Não me peça nada hoje, vou ao banco

Daqui a algumas horas, vou passar por uma experiência arqueológica: preciso ir a uma agência bancária. Elas eram populares nos anos 90. São aquele lugar […]

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Não me peça nada hoje, vou ao banco

Daqui a algumas horas, vou passar por uma experiência arqueológica: preciso ir a uma agência bancária. Elas eram populares nos anos 90. São aquele lugar em que um sujeito chamado gerente convida seus clientes para tomar um cafezinho num sofá quase confortável.

A bebida é de graça, claro. Morre um PIC, o consórcio de uma moto (até eu já fiz, sendo que nunca tive carteira de moto! Não me julgue: com a Graziela oferecendo, o sujeito topa consórcio até da Apollo 13) ou um título de capitalização no meio do caminho – afinal, todo mundo é filho de Deus, né? Ou do diabo, sei lá… Como diria Mark Twain, prefiro o céu pelo clima e o inferno pela companhia. Será que não rola um mix?

Vou por um bom motivo. Fiz questão de ser o primeiro, sem exagero e com rigor, a contratar o que tenho chamado de “solução definitiva para a previdência”, a ser lançada para o público na segunda-feira. Eu poderia fazer pelo app do Itaú, claro, ou mesmo cadastrar débito automático em conta. A experiência foi construída para ser totalmente digital e fácil de usar.

Como, no entanto, a fase é de pré-lançamento, eu quis ser o primeiro a contratar e vou investir um valor razoavelmente significativo, preciso sentar no tal sofá quase confortável. Já vim devidamente equipado: fones de ouvido invisíveis, dois Engovs, Rivotril e uma revista Quatro Rodas – bicho, até a Quatro Rodas é mais interessante do que os convites ao mundo maravilhoso dos PICs, CDBs de banco médio, LCIs/LCAs e por aí vai. Estou quase apelando à tática Humberto Gessinger: “Eu que não fumo pedi um cigarro” – vai que dá um baratinho, corta o tédio do momento.

Fique tranquilo: na segunda-feira, você não precisará passar por isso. Pode gastar o Engov no domingo.

Por que eu fiz questão de ser o primeiro a investir nesse negócio?

“Não me diga o que fazer com meu portfólio de investimentos. Me fale o que você está fazendo com o seu.” É uma das máximas de Nassim Taleb em seu mais recente livro, “Skin in the Game”. Se eu tenho chamado isso de o grande projeto da minha vida, nada mais justo – e ético – do que eu mesmo estar dentro dele, desde o começo, com uma grana significativa.

Somente assim estaremos realmente alinhados, eu e você, sorrindo nas horas boas (que tenho certeza de que serão muitas) e sofrendo nas poucas horas ruins. A partir daí, se estabelece uma relação perfeitamente simétrica entre mim e você. O percentual que você ganha também é o percentual que eu ganho. Vale o mesmo nas perdas. Olho por olho, dente por dente, na implementação financeira do Código de Hamurabi.

Isso não é tão comum por aí. Os burocratas, os “ternos vazios”, as pessoas de borracha, os playboys metidos a descolados, os acadêmicos, os professores, todos esses não arcam com as consequências de suas decisões e sugestões.

Se um gerente indica um investimento e seu cliente perde dinheiro, o que acontece com o gerente? Nada. Absolutamente nada. Ele continua incólume ali, oferecendo novamente aos correntistas aquilo que o banco acha adequado no momento para geração de seu próprio resultado.

Se um jornalista escreve uma matéria detonando uma empresa sem conhecê-la a fundo (ah, eu sei muito bem o que é isso!), a empresa é detonada e o jornalista continua ali na Redação como se nada tivesse acontecido.

Se um analista do sell side tradicional erra uma recomendação, ele atualiza seu modelo mudando o custo do equity e ajustando o nível de estoques. Publica um novo relatório como se estivesse tudo bem, faz 50 calls no dia com o buy side e oferece algum corporate access qualquer, dando acesso a um CEO requisitado no momento. Pronto! Ele está novamente apto para liderar o próximo ranking do II.

Onde é que há gente neste mundo? Eu quero saber das pessoas de verdade, aquelas que acordam diariamente perseguindo uma ideia para mudar o mundo, mesmo que seja dentro do seu pequeno microcosmo, aquelas que realmente fizeram alguma coisa, que enfrentaram trade-offs, que erraram, erraram e erraram, arcaram com as consequências de seus próprios erros, assumiram aquilo e continuaram tentando.

Pode lhe parecer um pouco louco, mas eu vivo e escrevo mesmo para os loucos. “Porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaaah!’”

Existe algum lugar no mercado financeiro em que há um maior alinhamento em prol do investidor? Sim. Nos hedge funds. E não pelo motivo típico tradicionalmente apontado pelo consenso, de que “a taxa de performance faz com que o investidor ganhe quando o gestor vai bem e, portanto, blinda o conflito de interesse típico do problema de agente-principal”. Discordo dessa narrativa. Não há simetria aqui, embora a capa superficial possa sugerir o contrário.

A taxa de performance mais desalinha os interesses entre gestor e investidor do que o contrário. O grosso da remuneração do gestor vem justamente da performance, não da taxa de administração. Assim, ele tem um incentivo perverso a perseguir obstinadamente performances muito altas. Ou seja, ele é empurrado para o risco. O gestor tem um lucro brutal se gera lucros ao investidor, via taxa de performance. Mas não tem um prejuízo brutal se gera prejuízos ao investidor. Não existe devolver para o investidor um dinheiro perdido. Perdemos a simetria.

O alinhamento se dá, para mim, quando boa parte do dinheiro do gestor está investido no próprio hedge fund. Aí não tem conversa. O sujeito sofre e ri junto mesmo. A simetria existe e funciona.

Talvez os dois leitores mais assíduos desta newsletter questionem: “Ah, mas nem sempre é assim nas publicações da Empiricus. Você não investe em todos os ativos que indica”.

É verdade. Aliás, nem posso fazer isso. Insider, front runner e outros adjetivos de baixo calão viriam na sequência. Mas há uma forma de contornarmos isso. E proponho o trato hoje: assine uma de nossas publicações. Pode ser uma bem baratinha – que tal conhecer a novidade Double Income, para dobrar sua renda mensal?Acompanhe por um tempo e veja se aquilo te fez ganhar mais dinheiro do que você ganharia se não a tivesse assinado. Se sim, continue conosco. Se não, nos puna cancelando a assinatura e não assinando mais nada. Assim, estamos alinhados. Hamurabi vale para a vida e para os investimentos. Ah, você já sabe: é tudo a mesma coisa.

Mercados iniciam a quinta-feira em clima negativo, embora variações sejam comedidas. Pesa uma maior aversão ao risco no exterior, com EUA adotando linguagem mais dura contra práticas comerciais chinesas, além de uma digestão pouco agradável da ata do Fomc divulgada na tarde de ontem, com comentários considerados um pouco mais duros. Existe uma pressão no ar por realização de lucros, depois do bom histórico recente dos ativos brasileiros.

Agenda norte-americana destaca dados do mercado de trabalho, com números de auxílio-desemprego e falas de dirigentes do Fed. Temporada de resultados corporativos também continua na pauta.

Ibovespa Futuro cai 0,4 por cento, dólar está perto da estabilidade contra o real e juros futuros sobem.