Me chame pelo seu nome

Não há paixão ou amor melhor do que outra(o). Algumas são avassaladoras, encontros de almas gêmeas; outras nem tanto. As minhas - ou algumas delas - são: Nassim Taleb, George Soros , Curva de Phillips... Uma diversidade reforçada pelo espírito do Carnaval e pelo comportamento recente dos mercados.

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Me chame pelo seu nome

Parece que o ano começa hoje, né? Pelo menos, é o que dizem… ou seria amanhã?

Olha, você me desculpe, com todo o respeito, mas não posso concordar. Já vi tanta coisa desde o 1° de janeiro… vi até cavalo com soluço…

E você? Cuidou bem do seu dinheiro nesses primeiros 45 dias de 2018? Ou vai esperar só este restinho de ano para começar a agir sobre suas finanças? (Ficou meio Simone isso, né? “Então é Natal, e o que você fez?” Que cafona…)

Ano novo, paixões antigas.

Como de praxe nesta época do ano, estou naquela maratona pré-Oscar – com o condicionamento físico atual, é a única maratona que consigo completar. Assisti a quase todos os indicados. “Três Anúncios Para Um Crime” é meu favorito por enquanto – o que quase representa a vitória antecipada de “A Forma da Água”, outro candidatíssimo à estatueta. Sou uma espécie de Mick Jagger do tapete vermelho: perco todas.

Gostei muito também do “Me Chame Pelo Seu Nome”. Relata um romance gay com grande sensibilidade, atuações impecáveis, trilha sonora estonteante e alguns dos melhores diálogos recentes – aquele do menino com o pai é especialmente emocionante. Mas o mais legal do filme para mim é que se trata apenas de um romance. Não há forçação de barra, dramalhão, opressão social, sofrimento, preconceito. É apenas uma relação normal, bonita e construtiva.

Não há paixão ou amor melhor do que outra(o). Somente acontece, variando de intensidade, sintonia, gênero, número e grau. Algumas são avassaladoras, encontros de almas gêmeas; outras nem tanto. Cada um tem a sua. Ou as suas. Eu não julgo. As minhas – ou algumas delas – estão abaixo, reforçadas pelo espírito de diversidade do Carnaval e pelo comportamento recente dos mercados:

Nassim Taleb: sim, sempre ele, eu sei. Pode lhe soar repetitivo. Desculpe por isso, mas a semana passada foi mais uma vitória de Taleb sobre os demais. É um motivo de certa felicidade para a gente, porque representa, por conseguinte, também a vitória da filosofia e do instrumental que escolhemos seguir na Empiricus. Nós realmente pensamos com essa cabeça e, se você a corta, outras duas nascem em seu lugar, exatamente como a Hidra de Lerna, meu animal de estimação – aqui, claro, empregada no sentido da antifragilidade, sem qualquer conotação antissemita.

Em mais uma demonstração emblemática da metáfora do peru de Natal, aqueles que apostaram contra a volatilidade acumularam uma porção de pequenos ganhos diários e mensais nos últimos anos, para entregar tudo em um único dia. O Inverse Vix trouxe perdas de 90% num único pregão. A natureza humana gosta de lucros em doses homeopáticas, previsíveis, sem volatilidade e com sensação de controle. Nosso cérebro é estimulado por esse comportamento. Infelizmente, porém, tudo dá certo até que dá errado. E você entrega tudo de uma vez só, e mais um pouco. A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle, resumiu Nietzsche. Nesse sentido, precisamos aprender a nos desumanizar e subverter a ordem anterior. Devemos amar a volatilidade e caminhar na direção do Ubermansch – de novo, Nietzsche. Life is long gamma.

George Soros: o relatório de emprego nos EUA apontou uma pressão sobre os salários maior do que a esperada. Isso desencadeou o temor de que a economia norte-americana estivesse num estágio ainda mais avançado do ciclo, potencialmente forçando o Federal Reserve a subir seu juro básico em ritmo mais acelerado do que se supunha, o que seria ruim para ativos de risco.

A pressão vendedora sobre as bolsas aumentou a volatilidade dos mercados. A maior volatilidade emitiu sinais para os modelos de que o risco do sistema era maior, forçando uma alocação mais conservadora e nova pressão vendedora sobre os ativos de risco. Por sua vez, essa segunda rodada de vendas eleva ainda mais a volatilidade e o mecanismo se retroalimenta.

Destruímos por completo a noção de “valor intrínseco”, de que os ativos financeiros carregam um valor em si. Intrínseco é algo com significado por si só, sem interferência alheia; inapartável, indissociável, independente da relação com outras coisas. Os ativos não existem sozinhos. A realidade influencia a expectativa e vice-versa. Isso é Soros e sua teoria da reflexividade na veia.

Uma das grandes dificuldades dos economistas para entender a dinâmica dos mercados é que eles tentam usar o arcabouço marshalliano da estática comparativa (ver Imagem 1; você estabiliza todas as demais variáveis, e mexe somente com uma delas), que obviamente não vai funcionar diante de um processo dialético (Imagem 2).

 

Mercados emergentes: apesar do sell-off recente e de alguma realização de lucros, os mercados emergentes têm se comportado de forma surpreendentemente amena. Mesmo com as bolsas norte-americanas zerando os ganhos no ano, o Ibovespa ainda acumula valorização de cerca de 6% em 2018, o que é muita coisa para 45 dias e uma surra na renda fixa. Se temos um estágio do ciclo bem avançado nas economias desenvolvidas, notadamente nos EUA, e praticamente o esgotamento de sua capacidade produtiva, a situação é diferente na periferia.

O Brasil é um caso emblemático disso, com muita ociosidade ainda. O case em prol da outperformance de emergentes sobre desenvolvidos em 2018 está de pé, corroborado pela mais recente evidência. Não estou afirmando que se Wall Street passar por uma correção mais intensa nas próximas semanas não sofreremos por aqui. Cairemos, sim, no curto prazo, caso isso ocorra. Mas pode haver uma diferenciação muito interessante, principalmente no pós-pânico, com um movimento de rotação em direção às economias e aos mercados ainda num estágio inicial do ciclo.

Rogério Xavier: de todos que eu vi, o único gestor que falou o que ia acontecer, se posicionou para isso e ganhou muito dinheiro. Em apresentações e nas cartas da SPX está lá o call: posicionamento para abertura de juros global. Falou e dizeu, como costumava repetir o Jimmy Hendrix, não o verdadeiro, mas o sósia que jogava basquete no Ibirapuera na época em que eu acompanhava meu amigo Gustavinho, ansioso por estrear no Coringão. Rogério ganhou a eleição de Homem do Ano que começa hoje. Para ser justo, Ray Dalio também prescreveu receita semelhante ontem em seu LinkedIn, mas agora não tem mais tanta graça.

Phillips: não a marca, claro. Falo da Curva de Phillips, a relação clássica de curto prazo entre desemprego e inflação. Enquanto alguns projetavam o fim dessa simbiose por conta de fatores demográficos e dos adventos da tecnologia, o recém-divulgado relatório de emprego nos EUA mostra que dessa vez não é diferente. A inflação, cedo ou tarde, acaba vindo com o preenchimento dos fatores de produção. A Curva de Phillips não morreu, ela apenas mudou de inclinação. Em todas as vezes que achamos que havia algo diferente no ar, quebramos a cara. O ser humano e o curso das coisas ainda são o ser humano e o curso das coisas.

Dólar: a trajetória da taxa de câmbio nos últimos dias é mais uma demonstração de como você deve ter sempre, e também sempre, moeda forte em seu portfólio. Defendo algo como 5 a 10%, mesmo quando o cenário aparenta estar lindo e sem nuvens no horizonte. De repente, vem uma tempestade, quando a gente menos espera. E é exatamente neste momento, quando você mais vai estar precisando de dinheiro, que o dólar vai te pagar bem. Carnaval sem proteção é um perigo.

 
Mercados brasileiros voltam do feriado devendo um ajuste positivo ao comportamento das Bolsas durante o Carnaval. Foram dois dias de ganhos, com notável apreciação na segunda-feira. Hoje, porém, a cor vermelha volta a predominar, sob preocupação renovada com o futuro do juro nos EUA, catalisada pela inflação maior do que o esperado.

A quarta-feira traz uma agenda pesada, que pode voltar a trazer volatilidade. Maior destaque do dia é a inflação ao consumidor norte-americano, cuja importância está reforçada após o último Relatório de Emprego. O CPI apontou alta de 0,5%, contra expectativa de 0,3%. Vendas ao varejo, relatório de estoques de petróleo e também os estoques das empresas completam as referências nos EUA.

Na Europa, destaque para PIB da Zona do Euro e da Alemanha.

Por aqui, saem relatório Focus, balança comercial e fluxo cambial.