Imagem: Montagem Canva Pro
Os mercados globais encerram a semana com maior apetite por risco, impulsionados pela recuperação das ações ligadas à inteligência artificial e aos semicondutores. Na Ásia, o principal destaque foi o salto recorde de 17,9% do Kospi, sustentado pelas valorizações de 28% da Samsung Electronics e de 30% da SK Hynix, em um movimento de recomposição após a forte correção recente do setor.
O otimismo também foi reforçado pelos resultados de Microsoft e Amazon, que evidenciaram uma demanda robusta por serviços de computação em nuvem e inteligência artificial, embora a Apple tenha frustrado parte das expectativas.
No Japão, o Banco Central manteve os juros em 1%, em uma decisão por oito votos a um, mas adotou uma comunicação mais firme ao reconhecer que a inflação subjacente pode superar a meta de 2%. Com isso, a autoridade preservou a possibilidade de elevar novamente a taxa, para 1,25%, até dezembro. O iene chegou a registrar sua maior valorização em mais de dois anos diante de indícios de uma intervenção coordenada entre Japão e Coreia do Sul, mas devolveu parte dos ganhos após a decisão monetária.
Paralelamente, a guerra entre Estados Unidos e Irã continua relevante, com novos ataques a instalações americanas no Kuwait e no Barein, além de incidentes envolvendo navios no Egito. Ainda assim, o conflito deixou de determinar sozinho o comportamento dos ativos, à medida que os investidores voltaram a dividir sua atenção entre geopolítica, balanços corporativos, inflação e política monetária.
· 00:58 — Alívio externo, mas pressão fiscal segue no radar
No Brasil, o Ibovespa encerrou a quinta-feira em forte alta de 1,88%, aos 177.159 pontos, na máxima do dia, recuperando parte das perdas registradas na sessão anterior. O movimento acompanhou a melhora do apetite global por risco após a divulgação do PCE americano abaixo das expectativas, o que contribuiu para aliviar parte do desconforto provocado pela comunicação do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh. As ações das grandes exportadoras de commodities deram sustentação ao índice, enquanto o desempenho negativo dos bancos limitou os ganhos.
No cenário doméstico, o mercado também acompanhou as articulações eleitorais envolvendo Flávio Bolsonaro e a possibilidade de Tereza Cristina ocupar a vice-presidência da chapa, hipótese que pode fortalecer a candidatura. Ao mesmo tempo, o quadro fiscal permanece como uma importante fonte de preocupação: o terceiro mandato do presidente Lula pode terminar com déficit nominal equivalente a 8,6% do PIB, o maior em mais de duas décadas, enquanto a dívida bruta já alcança R$ 10,6 trilhões, ou 81,1% do PIB, e pode chegar a 100% em 2032. As contas do governo central acumularam déficit primário de R$ 92,2 bilhões no primeiro semestre, o pior resultado desde 2020, e de R$ 144,1 bilhões em 12 meses, equivalente a 1,08% do PIB.
Como sabemos, o desequilíbrio fiscal, que contribui para a manutenção dos juros em patamares elevados no país, deverá ser enfrentado de forma mais efetiva apenas em 2027. No campo corporativo, a Vale registrou lucro líquido de US$ 1,375 bilhão no segundo trimestre, queda de 35% na comparação anual e resultado 27% abaixo das estimativas, embora o Ebitda pro forma tenha avançado 19%, para US$ 4,066 bilhões. A companhia também elevou sua projeção de custo caixa para 2026, anunciou a distribuição de R$ 2,03 por ação em dividendos e juros sobre capital próprio e estendeu seu programa de recompra. A reação das ações, contudo, é tímida.
· 01:46 — Tecnologia reacende Wall Street
Nos Estados Unidos, os principais índices registraram forte recuperação na quinta-feira, impulsionados pela renovação do otimismo em torno do setor de tecnologia. O Nasdaq avançou 2,8%, o S&P 500 subiu 1,7% e o Dow Jones ganhou 1,2%, revertendo parte da instabilidade recente após a comunicação pouco clara do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh.
A Microsoft liderou o movimento, com alta de 15,5%, seu maior avanço diário desde 2008 e a reação mais positiva de sua história após a divulgação de um balanço. A SanDisk também se destacou, com valorização de 26%. Ainda assim, o movimento permaneceu concentrado: quase dois terços das empresas que compõem o S&P 500 recuaram, enquanto a versão do índice com pesos iguais encerrou o dia no campo negativo. A continuidade do rali passou a depender da reação aos resultados de Amazon e Apple, que superaram as expectativas, mas provocaram respostas opostas no pós-mercado, com alta da Amazon e queda da Apple.
No campo macro, o PCE de junho trouxe sinais mais favoráveis para a inflação, com deflação de 0,11% no índice cheio e avanço de aproximadamente 0,15% no núcleo. O chamado supercore (“super núcleo”), que exclui habitação do componente de serviços, apresentou desaceleração expressiva, passando de 0,52% para 0,12% no mês. As pressões sobre os preços de bens, no entanto, permaneceram presentes, refletindo parcialmente os efeitos das tarifas. O PIB do segundo trimestre cresceu 1,5% em termos anualizados, abaixo dos 2,0% esperados, prejudicado pelo desempenho da balança comercial e pela variação dos estoques, que retiraram conjuntamente 1,7 ponto percentual do crescimento.
Em contrapartida, o consumo das famílias avançou 3,2% e o investimento privado cresceu 3,0%, indicando que a demanda doméstica continua sólida. Esse conjunto de dados sugere que o Fed seguirá orientado pelo comportamento da inflação e do mercado de trabalho, com espaço para uma postura menos restritiva caso o núcleo inflacionário continue recuando.
· 02:32 — Gigantes de tecnologia
Os balanços das grandes empresas de tecnologia voltaram a ditar o ritmo de Wall Street, com destaque para a Microsoft, que adicionou US$ 484 bilhões ao seu valor de mercado em um único pregão, o maior ganho diário já registrado por uma companhia americana. As ações avançaram cerca de 15% após o Azure crescer 43% no quarto trimestre fiscal, seu melhor desempenho desde o início de 2022.
O resultado reforçou a percepção de que a empresa consegue ampliar os investimentos em inteligência artificial sem abrir mão da disciplina financeira. O movimento impulsionou o setor de tecnologia do S&P 500, que subiu 5%. A Meta, por outro lado, seguiu na direção oposta e recuou quase 8%, pressionada pela frustração com o lucro e pelas preocupações relacionadas ao elevado volume de investimentos em IA.
A Amazon também surpreendeu positivamente, com receita trimestral de US$ 201 bilhões, avanço de 20%, e lucro por ação de US$ 5,75, favorecido por US$ 53 bilhões em receitas não operacionais, sobretudo pelo ganho com a valorização de sua participação na Anthropic. A AWS cresceu 37%, acima dos 31% esperados, e alcançou margem operacional de 39%. O desempenho levou o mercado a receber com relativa tranquilidade o aumento da projeção anual de despesas de capital, ou capex, para US$ 220 bilhões, apesar do fluxo de caixa livre negativo e da necessidade de maior endividamento para financiar a construção de novos data centers.
Já a Apple apresentou receita e lucro acima das expectativas, com crescimento de 22% nas vendas de iPhones, mas suas ações recuaram mais de 6% após a divulgação de uma projeção mais fraca para o trimestre seguinte e de sinais de pressão crescente dos custos de memória sobre as margens. A reação ocorreu após a última teleconferência de Tim Cook como CEO, antes da sucessão por John Ternus, prevista para setembro.
· 03:27 — As potências médias
A política externa de “America First” tem estimulado uma aproximação entre potências médias, como Canadá, Japão, Austrália, Coreia do Sul e países europeus, que passaram a firmar novos acordos comerciais e de defesa para reduzir sua dependência da rivalidade entre Estados Unidos e China. Embora a formação de uma terceira força coordenada seja complexa e não elimine a influência americana, o fortalecimento desses vínculos pode sustentar um longo ciclo de investimentos públicos e privados em infraestrutura, defesa, commodities e cadeias de suprimentos.
Um exemplo é o compromisso conjunto de mais de US$ 1 bilhão entre Austrália e Japão para ampliar o comércio de minerais críticos, combinando a oferta mineral australiana com a demanda industrial japonesa. A reorganização das relações entre as potências médias pode se tornar uma das consequências mais duradouras da fragmentação atual.
· 04:15 — O Iene testa seus limites
Após conquistar, em fevereiro, o maior mandato eleitoral do Japão desde a Segunda Guerra Mundial, Sanae Takaichi prometeu tirar o país de décadas de estagnação. Poucos meses depois, porém, esse projeto enfrenta obstáculos crescentes: a popularidade da primeira-ministra recua, o iene chegou ao menor nível em cerca de 40 anos frente ao dólar e o Banco do Japão avalia acelerar o ciclo de alta de juros, restringindo o espaço para uma política fiscal mais expansionista.
Diante da pressão cambial, o Ministério das Finanças aparentemente interveio para sustentar a moeda, embora esse tipo de medida só produza efeitos duradouros quando acompanhado por uma correção dos fundamentos que explicam a desvalorização. Os dados de inflação de Tóquio vieram ligeiramente pressionados pela energia, enquanto, na Europa, a inflação de julho não deve trazer sinais relevantes de alarme.
O Banco do Japão manteve a taxa básica em 1%, mas adotou uma comunicação claramente mais firme. A autoridade revisou para cima sua avaliação da economia, alertou para o risco de a inflação superar a meta de 2% e reforçou a percepção de que o país segue em direção a uma normalização mais ampla da política monetária, após a alta do mês anterior para o maior nível desde 1995. Um integrante do conselho defendeu novo aumento imediato, e os mercados passaram a tratar praticamente todas as reuniões como oportunidades reais para novos ajustes, inclusive já em outubro.
Nesse contexto, o Japão se tornou mais complexo: o banco central avança gradualmente rumo a juros mais altos, as autoridades tentam conter a fraqueza do iene e Sanae Takaichi descobre que uma vitória eleitoral expressiva não garante estabilidade política nem facilidade para implementar sua agenda econômica.
· 05:01 — Amazon acelera na nuvem e investe no próximo ciclo
A Amazon apresentou resultados robustos, com receita trimestral de US$ 201 bilhões, crescimento de 20% na comparação anual e desempenho acima das expectativas. O lucro por ação alcançou US$ 5,75, também superando as projeções, embora tenha sido favorecido por US$ 53 bilhões em receitas não operacionais, principalmente relacionadas ao ganho não realizado com a valorização da participação da companhia na Anthropic.
Ainda assim, o principal destaque veio da operação: a Amazon Web Services cresceu 37%, bem acima dos 31% esperados por Wall Street, enquanto sua margem operacional atingiu 39%. Os números reforçam a recuperação da AWS e mostram que a maior plataforma de computação em nuvem do mundo voltou a crescer em ritmo mais próximo ao de concorrentes (Microsoft Azure e Google Cloud).
A aceleração da AWS ajuda a explicar por que o mercado recebeu de forma positiva o aumento da previsão de investimentos. A Amazon elevou sua estimativa anual de despesas de capital, ou capex, para US$ 220 bilhões, incorporando cerca de US$ 20 bilhões adicionais, destinados principalmente à construção de data centers e à expansão da infraestrutura voltada à inteligência artificial.
Embora os US$ 54 bilhões investidos no trimestre tenham superado o fluxo de caixa operacional em US$ 8,8 bilhões e levado a companhia ao segundo trimestre consecutivo de fluxo de caixa livre negativo, a demanda por capacidade computacional continua acima da oferta disponível. A empresa, inclusive, aumentou duas vezes neste ano os preços do aluguel de servidores destinados à IA, sinalizando poder de precificação e um ambiente de demanda ainda bastante favorável.
O aumento do endividamento terá papel relevante no financiamento desse ciclo de expansão, especialmente diante da emissão adicional de US$ 25 bilhões em julho, somada aos US$ 63 bilhões em dívidas de longo prazo contratados no primeiro semestre e à linha de crédito de US$ 17,5 bilhões anunciada em junho. Esse movimento exige acompanhamento, sobretudo por seus possíveis efeitos sobre a geração de caixa e a estrutura de capital.
Ainda assim, o mercado parece compreender que os investimentos atuais estão associados a uma oportunidade estrutural de crescimento em computação em nuvem e inteligência artificial, e não a uma deterioração do negócio. Nesse contexto, os resultados reforçam uma visão construtiva para as ações da Amazon, negociadas na Nasdaq sob o código AMZN e acessíveis no Brasil por meio do BDR AMZO34, já recomendadas anteriormente em nossas séries voltadas a ações internacionais.