixo da expectativa de 0,98%, mas ainda assim acelerando em relação aos 0,44% registrados em março. No acumulado de 12 meses, a inflação passou de 3,90% para 4,37%. Esse resultado, embora marginalmente melhor que o esperado, não altera de forma relevante o cenário para o Banco Central, que deve seguir com o corte de juros, mas mantendo uma comunicação cautelosa e possivelmente revisando suas projeções de inflação. O dado pode até contribuir para uma leve redução de prêmio nos vértices mais curtos da curva de juros, mas a tendência de aceleração segue sendo um ponto de atenção.
A preocupação se intensifica à medida que o conflito no Oriente Médio continua a desorganizar cadeias globais de suprimento, com impactos crescentes sobre preços de energia e alimentos. Esse movimento já se reflete nas expectativas de inflação captadas pelo Focus, que apontam para níveis acima do teto da meta neste ano. Com isso, embora ainda exista espaço para cortes adicionais de juros, ele tende a ser mais limitado do que se projetava anteriormente.
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Paralelamente, a agenda doméstica inclui a divulgação de dados de arrecadação federal, que ganham relevância diante de sinais de flexibilização fiscal por parte do governo, em resposta à deterioração da popularidade. Pesquisas recentes, como Atlas/Intel de hoje, indicam um cenário ainda equilibrado, com Flávio Bolsonaro levemente à frente, mas em empate técnico com o atual presidente, sugerindo estabilização nos níveis de reprovação.
Nesse ambiente, medidas como a possível implementação de um “Desenrola 2.0”, voltado à renegociação de dívidas, reforçam o uso de instrumentos fiscais e parafiscais para mitigar pressões sociais, especialmente entre as camadas de menor renda, percepção corroborada por levantamentos como os da Nexus e Quaest. A continuidade dessas iniciativas tende a ampliar os desafios fiscais, elevando o custo de ajuste para 2027, quando uma recomposição mais estrutural das contas públicas se tornará inevitável.
· 01:44 — No aguardo dos resultados
A semana concentra uma agenda relevante de resultados corporativos nos Estados Unidos, com expectativa de mais um trimestre de crescimento de dois dígitos para as empresas do S&P 500. Mesmo com os índices já próximos de máximas históricas, após recentes avanços modestos, o mercado continua sustentado pelo otimismo em torno de tecnologia e inteligência artificial, sobretudo diante da divulgação iminente dos balanços das principais empresas do setor. Ainda assim, o nível de exigência permanece elevado: companhias que não superam as estimativas, ou que entregam resultados sólidos sem revisões mais consistentes de projeções, têm sido penalizadas, refletindo um ambiente de expectativas particularmente altas.
No pano de fundo, a dinâmica macroeconômica impõe um tom mais cauteloso. A inflação nos Estados Unidos apresenta apenas melhora marginal e permanece resiliente em componentes mais persistentes, mantendo o Federal Reserve dependente da evolução dos dados e com pouco espaço para uma flexibilização mais acelerada da política monetária. Ao mesmo tempo, incertezas geopolíticas ainda não foram plenamente incorporadas aos resultados e tendem a aparecer com maior clareza nos guidance das empresas, especialmente por meio de custos mais elevados de energia. Com a confiança do consumidor em níveis reduzidos, mesmo em um ambiente de bolsas em máximas, o mercado segue apoiado na resiliência dos lucros, em um cenário que combina otimismo com elevada sensibilidade a frustrações.
· 02:39 — Sem novidades?
Após uma tentativa frustrada de retomada das negociações no Paquistão, o chanceler iraniano Abbas Araghchi reforçou o alinhamento de Teerã com Moscou em encontro com Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, o Irã passou a sinalizar disposição para um acordo mais limitado, centrado na reabertura do Estreito de Ormuz em troca do fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos, deixando a discussão sobre o programa nuclear para uma etapa posterior.
A reação americana, por sua vez, tem sido ambígua, combinando o cancelamento de iniciativas diplomáticas com a manutenção de uma postura firme. Essa indefinição contribui para a persistência das tensões e já se reflete no mercado de energia, com o petróleo acima de US$ 108. Em contraste com o acordo nuclear de uma década atrás, construído por meio de negociações multilaterais complexas, o ambiente atual é marcado por menor coordenação, interlocutores menos experientes e recorrentes interrupções militares, o que amplia a percepção de impasse e alimenta a frustração internacional, especialmente entre europeus.
Mesmo na hipótese de um entendimento pontual, os efeitos econômicos tenderiam a ser prolongados. O bloqueio e as disrupções no Estreito de Ormuz já provocaram acúmulo de navios, danos à infraestrutura de refino e desorganização das cadeias energéticas, pressionando combustíveis e elevando o risco de desaceleração econômica global, inclusive nos Estados Unidos, onde a alta da gasolina ganha relevância política.
Ao mesmo tempo, o choque aprofunda tensões com aliados, sobretudo europeus e asiáticos, mais expostos à crise energética e alimentar, e reforça a dependência global da capacidade tecnológica americana, especialmente em inteligência artificial. O resultado é um cenário de maior fragmentação, menor coordenação entre potências médias e custos econômicos e geopolíticos potencialmente mais elevados do que se antecipava inicialmente.
· 03:23 — Um novo fundo soberano
A criação do primeiro fundo soberano do Canadá, com US$ 18,4 bilhões destinados ao financiamento de projetos estratégicos, sinaliza uma inflexão relevante na dinâmica internacional, na qual países passam a recorrer a instrumentos típicos de política industrial para fortalecer sua autonomia econômica. A iniciativa, liderada por Mark Carney, tem como objetivo não apenas viabilizar 15 grandes projetos de infraestrutura em parceria com o setor privado, mas também reposicionar o país como a economia mais robusta do G7, em um ambiente marcado por maior fragmentação global e tensões comerciais persistentes, especialmente após tensão com os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a medida revela uma atuação mais ativa do Estado na alocação de capital, mesmo diante de um quadro fiscal mais pressionado, com o déficit alcançando US$ 57 bilhões em 2025. A meta de catalisar até US$ 1 trilhão em investimentos ao longo dos próximos cinco anos sugere que o Canadá se prepara para um cenário em que escala produtiva, infraestrutura e segurança econômica ganham protagonismo. Nesse contexto, a competição entre países tende a se deslocar de uma lógica predominantemente orientada pelo mercado para outra, cada vez mais estruturada por estratégias coordenadas de longo prazo. Um novo mundo, de fato.
· 04:18 — Surfando a onda
O forte desempenho recente do mercado sul-coreano, com o índice de ações avançando cerca de 60%, pode ser atribuído, em grande medida, a um vetor dominante: o ciclo de semicondutores associado à expansão da inteligência artificial, que vem impulsionando de forma significativa os lucros de empresas como Samsung e SK Hynix. Ainda que as ações tenham registrado valorização expressiva, essas companhias continuam sendo negociadas a múltiplos relativamente atrativos em comparação com seus pares globais, o que sustenta a percepção de continuidade do movimento. Por outro lado, a crescente concentração, com essas duas empresas respondendo por cerca de 42% da capitalização do índice, aumenta a sensibilidade do mercado a eventuais reversões no ciclo de semicondutores, enquanto fatores domésticos, como pressões trabalhistas, adicionam uma camada adicional de risco.
· 05:06 — Quando o mundo cabe em um chip
Um panorama mais abrangente dos mercados globais indica que os valuations permanecem pressionados, ainda que de forma heterogênea entre regiões e setores. O MSCI ACWI segue sendo negociado acima de seus padrões históricos, impulsionado principalmente pelo desempenho dos Estados Unidos, enquanto Europa, Japão e outros mercados desenvolvidos e emergentes se situam mais próximos de níveis considerados neutros.
Ao mesmo tempo, o prêmio de risco das ações globais recuou para patamares historicamente baixos, sinalizando um ambiente em que a sustentação dos preços depende cada vez mais da continuidade do crescimento dos lucros. Esse contexto ajuda a explicar o rali recente das bolsas americanas, especialmente no segmento de semicondutores, que se consolidou como o principal motor de expansão de resultados no curto prazo. E é justamente nesse ponto, inclusive, que a Nvidia segue se destacando como o epicentro dessa dinâmica.
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A companhia alcançou um valor de mercado de aproximadamente US$ 5,2 trilhões, acumulando cerca de US$ 4,9 trilhões desde 2022, e passou a representar aproximadamente 4,96% do índice global, participação superior à de mercados inteiros, como o Japão, e maior do que a contribuição combinada de França e Alemanha. Mais do que um reflexo de fluxos passivos, essa magnitude traduz a centralidade da Nvidia na formação da nova infraestrutura tecnológica global, impulsionada pela expansão da inteligência artificial e pela demanda por semicondutores avançados. Na prática, cada dólar investido em índices globais incorpora uma exposição relevante à empresa, evidenciando não apenas a crescente concentração do mercado, mas também a força de um ativo diretamente ligado ao principal vetor de crescimento da economia digital. Não dá para lutar contra…
Para o investidor local, é possível acessar a tese por meio do BDR NVDC34, que oferece participação em uma das trajetórias de crescimento mais relevantes do mercado atual. Em um cenário em que poucos ativos concentram grande parte da geração de valor, a Nvidia deixa de ser apenas uma líder setorial para assumir o papel de protagonista estrutural, combinando escala, demanda persistente e capacidade de expansão de lucros, fatores que ajudam a sustentar sua atratividade mesmo em um ambiente de valuations mais exigentes. Por isso, sigo gostando do nome para complementar carteiras de ações internacionais, mesmo depois de todo o ganho.