(Imagem: iStock.com/ismagilov)
A semana foi ruidosa: juros longos em alta, receio de novos ataques no Oriente Médio e dúvidas sobre os riscos da inteligência artificial para a segurança das criptomoedas. O Bitcoin corrigiu, mas já ensaia uma recuperação na sexta-feira. Até aqui, a leitura é de mais ruído do que sinal de uma mudança de tendência.
Em um mundo marcado por conflitos geopolíticos, relações de confiança cada vez mais frágeis e governos progressivamente mais endividados, a preocupação com a preservação do poder de compra ganha relevância.
É nesse cenário que a combinação entre ouro e Bitcoin chama atenção: dois ativos escassos, com características distintas, mas que compartilham uma propriedade importante — sua oferta não está sujeita às decisões de emissão monetária dos governos. Essa é a lógica por trás da Carteira Reserva de Valor Ouro e Bitcoin, do BTG Pactual.
Vamos passar rapidamente pelo cenário, entender o papel desses ativos na diversificação patrimonial e colocar em perspectiva o receio com a IA e os próximos passos do Bitcoin.
Juros, inflação e a proteção do patrimônio
Os juros de longo prazo subiram e voltaram a pressionar os ativos de risco. Essas taxas mostram quanto os investidores exigem para emprestar dinheiro por muitos anos. Além da inflação, pesam as dúvidas sobre o crescimento das dívidas públicas e a capacidade dos governos de organizar suas contas.
O Oriente Médio acrescentou incerteza. Depois das notícias sobre possíveis ataques americanos ao Irã antes das eleições legislativas de novembro, Trump afirmou que não haverá ataques nesse intervalo. A declaração trouxe alívio, mas o conflito continua sendo um risco para a oferta de petróleo. Energia mais cara pressiona a inflação e dificulta a queda dos juros.
Para o Bitcoin, o efeito imediato é um ambiente mais exigente: crédito caro e títulos públicos mais remuneradores aumentam a disputa pelo dinheiro dos investidores. Ao mesmo tempo, a fragmentação do comércio, a perda de confiança entre países e as dúvidas fiscais reforçam uma preocupação de longo prazo: como preservar o poder de compra do patrimônio?
A inflação pode fazer seu dinheiro comprar cada vez menos, mesmo que o saldo da conta não diminua. É por isso que, nesse cenário, faz sentido considerar ativos cuja oferta não dependa das decisões de um governo. O ouro tem uma escassez natural; o Bitcoin tem uma emissão definida por regras, com limite de 21 milhões de unidades.
Embora tenham comportamentos diferentes, os dois ativos podem cumprir papéis complementares na diversificação do patrimônio. Essa combinação está presente na Carteira Reserva de Valor Ouro e Bitcoin, do BTG Pactual, que ajusta trimestralmente a exposição entre os ativos, atribuindo menor peso ao mais volátil.
Os resultados históricos simulados ajudam a ilustrar essa complementaridade. No backtest dos últimos anos, a estratégia teria apresentado retorno superior ao do ouro, com menor volatilidade e quedas máximas (drawdowns) menos acentuadas que as do Bitcoin isoladamente. Em outras palavras, a combinação teria permitido capturar parte do potencial de valorização do Bitcoin, reduzindo a intensidade das oscilações.
Mais do que responder aos movimentos de uma semana, a estratégia procura endereçar uma preocupação de longo prazo: preservar o poder de compra do patrimônio em um ambiente de crescente incerteza.
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O receio com a IA exige perspectiva
A inteligência artificial também provocou apreensão nesta semana, especialmente após alertas de nomes influentes do setor, como Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum, e Justin Drake, pesquisador da Ethereum Foundation. A preocupação é que avanços matemáticos acelerados pela IA possam enfraquecer a criptografia que protege as criptomoedas, colocando em risco a segurança das carteiras.
Drake chegou a defender que o setor comece a se preparar para um possível cenário de emergência, enquanto Vitalik reforçou a necessidade de desenvolver proteções mais resistentes, mas pediu cautela aos investidores. Afinal, não há evidências de que esses mecanismos tenham sido quebrados, e mudanças precipitadas também podem trazer riscos.
A repercussão alimentou o FUD (medo, incerteza e dúvida), acrescentando mais uma fonte de preocupação em uma semana já pressionada pelo cenário macroeconômico. O Bitcoin acabou registrando novas quedas e um desempenho inferior ao das bolsas americanas, evidenciando sua maior fragilidade no curto prazo.
Ainda assim, é importante colocar esse risco em perspectiva. A adaptação da segurança faz parte da evolução tecnológica, e o próprio Bitcoin já passou por atualizações para aprimorar seus mecanismos de proteção. Além disso, essa ameaça não se limita às criptomoedas: bancos, sistemas financeiros e boa parte da infraestrutura digital também dependem de criptografia e enfrentam desafios semelhantes.
A busca por soluções já está em andamento e, com a crescente institucionalização do mercado cripto e a entrada de grandes investidores, aumentam também os incentivos econômicos para desenvolver novas proteções. Isso não elimina os riscos, mas reforça que estamos diante de um desafio de adaptação, e não necessariamente de uma ameaça aos fundamentos de longo prazo do Bitcoin.
A correção ainda não virou sinal de baixa
Depois de uma semana cheia de eventos de cauda o segmento de ativos digitais passou por uma limpeza de alavancagem: investidores que operavam com exposição ampliada foram obrigados a encerrar posições, acelerando a queda. Isso reduz parte dos excessos, embora não garanta que a correção tenha terminado.
Também houve saída de dinheiro dos ETFs, os fundos de Bitcoin negociados em bolsa. Só na quarta e na quinta-feira, os resgates líquidos somaram US$ 729 milhões. Esse fluxo merece atenção porque a recuperação precisa de compradores para se sustentar.
Nesta sexta-feira, o Bitcoin voltou para perto de US$ 82,5 mil, acompanhando o alívio nas tensões geopolíticas. Nossa referência agora é a manutenção da região dos US$ 80 mil, enquanto os US$ 83 mil passam a atuar como a resistência mais próxima, uma faixa em que o preço pode encontrar maior pressão de venda.
Nossos indicadores proprietários, que acompanham a direção e a força do movimento, ainda apontam para alta do Bitcoin, apesar do enfraquecimento recente. Por isso, até aqui, interpretamos a correção mais aguda como mais ruído do que sinal de uma mudança de tendência.
Se os indicadores passarem a apontar uma leitura negativa, voltaremos a avisar. Enquanto isso, acompanhamos os níveis de preço e os fluxos, com disciplina para ajustar a exposição quando os sinais mudarem e diversificação para cuidar do patrimônio no longo prazo.