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Investimentos

Ibovespa hoje: ‘paz armada’? Como o cessar-fogo mais barulhento do mundo impacta o mercado nesta terça-feira

Confira os destaques do mercado nesta terça-feira diante dos avanços no conflito do Oriente Médio entre EUA e Irã.

Por Matheus Spiess

26 maio 2026, 09:55

Atualizado em 26 maio 2026, 09:55

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Imagem: iStock.com/Saulo Angelo

Os mercados globais seguem alternando entre momentos de esperança e cautela diante das negociações entre Estados Unidos e Irã, que continuam no centro das atenções dos investidores. Apesar de Donald Trump afirmar que as conversas para um acordo envolvendo a extensão do cessar-fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz estariam “progredindo bem”, novos ataques americanos contra alvos iranianos voltaram a elevar a tensão no Oriente Médio e reacenderam a volatilidade no petróleo.

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O Brent recuperou parte das perdas recentes e voltou a se aproximar de US$ 100 por barril, enquanto o dólar ganhou força frente às principais moedas globais. Ainda assim, os mercados continuam relativamente resilientes, sustentados pela percepção de que os ataques americanos teriam caráter predominantemente defensivo e não representariam, ao menos por enquanto, uma ruptura definitiva das negociações diplomáticas. O cessar-fogo permanece em vigor, e autoridades americanas seguem sinalizando que as conversas podem avançar ao longo dos próximos dias, embora temas centrais, como o programa nuclear iraniano, o futuro do Hezbollah e a reabertura completa de Ormuz, continuem cercados de elevada incerteza.

· 00:53 — Ibovespa respira, mas o Brasil continua no radar de risco

No Brasil, a semana começou em tom mais positivo, com o Ibovespa avançando quase 1% e voltando a se aproximar dos 178 mil pontos, impulsionado principalmente pela melhora do humor internacional diante da percepção de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã para uma possível distensão no Oriente Médio. O movimento também contribuiu para o enfraquecimento global do dólar, cenário que costuma favorecer ativos de risco e mercados emergentes. Ainda assim, o ambiente local continua convivendo com desafios importantes. O fluxo de investidores estrangeiros para a bolsa brasileira, que havia sido um dos principais pilares de sustentação do mercado entre 2025 e o primeiro bimestre de 2026, permanece bastante negativo desde meados de abril, justamente após o Ibovespa ter flertado com os 200 mil pontos. Vale destacar, porém, que esse movimento não é exclusivo do Brasil. O mercado acionário emergente como um todo vem enfrentando saída de recursos em um ambiente global marcado por juros elevados, incertezas geopolíticas e maior seletividade por parte dos investidores internacionais. Mesmo assim, uma eventual normalização do conflito no Oriente Médio pode reabrir espaço para uma retomada, ainda que moderada, da tese mais construtiva observada no começo do ano, embora o legado inflacionário da crise deva continuar influenciando os mercados.

No cenário doméstico, a atenção dos investidores se volta agora para uma agenda econômica particularmente relevante entre quarta e sexta-feira, com destaque para os dados de inflação, mercado de trabalho e PIB do primeiro trimestre, indicadores que podem influenciar diretamente as expectativas para juros e atividade econômica no Brasil. Antes disso, o mercado acompanha hoje os números do setor externo. Em Brasília, também avança a discussão sobre o fim da escala 6×1, proposta que prevê a redução da jornada semanal para 40 horas sem corte salarial, com um período de transição de 14 meses. A pauta deve continuar gerando debate no Congresso ao longo dos próximos dias, especialmente diante das preocupações envolvendo custos trabalhistas, produtividade e impactos sobre pequenas empresas. O tema ganhou forte dimensão eleitoral, deixando em segundo plano a discussão mais estrutural sobre produtividade da economia brasileira. Paralelamente, o ambiente político segue no radar. Novas pesquisas eleitorais devem começar a ser divulgadas a partir de amanhã e podem oferecer uma leitura mais clara sobre os impactos recentes envolvendo o principal nome da oposição. O mercado acompanha atentamente se haverá recuperação de competitividade da atual pré-candidatura, manutenção do quadro atual mesmo diante do desgaste recente ou eventual fortalecimento de alternativas dentro do campo oposicionista ao longo das próximas semanas.

· 01:47 — Pressão econômica

Wall Street retorna do feriado de Memorial Day em um ambiente ainda influenciado pelas expectativas de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Apesar do tom mais positivo observado recentemente nas bolsas, os indicadores econômicos seguem mostrando sinais crescentes de pressão sobre o consumidor americano, especialmente diante da disparada dos preços da energia. Na semana passada, por exemplo, o índice de confiança econômica da Gallup caiu para -45 em maio, a pior leitura desde outubro de 2022, refletindo o impacto do aumento do custo de vida sobre o orçamento das famílias.

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O preço médio da gasolina nos Estados Unidos já alcança US$ 4,51 por galão, ante US$ 3,19 no mesmo período do ano passado (em alguns estados, já passa de US$ 5,00). Ao mesmo tempo, empresas começam a demonstrar maior cautela nas contratações, com projeções indicando que o emprego de adolescentes durante o verão americano pode atingir o menor nível desde 1948. Nesse contexto, o principal destaque da agenda econômica da semana será a divulgação do índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE) de abril, principal indicador de inflação monitorado pelo Federal Reserve. A expectativa é de alta anual de 3,8%, enquanto o núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, deve avançar 3,3%, reforçando a percepção de que a inflação americana segue bastante resiliente.

· 02:34 — Avançando lentamente… Muito lentamente…

Os mercados seguem alternando entre momentos de esperança e cautela diante das negociações entre Estados Unidos e Irã, atualmente o principal foco de atenção dos investidores globais. Como comentei ontem, as expectativas de um acordo ganharam força ao longo do fim de semana, mas voltaram a sofrer abalos após uma nova escalada militar na segunda-feira, incluindo ataques americanos contra embarcações iranianas e novos lançamentos de mísseis por Teerã. Embora o petróleo tenha voltado a subir, os preços ainda permanecem abaixo dos picos registrados na semana passada, refletindo a percepção predominante de que algum tipo de entendimento diplomático ainda pode ser alcançado.

Ainda assim, o principal risco econômico da crise continua sendo a inflação. Mesmo em um cenário de cessar-fogo temporário, os impactos sobre o mercado de energia tendem a persistir, já que o Irã pretende reabrir completamente o Estreito de Ormuz apenas cerca de 30 dias após um eventual acordo, enquanto executivos do setor alertam que a produção global de petróleo pode levar meses para retornar à normalidade (pelo menos dois meses). Com isso, o déficit de oferta continua pressionando os preços da energia e alimentando preocupações com uma inflação mais persistente, justamente às vésperas da divulgação do núcleo do PCE, principal indicador inflacionário monitorado pelo Federal Reserve.

Ao mesmo tempo, a crise vem evidenciando uma transformação geopolítica relevante: embora o foco imediato permaneça em Washington e Teerã, o caminho para uma solução parece passar cada vez mais por Pequim. O presidente chinês Xi Jinping agradeceu publicamente ao chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, pelos esforços de mediação entre Estados Unidos e Irã, reforçando o papel crescente da China nos bastidores das negociações. Pequim possui forte interesse econômico em evitar um conflito prolongado, já que petróleo mais caro e desaceleração global afetam diretamente suas exportações, seus custos industriais e a estabilidade da própria economia chinesa. Além disso, começam a surgir especulações de que a China poderia até assumir algum papel operacional em um eventual acordo nuclear, inclusive recebendo parte do urânio enriquecido iraniano, hipótese que segue cercada de controvérsia diplomática. O episódio reforça a percepção de que a ordem global caminha gradualmente para uma dinâmica mais multipolar, na qual crises internacionais relevantes passam a depender não apenas da atuação dos Estados Unidos, mas também da influência estratégica de potências como China e de atores regionais cada vez mais relevantes, como o próprio Paquistão.

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· 03:21 — Um novo jeito de olhar a inflação

O Banco do Japão começou a adaptar sua leitura da inflação a um novo ambiente econômico marcado pelo encarecimento estrutural da energia importada e pelos impactos geopolíticos globais sobre os preços. Para isso, a autoridade monetária passou a utilizar um novo indicador de inflação que, além de excluir a tradicional volatilidade dos alimentos frescos, também remove os chamados “fatores institucionais”, principalmente os subsídios à gasolina e os descontos em contas de energia oferecidos pelo governo japonês para aliviar o custo de vida das famílias. Na prática, o Banco do Japão entende que os indicadores tradicionais passaram a subestimar a pressão inflacionária real da economia, já que esses programas reduzem artificialmente a inflação oficial por um período temporário. Enquanto o núcleo tradicional da inflação segue abaixo da meta de 2%, a nova métrica aponta inflação subjacente próxima de 2,5%, reforçando a percepção de que o Japão talvez já esteja convivendo com uma dinâmica inflacionária mais persistente do que parecia.

O movimento também ajuda a preparar o mercado para a possibilidade de uma nova alta de juros já na reunião de junho, algo historicamente bastante relevante para uma economia que passou décadas convivendo com inflação muito baixa, crescimento fraco e juros próximos de zero. Mais do que uma simples mudança metodológica, a iniciativa sinaliza que o Banco do Japão começa a reconhecer que o ambiente global mudou estruturalmente, especialmente após os choques de energia, a fragmentação geopolítica e a reorganização das cadeias globais de produção. O mundo pós-pandêmico é bem caótico… Caso o processo continue avançando, o Japão pode deixar gradualmente para trás uma era de política monetária extremamente expansionista, com impactos relevantes não apenas para o iene e os títulos japoneses, mas também para fluxos globais de capital e para os mercados internacionais de juros.

· 04:18 — O futuro cubano

O bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos a Cuba aprofundou de maneira significativa a crise econômica enfrentada pela ilha, provocando apagões quase diários e agravando a escassez de alimentos e combustíveis para uma população de mais de 10 milhões de habitantes. Mesmo diante da pressão crescente, o regime cubano vem endurecendo o discurso contra Washington, enquanto Donald Trump e Marco Rubio passaram a elevar o tom sobre possíveis medidas mais duras contra Havana. Ainda assim, diferentemente do que ocorreu na Venezuela, Cuba não possui atualmente uma oposição ou lideranças claramente estruturadas para conduzir uma eventual transição de poder em caso de enfraquecimento mais severo do regime.

Por conta disso, apesar da intensificação das tensões diplomáticas e econômicas, considero improvável uma intervenção militar americana direta. O cenário mais provável continua sendo o aprofundamento gradual das sanções, das restrições ao fluxo de petróleo e da pressão diplomática, em uma tentativa de forçar algum nível de abertura econômica negociada por parte do governo cubano. Nesse contexto, o ambiente atual parece apontar muito mais para uma estratégia prolongada de desgaste econômico e político do regime do que para uma mudança abrupta de governo, especialmente em um momento no qual Rússia e China já não exercem sobre a ilha o mesmo peso estratégico observado durante a Guerra Fria.

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· 05:05 — Migrando finalmente

A Axia deu um passo relevante nesta semana ao receber aprovação da B3 para migrar para o Novo Mercado, segmento que reúne companhias com os mais elevados padrões de governança corporativa da Bolsa brasileira. Na prática, a mudança implica regras mais rigorosas de transparência, maior proteção aos acionistas minoritários e um alinhamento mais claro entre gestão e investidores. Esse tipo de movimento costuma ser bem recebido pelo mercado porque ajuda a reduzir parte do chamado “desconto de governança”, frequentemente observado em empresas listadas fora dos segmentos mais elevados da Bolsa. Além disso, a migração amplia o universo potencial de investidores na companhia, já que diversos fundos institucionais e estrangeiros possuem restrições para investir em empresas que não integrem o Novo Mercado. A conversão das ações preferenciais AXIA6 em ações ordinárias AXIA3 ocorrerá automaticamente na proporção de 1 AXIA6/5 para 1,1 AXIA3 no dia 8 de junho, sendo o dia 5 de junho o último pregão de negociação das ações preferenciais. Ou seja, o investidor não precisará vender seus papéis nem realizar qualquer procedimento operacional para participar da migração.

Mais do que uma mudança técnica, o processo tende a melhorar estruturalmente a qualidade do ativo ao longo do tempo. A expectativa é de aumento gradual da liquidez das ações, maior participação de investidores institucionais e alinhamento mais eficiente entre os acionistas em temas relevantes, como política de dividendos, alocação de capital e estratégia de crescimento. Em muitos casos, movimentos semelhantes acabam funcionando como gatilhos de reprecificação justamente porque ampliam a visibilidade da companhia e reduzem parte das barreiras para entrada de capital. Sigo enxergando a tese da Axia de maneira construtiva dentro do mercado brasileiro, especialmente em um ambiente no qual empresas capazes de combinar melhora consistente de governança, liquidez e disciplina financeira tendem a ganhar relevância crescente entre investidores locais e estrangeiros.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.