Imagem: iStock/Rmcarvalho
A chamada Super Quarta concentra a atenção dos mercados, com decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos em um ambiente ainda pressionado pelos preços elevados do petróleo, reflexo direto do impasse no Oriente Médio. Enquanto o Federal Reserve deve manter as taxas de juros inalteradas, o Copom tende a realizar novo corte de 0,25 ponto percentual, em um cenário que combina inflação persistente, atividade resiliente e incerteza externa.
Em paralelo, a agenda econômica inclui indicadores relevantes de inflação e mercado de trabalho, enquanto, no campo corporativo, o foco se volta para a divulgação dos resultados das grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos.
No cenário global, o conflito entre EUA e Irã permanece sem solução, mantendo o Estreito de Ormuz praticamente fechado e sustentando o petróleo acima de US$ 100 por barril, com efeitos já perceptíveis sobre a economia global. A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP introduz um novo elemento estrutural, com potencial de aumento da oferta no médio prazo, embora o curto prazo siga dominado por disrupções. Ao mesmo tempo, dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial, após frustrações envolvendo a OpenAI, pressionaram ações do setor, logo antes dos resultados das Big Techs hoje.
· 00:55 — Um corte sem muita margem
No cenário doméstico, antes da decisão de política monetária prevista para o início da noite, após o fechamento do mercado, há alguns vetores relevantes no radar dos investidores.
A temporada de resultados começa a ganhar tração, com os bancos iniciando a divulgação de seus números trimestrais, enquanto o mercado ainda assimila o resultado da Vale divulgado na véspera, com as ADRs da mineradora em queda no pré-mercado em Nova York, sinalizando um dia potencialmente mais desafiador. Além disso, seguem no foco indicadores importantes, tanto do lado fiscal quanto do mercado de trabalho, compondo um pano de fundo já carregado.
Ainda assim, o principal fator de atenção e de ansiedade permanece sendo a decisão do Copom, especialmente após dias recentes de correção do Ibovespa, em parte refletindo a saída de investidores estrangeiros que haviam ingressado com força ao longo do primeiro trimestre.
A decisão ocorre na esteira de uma prévia de inflação mais pressionada: embora o número tenha vindo abaixo das expectativas, a leitura qualitativa foi desfavorável, com sinais de aceleração e piora na composição dos preços.
Diante desse quadro, o Banco Central deve, ao mesmo tempo, confirmar o corte de 25 pontos-base e adotar uma comunicação mais firme, possivelmente revisando para cima suas projeções de inflação no horizonte relevante. Um tom excessivamente flexível poderia pressionar o câmbio e deteriorar ainda mais as expectativas inflacionárias, um risco que a autoridade monetária tende a evitar.
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· 01:47 — As Big Techs vêm aí
As preocupações com a rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial ganharam força após a divulgação de que a OpenAI não atingiu suas metas de receita e número de usuários, pressionando o setor de tecnologia em um momento particularmente sensível.
Nesse contexto, os principais índices acionários recuaram mesmo após terem renovado máximas recentes. O movimento ocorreu na véspera da divulgação de resultados das grandes empresas de tecnologia, da decisão de política monetária do Federal Reserve e pela votação sobre a sucessão de Jerome Powell.
Apesar do ruído de curto prazo, o setor de tecnologia segue apresentando crescimento robusto, com expectativa de expansão de cerca de 41% nos lucros no primeiro trimestre, mantendo-se como um dos principais pilares da recuperação recente dos mercados. Nesse contexto, a divulgação dos resultados de empresas como Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta assume papel central para sustentar o apetite por risco, especialmente em um ambiente marcado por juros elevados e incertezas geopolíticas.
· 02:33 — Esperar para ver
O Federal Reserve deve manter hoje os juros no intervalo de 3,5% a 3,75%, com o foco do mercado concentrado menos na decisão em si e mais na comunicação de Jerome Powell, em sua última reunião como presidente da instituição. Indicado por Donald Trump, Kevin Warsh deve ser aprovado em breve, reforçando a expectativa de transição no comando do banco central americano.
Ainda assim, permanece alguma incerteza sobre o futuro de Powell, que pode deixar o Fed ou continuar como membro do Conselho de Governadores até 2028, especialmente após a investigação sobre a reforma da sede ter sido parcialmente encerrada e transferida ao Inspetor Geral.
No plano macroeconômico, o ambiente segue desafiador. O choque de energia e a incerteza geopolítica, intensificados pela guerra no Oriente Médio, mantêm a inflação como o principal risco e reduzem o espaço para cortes de juros no curto prazo.
Nesse contexto, o Fed tende a adotar uma postura cautelosa ao longo dos próximos meses e dependente da evolução dos dados, prolongando o período de juros elevados. A estratégia de “esperar para ver” deve prevalecer, com o mercado já postergando as expectativas para o início de um eventual ciclo de afrouxamento monetário.
· 03:22 — Instabilidade no cartel
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram sua saída da OPEP após quase seis décadas, em um movimento que representa um golpe relevante para o cartel em meio à crise energética desencadeada pelo conflito com o Irã.
A decisão reflete tensões históricas com a Arábia Saudita sobre cotas de produção e influência regional, além de ter sido acelerada por um ambiente de maior incerteza e necessidade de geração de receita. Como responsável por cerca de 12% da oferta do grupo antes do conflito, a saída levanta dúvidas sobre a capacidade da OPEP de manter sua coesão e seu papel tradicional de estabilização.
Na prática, os Emirados passam a ter liberdade para produzir acima das cotas anteriores, o que pode pressionar outros membros a seguir o mesmo caminho, elevando a oferta global.
Sob a ótica da teoria dos jogos, esse desfecho é coerente: a OPEP funciona como um cartel em um jogo repetido, no qual a cooperação depende de ganhos futuros superarem o incentivo de desvio no presente. A guerra com o Irã aumenta os custos de coordenação e encurta o horizonte de decisão, tornando mais racional priorizar receitas imediatas, mesmo à custa da disciplina coletiva.
No curto prazo, os preços seguem sustentados pelas disrupções no Estreito de Ormuz, com o Brent acima de US$ 110, mas, no horizonte mais longo, o aumento potencial da oferta e a fragmentação do cartel podem alterar a dinâmica estrutural do mercado, sugerindo que este movimento vai além de um evento pontual.
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· 04:19 — Atualizando o “Make Europe Great Again”
A União Europeia avança com o plano “Made in Europe”, cujo objetivo é reduzir a dependência do bloco em relação a produtos importados da China, especialmente em setores estratégicos de alta tecnologia.
Na prática, a proposta prevê que empresas europeias financiadas com recursos públicos passem a utilizar uma parcela maior de componentes produzidos dentro da própria região, como baterias e inversores usados em painéis solares. A medida reflete uma preocupação crescente com autonomia industrial e segurança econômica, sobretudo em áreas consideradas críticas para o futuro energético e tecnológico.
A iniciativa, porém, provocou reação imediata de Pequim. O governo chinês afirmou que poderá adotar “contramedidas” caso suas empresas sejam prejudicadas, elevando o risco de novas tensões comerciais. O pano de fundo é um desequilíbrio expressivo na relação entre as duas regiões: em 2025, a União Europeia registrou déficit comercial de € 359,8 bilhões com a China, um valor que Bruxelas busca reduzir. Nos últimos anos, a relação entre UE e China tem sido marcada por instabilidade, e esse novo capítulo tende a intensificar, mais do que aliviar, as tensões.
· 05:01 — Depois de décadas de subinvestimento
A tese de desenvolvimento da energia nuclear se sustenta em uma mudança estrutural simultânea nos campos regulatório, tecnológico e de demanda. Após décadas de crescimento limitado, o setor começa a dar sinais claros de inflexão, impulsionado por reformas que buscam reduzir custos e prazos de licenciamento, pelo avanço de novas tecnologias, como os pequenos reatores modulares (SMRs), e pelo aumento consistente do investimento público e privado.
Nos Estados Unidos, por exemplo, iniciativas recentes têm como objetivo encurtar processos que historicamente levavam de 8 a 12 anos para prazos próximos de 18 meses, além de acelerar testes e a implantação de novos reatores. Esse novo ambiente regulatório melhora de forma relevante a viabilidade econômica dos projetos, ao mesmo tempo em que a crescente demanda por energia, especialmente associada a data centers e infraestrutura digital, reforça a necessidade de fontes estáveis, limpas e seguras. Nesse contexto, a energia nuclear volta a ganhar protagonismo não apenas como solução ambiental, mas como elemento estratégico de segurança energética e até de defesa nacional.
Como consequência direta desse movimento, a cadeia de suprimento de combustível nuclear tende a se tornar um dos principais pontos de tensão e, portanto, uma das oportunidades mais evidentes. A oferta global de urânio permanece relativamente restrita e, em muitos casos, concentrada geograficamente, enquanto a demanda projetada cresce com a expansão de novos reatores e a modernização da base instalada.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a produção doméstica ainda representa uma parcela reduzida do consumo total, exigindo uma ampliação acelerada das capacidades de mineração, conversão e enriquecimento. Adicionalmente, combustíveis mais avançados, como o HALEU, fundamentais para a nova geração de reatores, ainda enfrentam déficits significativos de oferta. Esse desequilíbrio estrutural entre uma demanda em expansão e uma oferta limitada sustenta a tese de valorização do urânio ao longo do tempo, posicionando o setor como um dos principais beneficiários da transição energética e da reconfiguração das cadeias de energia.
Naturalmente, a crise energética decorrente do Oriente Médio tende a acelerar ainda mais a busca por alternativas aos combustíveis fósseis. E a energia nuclear tende a desempenhar um papel central nesse processo. Dentro desse contexto, instrumentos como os ETFs Sprott Uranium Miners ETF (URNM) e Global X Uranium ETF (URA) seguem como alternativas relevantes para capturar essa temática.
No Brasil, o BURA39 cumpre papel semelhante. Para a maior parte dos investidores, alocações mais modestas, da ordem de até 1% do portfólio, tendem a ser suficientes para capturar o potencial da tese sem comprometer o equilíbrio geral da carteira. Como sempre, permanece válida a disciplina fundamental: respeitar o próprio perfil de risco, manter diversificação adequada e estruturar o portfólio de forma a atravessar diferentes ciclos de mercado com consistência.