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Quem esperava que o fim das eleições trouxesse alguma tranquilidade para os mercados teve uma semana bem diferente pela frente.
No Brasil, o desfecho do segundo turno acabou lembrando um pouco o famoso “Casamento Vermelho”: aquilo que poderia encerrar um período de incerteza rapidamente se transformou em uma sequência de quedas, com Bolsa, real e curva de juros refletindo a renovação das preocupações fiscais. Mesmo em Game of Thrones não encontraríamos um roteiro tão emocionante.
Lá fora, a história também passa por uma conta cada vez maior. Os resultados de Amazon, Alphabet e Microsoft reforçaram que a corrida pela inteligência artificial continua firme — mas o mercado está menos disposto a financiar essa expansão sem enxergar retorno e geração de caixa.
Entre juros, criptomoedas e resultados corporativos, não faltaram temas para encerrar outubro.
00:22 – O casamento vermelho do mercado brasileiro
O resultado das eleições foi a principal pauta do mercado na semana, diante da renovação das preocupações com o cenário fiscal.
A Bolsa é o retrato mais claro: o índice não emplacou um único dia de alta desde o desfecho do segundo turno, fechou ontem perto dos 169 mil pontos e viu os bancos liderarem as perdas, diante da expectativa de desaceleração do crédito.
O dólar acumula alta de quase 8% e fechou ontem pouco acima de R$ 5,38, com o real entre as moedas líquidas de pior desempenho no período. Os juros longos chegaram a abrir mais de 20 pontos-base durante o pregão de ontem.
Os próximos passos serão essenciais para o desempenho dos ativos de risco, começando pela escolha do ministro da Fazenda, que parece já ter um favorito.
01:30 – Big Techs: a conta está mais cara
Amazon, Alphabet e Microsoft divulgaram resultados nesta semana, e a reação do mercado deixou clara uma mensagem que já vínhamos destacando por aqui: a régua para os investimentos no universo de IA está mais elevada.
A Alphabet desabou 12,5% ontem (29), maior queda percentual de sua história, enquanto a Amazon caiu mais de 7% no after-hours após reportar fluxo de caixa livre negativo de cerca de US$ 42 bilhões em 12 meses — o preço da corrida pela inteligência artificial começando a aparecer nas demonstrações financeiras.
A Microsoft foi a exceção mais favorável. O Azure cresceu 48%, a companhia gerou US$ 18,6 bilhões de fluxo de caixa e conseguiu combinar investimentos elevados com geração de caixa positiva.
O Nasdaq liderou as perdas entre os índices americanos, e a leitura predominante é menos sobre demanda e mais sobre o prazo de maturação dos investimentos: o consumo de caixa encurta a paciência do investidor e pressiona os múltiplos justamente em um momento em que os juros longos globais permanecem elevados.
03:10 – O Fed prefere esperar
No mercado de juros, a semana também trouxe novidades importantes.
O Federal Reserve manteve a taxa básica entre 3,75% e 4%, como esperado, e indicou que prefere aguardar mais informações antes de alterar novamente a política monetária. A decisão contou com duas divergências dentro do comitê.
O pano de fundo segue pouco confortável. A economia americana continua mostrando resiliência, enquanto inflação e atividade ainda não oferecem espaço suficiente para uma flexibilização mais agressiva.
03:30 – Entre altos e baixos: Binance e Hyperliquid
No mercado cripto, a quinta-feira trouxe um lembrete bastante diferente sobre risco.
A Binance investiga um ataque que pode ter provocado perdas entre US$ 5,8 bilhões e US$ 6,3 bilhões, potencialmente o maior hack já registrado no setor. O ataque envolveu retiradas não autorizadas de diferentes ativos das hot wallets da exchange. A companhia afirmou que não haverá perdas para os clientes, embora os saques permaneçam congelados.
O reflexo foi imediato: o Bitcoin caiu para abaixo de US$ 77 mil, enquanto o Ether recuou mais de 5%. Mais do que o tamanho do ataque, o episódio traz novamente à tona uma discussão antiga do mercado de criptomoedas: o risco de custódia.
Curiosamente, ontem também tivemos uma notícia importante na direção oposta. A ICE, controladora da Bolsa de Nova York, anunciou uma parceria com a TradeXYZ para desenvolver um mercado regulado de contratos perpétuos nos Estados Unidos utilizando a infraestrutura tecnológica da Hyperliquid. A ICE será responsável pela bolsa e pela compensação das operações, enquanto a tecnologia da Hyperliquid servirá como base para os contratos. O token HYPE chegou a subir cerca de 15% após o anúncio.
É um contraste interessante: no mesmo dia em que uma das maiores exchanges centralizadas do mundo sofreu um ataque bilionário, uma infraestrutura originalmente descentralizada deu mais um passo em direção ao mercado financeiro tradicional.
05:00 – É hora de mapear alguns descontos
Embora a deterioração do ambiente doméstico seja pertinente, o investidor de longo prazo deve permanecer atento às oportunidades que surgem em momentos de maior volatilidade.
Boas empresas, com gestão consolidada e negócios resilientes, geralmente oferecem janelas de entrada interessantes nesses períodos.
É o caso da Multiplan (MULT3). Embora o desempenho do varejo seja mais desafiador no curto prazo, a companhia de shopping centers segue apresentando resultados sólidos.
No terceiro trimestre, as vendas dos lojistas cresceram 5,9%, para R$ 6,4 bilhões, com aceleração ao longo do período. As Vendas nas Mesmas Lojas (SSS) avançaram 3,1%, enquanto o Aluguel nas Mesmas Lojas (SSR) subiu 4,3%, equivalente a um ganho real de 3,1%.
As expansões recentes também seguem contribuindo para o crescimento. O MorumbiShopping, por exemplo, registrou alta de 23,4% nas vendas após a ampliação do empreendimento.
Ao mesmo tempo, a estrutura de capital continua saudável. A dívida líquida encerrou setembro em R$ 4,44 bilhões, com relação dívida líquida/EBITDA de apenas 1,76 vez, oferecendo flexibilidade para novos investimentos e distribuições aos acionistas.
O trimestre teve alguns ruídos financeiros e efeitos não recorrentes, mas nada que altere nossa leitura sobre a qualidade da operação.
Após a correção recente, MULT3 voltou a negociar próxima de 10 vezes o FFO estimado para 2027, nível que consideramos atrativo para uma empresa com portfólio de alta qualidade, baixa alavancagem e histórico consistente de execução.
A volatilidade pode continuar no curto prazo, especialmente diante do cenário fiscal e dos juros elevados. Ainda assim, entendemos que a queda abriu um ponto de entrada mais interessante.