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Investimentos

Ibovespa hoje: Prêmio de risco volta ao radar no Brasil, enquanto olhos se voltam para o payroll dos EUA nesta quinta-feira (2)

Com o emprego americano no centro das atenções, o mercado também monitora riscos políticos no Brasil e uma nova etapa da disputa global por infraestrutura de IA

Por Matheus Spiess

02 jul 2026, 11:18

Atualizado em 02 jul 2026, 11:18

ibovespa ações mercado

Imagem: iStock/ @ASMR

Os mercados globais operam em tom cauteloso, com investidores à espera do payroll de junho nos Estados Unidos, dado que ganhou ainda mais relevância diante da ausência de uma orientação mais clara de Kevin Warsh sobre os próximos passos da política monetária. Em sua primeira participação pública como presidente do Fed, Warsh afirmou que os riscos inflacionários e as expectativas de inflação recuaram recentemente, mas reforçou que o Comitê segue comprometido com a estabilidade de preços e não será complacente com uma inflação acima de 2%.

Na Europa, o Banco Central Europeu mostra divisão interna sobre a trajetória dos juros. Parte dos dirigentes, como Philip Lane, ainda vê pressões inflacionárias decorrentes da guerra no Oriente Médio, enquanto outros se mostram mais confortáveis com a queda recente do petróleo e com a ausência de choques de segunda ordem mais evidentes.

No restante do cenário global, três temas concentram as atenções. Primeiro, as negociações indiretas entre Estados Unidos e Irã avançaram em Doha, ajudando a pressionar o petróleo, enquanto o fluxo pelo Estreito de Ormuz aumentou com apoio militar americano. Segundo, a correção em ações ligadas à inteligência artificial, especialmente semicondutores, ganhou força na Ásia. Terceiro, os Estados Unidos decidiram não prorrogar o USMCA, mantendo o acordo com Canadá e México em vigor, como discutido ontem, mas agora sujeito a revisões anuais. Esse arranjo aumenta a incerteza para as cadeias produtivas norte-americanas, especialmente nos setores automotivo, agrícola, varejista e de energia. Mais um ruído para monitorarmos…

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· 00:57 — Política volta a pesar e reacende prêmio de risco no Brasil

No Brasil, o mercado doméstico abriu julho em tom defensivo, pressionado pela combinação entre cautela global antes do payroll americano e aumento das incertezas políticas no Brasil. A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada ontem, ao mostrar Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, reforçou entre investidores a percepção de continuidade de uma política fiscal menos austera a partir de 2027, interrompendo a queda dos juros futuros.

O ambiente piorou com as sanções do Tesouro americano contra cidadãos e empresas brasileiras por supostos vínculos com organizações criminosas classificadas como terroristas, além de rumores de novas denúncias envolvendo a principal candidatura da oposição, ampliando a aversão ao risco e pressionando principalmente os vencimentos intermediários e longos do DI.

No campo econômico, os dados de crédito de maio reforçaram sinais de arrefecimento da atividade, apesar do aumento das concessões, concentrado em crédito direcionado. Também pesaram no radar a decisão da União Europeia de impor novas restrições e tarifas sobre produtos siderúrgicos brasileiros, criticada pelo governo, e a nova norma do Banco Central que equipara plataformas de criptoativos e prestadoras de serviços de ativos virtuais às exigências de capital, governança e supervisão aplicadas a corretoras e distribuidoras, com vigência a partir de 2027. Em paralelo, o governo indicou que deve reverter na próxima semana a subvenção usada para conter os preços da gasolina, diante da estabilização dos combustíveis.

· 01:43 — A fala em Sintra

As bolsas americanas tiveram um pregão misto, com os principais índices pressionados pela realização em semicondutores, enquanto as ações de software mostraram recuperação. O Nasdaq caiu 0,7%, o S&P 500 recuou 0,2% e o Dow ficou praticamente estável. A queda foi puxada por grandes nomes do setor de chips, com o ETF iShares Semiconductor recuando 6,4%, após uma reportagem indicar que a Meta poderia vender capacidade computacional excedente. A notícia reacendeu preocupações sobre um possível excesso de oferta em infraestrutura de IA.

Ainda assim, a leitura predominante foi de uma correção pontual, sem sinais de venda em pânico ou de redução generalizada de risco. Na direção oposta, as ações de software avançaram após uma nota otimista de uma casa americana, com o ETF do setor subindo 2%, em meio a uma recomposição parcial depois de meses de pressão pela tese de que a IA poderia prejudicar os modelos tradicionais de software corporativo.

No campo macroeconômico, Kevin Warsh adotou no Fórum do BCE em Sintra um tom inicialmente interpretado como mais dovish ao afirmar que os riscos inflacionários e as expectativas de inflação diminuíram nas últimas semanas. Ainda assim, reforçou repetidamente o compromisso do Fed com a estabilidade de preços e deixou claro que não haverá complacência com uma inflação acima de 2%.

A mensagem sugere que, apesar de alguma melhora recente nas condições financeiras, o Fed ainda mantém uma postura cautelosa, especialmente se o Core PCE seguir rodando perto de 0,30% ao mês. A atenção agora se volta para o payroll de junho, com consenso próximo de 113 mil a 115 mil vagas, após 172 mil em maio, e taxa de desemprego esperada em 4,3%, embora exista risco de alta para 4,4%. Um dado em linha confirmaria uma desaceleração moderada do mercado de trabalho, mas ainda sem ruptura, mantendo o debate sobre juros dependente da combinação entre emprego, salários e inflação.

· 02:34 — Ainda barulhento, mas possivelmente menos problemático

Nesta semana, Ian Bremmer, fundador da Eurasia Group e uma das principais vozes globais em geopolítica, argumenta que o período de maior capacidade disruptiva de Donald Trump no cenário internacional provavelmente ficou para trás. Desde o início de seu segundo mandato, os Estados Unidos teriam se tornado o principal fator de risco político global, não por perda de poder, mas porque Washington passou a desafiar as regras da própria ordem internacional que ajudou a construir.

Ainda assim, dois episódios recentes teriam exposto os limites dessa estratégia: a escalada tarifária contra a China e a guerra contra o Irã. Em ambos os casos, Trump teria partido da premissa de que adversários mais frágeis capitulariam, mas acabou enfrentando retaliações capazes de impor custos econômicos, políticos e financeiros aos EUA.

No caso chinês, Pequim respondeu usando seu controle sobre terras raras e minerais críticos, forçando Washington a recuar diante do risco de uma ruptura econômica mais ampla. No caso iraniano, Teerã reagiu aos ataques americanos e israelenses com retaliações contra bases dos EUA, infraestrutura energética no Golfo e a instrumentalização do Estreito de Ormuz, elevando o risco de choque nos mercados de energia e pressionando a posição doméstica de Trump.

A ideia central é que, embora Trump ainda tenha disposição para gerar instabilidade, sua capacidade prática de sustentar escaladas de alto impacto foi limitada pela reação dos adversários, pelos custos econômicos internos e pelo receio de produzir uma recessão global atribuída às próprias escolhas americanas, o que seria uma noção desastrosa.

A partir daqui, a leitura é que Trump continuará poderoso, ruidoso e politicamente agressivo, mas com menor capacidade de provocar danos globais duradouros. Seu capital político e sua credibilidade teriam sido corroídos, abrindo espaço para maior resistência de aliados externos, líderes estrangeiros e até membros do Partido Republicano.

Com tribunais, Congresso e calendário eleitoral impondo restrições crescentes, sua busca por vitórias externas tende a se deslocar para alvos menores e de menor impacto sistêmico, especialmente no Hemisfério Ocidental, onde países como Venezuela, México e Cuba seriam mais vulneráveis à pressão americana. A conclusão é que Trump ainda não terminou de causar problemas neste mandato, mas o auge de sua capacidade de desorganizar a ordem global já teria passado.

· 03:28 — Mensurando o impacto

Como ressaltei já algumas vezes neste espaço recentemente, o El Niño voltou a se formar no Oceano Pacífico e pode se tornar um dos episódios mais intensos já registrados, com impactos potencialmente relevantes sobre a economia, a agricultura e a segurança alimentar global. O fenômeno ocorre quando as temperaturas da superfície do mar ficam pelo menos 0,5°C acima da média por vários meses. Em episódios extremos, como os de 1982, 1997 e 2015, esse desvio chegou a 2°C ou mais, provocando quebras de safra, perdas na pecuária, migrações e custos humanitários elevados.

Desta vez, algumas previsões apontam para uma elevação sem precedentes, de até 3°C, aumentando o risco de secas no Sahel, em partes da África Meridional, no Sul e Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central, além de chuvas intensas em regiões como o Chifre da África e a América do Norte.

Embora previsões climáticas não sejam definitivas e o mundo esteja mais preparado do que em ciclos anteriores, com monitoramento meteorológico mais avançado e reservas estratégicas de grãos, o momento é particularmente sensível. Mais de 80% dos impactos agrícolas esperados devem recair sobre países de baixa e média renda, muitos deles já pressionados por insegurança alimentar, conflitos e menor capacidade de resposta.

Na Índia, por exemplo, o El Niño pode enfraquecer as monções e afetar culturas essenciais, como arroz e milho, em um setor que emprega 45% da força de trabalho do país. Além disso, a combinação entre mudanças climáticas, fertilizantes mais caros em razão das perturbações no Estreito de Ormuz e cortes na ajuda externa reduz a margem de segurança global. O mundo já enfrentou episódios severos de El Niño, mas desta vez pode haver menos espaço para absorver novos choques.

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· 04:12 — Novidades na frente de IA

A OpenAI iniciou conversas preliminares sobre a possibilidade de conceder ao governo dos Estados Unidos uma participação de 5% na empresa, como parte de uma proposta mais ampla em que Washington passaria a deter fatias semelhantes nas principais companhias americanas de inteligência artificial.

A ideia teria sido apresentada por Sam Altman e poderia envolver também empresas como Anthropic, Google e Meta, embora ainda não esteja claro se essas companhias aceitariam participar do arranjo. A proposta reforça a aproximação entre o governo americano e as empresas de IA, em um setor cada vez mais tratado como infraestrutura crítica.

Ao mesmo tempo, o entusiasmo com as ações ligadas à inteligência artificial, especialmente as fabricantes de chips, começa a dar sinais de desgaste após os fortes ganhos registrados no primeiro semestre. Samsung, SK Hynix, Kioxia, Micron e Sandisk acumulam quedas relevantes em relação às máximas recentes, enquanto índices de tecnologia na Ásia também passaram por realização. Parte da preocupação está ligada ao risco de excesso de capacidade em IA, reforçado por iniciativas como o plano da Meta de vender poder computacional excedente (comento a seguir).

Mais do que uma ruptura da tese estrutural, porém, o movimento parece refletir uma combinação de expectativas muito elevadas, valuations mais pressionados e realização de lucros após a alta recente. A dúvida é se os investidores voltarão a comprar esses nomes com o mesmo entusiasmo ou se a volatilidade recente reduzirá o apetite pelo setor.

· 05:09 — E se a próxima fronteira da IA estiver na nuvem?

A Meta parece estar avançando para uma nova etapa de sua estratégia em inteligência artificial: transformar parte dos pesados investimentos em infraestrutura em uma fonte adicional de receita. A companhia estuda vender a terceiros o acesso a modelos de IA e capacidade computacional, criando uma frente de negócios semelhante às ofertas de nuvem da AWS, Microsoft Azure e Google Cloud, além das chamadas neoclouds, como CoreWeave e Nebius.

A lógica é simples: depois de comprometer centenas de bilhões de dólares em data centers, chips e infraestrutura para sustentar suas próprias ambições em IA, a Meta pode monetizar o excedente de capacidade, reforçando o fluxo de caixa e reduzindo a pressão sobre o retorno desses investimentos.

A leitura é construtiva porque a companhia pode deixar de ser apenas uma grande consumidora de infraestrutura de IA para se tornar também uma provedora desse recurso. Em um ciclo em que os maiores vencedores têm sido justamente os donos da infraestrutura, como provedores de nuvem e fabricantes de chips, a entrada da Meta nesse mercado abriria uma nova avenida de crescimento e ajudaria a justificar o capex elevado.

Ainda há incertezas relevantes, já que a estratégia pode mudar e a empresa ainda não separa claramente as receitas de IA em seus resultados, mas a existência de capacidade computacional disponível, combinada à demanda crescente de outras empresas por poder de processamento, cria uma oportunidade importante.

Para as ações da Meta, negociadas na Nasdaq sob o ticker META, e para o BDR M1TA34 no Brasil, a notícia reforça uma tese mais positiva. O mercado vinha questionando se os investimentos agressivos em IA teriam retorno suficiente; a possibilidade de criar um negócio de nuvem ajuda a responder parte dessa dúvida, ao transformar infraestrutura em receita recorrente e potencialmente escalável.

Para o investidor brasileiro, M1TA34 segue sendo uma forma de acessar uma das principais plataformas globais de tecnologia, agora com exposição adicional ao ciclo de infraestrutura de inteligência artificial. Naturalmente, o desempenho do BDR também dependerá do câmbio e do apetite global por ações de tecnologia, mas a direção estratégica parece fortalecer a percepção de que a Meta tem caminhos relevantes para capturar valor.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.