(Imagem: ChatGPT)
Os mercados globais operam em um ambiente de forte aversão ao risco, liderado pela correção das ações de tecnologia, semicondutores e inteligência artificial. Na Ásia, o Taiex caiu 6,47%, o Nikkei recuou cerca de 4% e as ações da TSMC perderam 7,29%, mesmo após a divulgação de resultados robustos. O movimento reflete dúvidas crescentes sobre a capacidade dos elevados investimentos em IA de gerar retornos suficientes para sustentar as avaliações atuais, além de preocupações com a compressão das margens, um possível excesso de capacidade e os ganhos de eficiência apresentados por novos modelos chineses.
A pressão sobre os mercados também foi intensificada pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que chegou à sexta noite consecutiva de ataques. Na Europa, as bolsas acompanham o pessimismo global, pressionadas tanto pelo desempenho do setor de tecnologia quanto pela persistência das tensões no Oriente Médio. Nos Estados Unidos, os futuros do Nasdaq recuam mais de 2%, enquanto as ações da Netflix caem cerca de 9% após a companhia frustrar as expectativas de receita.
· 00:50 — Quando Washington tarifa e Brasília hesita, a bolsa paga a conta
No Brasil, o Ibovespa encerrou a quinta-feira em queda de 1,24%, retornando aos 173.825 pontos, pressionado pela menor disposição global para assumir risco, pela fraqueza das principais ações do índice e pelo aumento das incertezas domésticas. O dólar avançou 0,40%, para R$ 5,09, refletindo sobretudo a confirmação, pelos Estados Unidos, de uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, além da perspectiva de juros elevados por mais tempo e dos sinais de perda de fôlego da atividade econômica. Nesse campo, as vendas no varejo cresceram apenas 0,1% em maio, bem abaixo da expectativa de 0,7%, reforçando a percepção de desaceleração da economia. O varejo restrito apresentou leve avanço, mas o conceito ampliado recuou, pressionado principalmente pelos segmentos de supermercados e atacarejo.
Nesta manhã, as atenções se voltaram para o IBC-Br, indicador considerado uma prévia mensal do PIB. A expectativa mediana apontava para queda de 0,2% em maio, após alta de 0,5% em abril, mas o resultado mostrou avanço de 0,1% no mês. Apesar da desaceleração em relação à leitura anterior, a surpresa positiva adiciona uma pedra no sapato do Banco Central, ao não deixar claro se a fraqueza recente tem caráter apenas pontual ou se representa uma desaceleração mais estrutural.
No comércio exterior, a tarifa americana entrará em vigor em 22 de julho e atingirá cerca de 3 mil produtos, equivalentes a aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, como discutimos ontem. A ampliação da lista de exceções, que inclui petróleo, café, carne bovina, suco de laranja e aeronaves, reduziu a tarifa média efetiva para uma faixa entre 16% e 17%, limitando o impacto macroeconômico estimado. As projeções apontam para uma perda de aproximadamente US$ 700 milhões em exportações e um efeito de apenas 0,03 ponto percentual sobre o PIB.
Esse impacto limitado decorre, em parte, de uma fragilidade estrutural da própria economia brasileira: ainda somos um país relativamente fechado, no qual as exportações líquidas têm participação reduzida na formação do PIB. Caso o Brasil apresentasse um grau de abertura semelhante ao de diversas economias do Sudeste Asiático, o choque seria mais intenso, embora o país também provavelmente tivesse registrado um crescimento mais robusto nos últimos anos.
O governo Lula afirmou que continuará negociando, mas rejeitou exigências consideradas incompatíveis com a soberania nacional. Ainda assim, o risco de novas tarifas e de uma escalada retaliatória continua ampliando as incertezas comerciais, fiscais e políticas. Para o mercado, a capacidade do governo de associar politicamente as tarifas à oposição reduz a probabilidade de uma mudança no pêndulo eleitoral e, consequentemente, diminui as chances de um ajuste fiscal conduzido com maior convicção em 2027.
· 01:42 — Pressão tech
O setor de tecnologia volta a pressionar os mercados, com destaque para a forte correção das ações ligadas a semicondutores e inteligência artificial. Ontem, o Nasdaq recuou 1,5%, enquanto o ETF SOXX caiu 4,5%, apesar dos resultados positivos divulgados por TSMC e ASML. O movimento reflete uma mudança de postura dos investidores, que passaram a exigir retornos financeiros mais claros para justificar o elevado volume de investimentos em infraestrutura de IA.
A percepção de que as apostas em semicondutores estão excessivamente concentradas, somada às quedas de empresas como Micron, Alphabet, Meta, Amazon e Nvidia, reforçou a perda de força das estratégias baseadas em momentum; isto é, na continuidade das tendências recentes de valorização, que vinham sustentando boa parte do rali do setor.
Ao mesmo tempo, a economia americana continua demonstrando resiliência. As vendas no varejo avançaram 0,2% em termos nominais e 0,6% em termos reais, enquanto o núcleo cresceu 0,5%, acompanhado por revisões positivas nos meses anteriores. A atividade industrial da região da Filadélfia surpreendeu para cima, os pedidos de seguro-desemprego permaneceram em níveis historicamente baixos e as estimativas para o crescimento do PIB no segundo trimestre foram revisadas em alta. Esse quadro, no entanto, mantém o Federal Reserve em uma postura cautelosa. Dirigentes como Philip Jefferson, Lorie Logan e Jeffrey Schmid reforçaram que a inflação continua elevada e que, caso não volte a desacelerar de forma consistente, uma nova elevação dos juros poderá se tornar necessária.
· 02:11 — Escalada no Oriente Médio sustenta alta do petróleo
Os confrontos entre Estados Unidos e Irã chegaram ao sexto dia consecutivo, sem sinais de arrefecimento. Segundo o CENTCOM, as forças americanas realizaram uma nova ofensiva contra alvos iranianos, enquanto Teerã respondeu com mísseis e drones direcionados a bases dos Estados Unidos em países vizinhos, incluindo uma instalação militar na Jordânia. A continuidade dos ataques mantém elevados os riscos para o abastecimento global de energia e para a navegação na região.
Nesse contexto, o Brent superou mais uma vez a marca de US$ 85 por barril, acumulando valorização próxima de 12% na semana. Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, alertou que a segurança da oferta de petróleo continuará sendo uma preocupação relevante caso o conflito se prolongue. A disputa persistente em torno do Estreito de Ormuz e do Mar Vermelho pode manter o petróleo acima de US$ 80 por vários trimestres ou levá-lo novamente para além de US$ 100 em um cenário mais grave, pressionando a inflação e reduzindo o crescimento econômico.
· 03:26 — China acelera na inteligência artificial e amplia a disputa com os EUA
A startup chinesa Moonshot provocou forte repercussão nos mercados ao anunciar o Kimi K3, um modelo de inteligência artificial que apresenta desempenho comparável ao das principais soluções da OpenAI e da Anthropic. O lançamento reacendeu o chamado “momento DeepSeek”, que já vimos antes, ao reforçar a percepção de que desenvolvedores chineses vêm avançando rapidamente, com custos potencialmente inferiores aos observados entre seus concorrentes. A notícia pressionou as ações de fabricantes de chips e os contratos futuros da Nasdaq, ao renovar as dúvidas sobre a sustentabilidade dos elevados investimentos em infraestrutura de IA e sobre a demanda futura por semicondutores de alto desempenho.
O anúncio coincidiu com a participação de Xi Jinping na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, onde o presidente chinês defendeu uma abordagem mais inclusiva e cooperativa para o desenvolvimento da tecnologia. Xi procurou posicionar a China como uma liderança na formulação das regras globais para a inteligência artificial, com ênfase na ampliação do acesso pelos países do Sul Global e na contenção dos riscos de segurança. Como parte dessa estratégia, Pequim obteve a adesão de 29 países, incluindo a Rússia, a uma organização internacional de cooperação em inteligência artificial liderada pela China, reforçando suas ambições de ampliar a influência tecnológica e diplomática do país.
Ao mesmo tempo, as relações entre Estados Unidos e China voltaram a enfrentar novas tensões. Donald Trump acusou Pequim de interferir nas eleições americanas de 2020 e afirmou que registros de milhões de eleitores teriam sido comprometidos, embora essas alegações já tenham sido contestadas por órgãos de inteligência. Seu governo também anunciou restrições à duração dos vistos concedidos a jornalistas estrangeiros, com impacto especialmente relevante sobre profissionais chineses. O discurso teve forte conteúdo eleitoral e ocorre poucos meses antes das eleições de meio de mandato, em novembro, e da visita prevista de Xi aos Estados Unidos, em setembro, ampliando as incertezas sobre a estabilidade da trégua comercial e diplomática entre as duas potências.
· 04:13 — Vem aí um possível grande IPO
A DeepSeek está se preparando para uma possível abertura de capital em Xangai, com a apresentação do pedido prevista para até o fim deste ano e uma eventual estreia no mercado no segundo trimestre do próximo. A empresa ganhou projeção ao desenvolver modelos de inteligência artificial a custos significativamente inferiores aos de concorrentes americanos e, recentemente, captou US$ 7,4 bilhões em sua primeira rodada de financiamento externo, alcançando um valuation superior a US$ 50 bilhões. Agora, ela negocia uma nova rodada que poderá elevar esse valor para US$ 71 bilhões ou mais, ao mesmo tempo em que amplia os investimentos em capacidade computacional, data centers, aquisição de chips e contratação de profissionais.
O movimento ocorre em meio à intensificação da corrida chinesa por capital para financiar o desenvolvimento de inteligência artificial e semicondutores. A ByteDance negocia um empréstimo internacional de aproximadamente US$ 20 bilhões, a Zhipu AI captou US$ 4 bilhões em Hong Kong e a ChangXin Memory Technologies pretende levantar quase US$ 10 bilhões em sua listagem no STAR Market de Xangai, naquele que poderá ser o maior IPO da Ásia neste ano. Em paralelo, a Samsung Electronics negou relatos de que estaria avaliando uma oferta de ADRs, enquanto o mercado acompanha a crescente mobilização das empresas chinesas para reduzir a distância tecnológica em relação aos Estados Unidos.
· 05:08 — Cyrela mantém execução sólida em um ambiente ainda desafiador
A Cyrela (CYRE3) divulgou nesta semana a sua prévia operacional, mantendo um desempenho robusto no segundo trimestre de 2026, com 20 lançamentos que totalizaram R$ 3,84 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV), considerando a participação da companhia e excluindo permutas. O volume representou crescimento de 34% em relação ao mesmo período de 2025 e de 120% frente ao primeiro trimestre deste ano. As vendas líquidas alcançaram R$ 2,56 bilhões, com avanços de 14% na comparação anual e de 18% na trimestral, enquanto a velocidade de vendas encerrou o período em 17%. A distribuição dos lançamentos permaneceu relativamente equilibrada entre os segmentos de alto padrão, médio padrão e as faixas 2 e 3 do Minha Casa, Minha Vida, reduzindo a dependência de uma única faixa de renda.
Apesar do desempenho positivo, alguns indicadores ainda exigem acompanhamento. A velocidade de vendas acumulada em 12 meses recuou para 42,8%, ante 51,4% no segundo trimestre de 2025 e 44,7% no trimestre anterior, enquanto o indicador de meses de vendas atingiu 20 vezes no segmento de alto padrão. Ainda assim, a companhia continua apresentando uma execução superior à de grande parte de seus concorrentes, apoiada pelo crescimento das vendas e pela diversificação do portfólio. Como os riscos associados ao nível elevado dos juros e à maior sensibilidade dos segmentos de média e alta renda parecem estar parcialmente refletidos nos preços, com as ações negociando a aproximadamente 0,9 vez o valor patrimonial, CYRE3 permanece sendo uma boa pedida para complementar carteiras de ações brasileiras.