Investir é o menos romântico dos atos

Está aí o grande engano dos investidores românticos: confiar que sua paixão por determinado ativo é de mão dupla. Duas coisas acontecem com o investidor que se aproxima demais.

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Investir é o menos romântico dos atos

Tínhamos não mais do que 13 anos.

Furtivamente, passava de carteira em carteira um papelzinho amassado com o ranking de meninos e meninas mais bonitas da sala.

Eu definitivamente não liderava o ranking, e discordava da menina eleita a mais bonita.

Para mim, era a quarta colocada quem merecia o primeiro lugar.

Então, por acaso, essa quarta virou para mim no corredor e falou: “Que bosta de ranking, não concordo com o resultado”. Ela era meio boca suja, mas tinha olhos verdes.

Respondi instintivamente: “Qualquer ranking em que você não esteja em primeiro lugar é uma bosta mesmo”.

Aquilo era o ápice romântico de dois alunos da 7ª série.

Não havia charme, não havia qualquer elegância.

Mas havia reciprocidade.

Investidores mais carentes falam por aí de flertar com um canal de alta ou casar com uma ação de dividendos por longos anos, potencializando o “cash on yield”.

Você pode ser apaixonado pela Faca 27, fazer juras de amor a CGAS5, mas a verdade, meu caro, é que ambas não estão nem aí para você.

Se elas distribuem rendimentos carinhosos, é por mera obrigação contratual.

Está aí o grande engano dos investidores românticos: confiar que sua paixão por determinado ativo é de mão dupla.

Neste mercadão sem porteira, ninguém é de ninguém.

Veja, você tem Petrobras e depois de um tempo compra Vale, surfando o atual ciclo das commodities. Acontece de PETR4 ligar para seu celular ciumenta, pê da vida, acusando-o de traição?

Nem mesmo VIVT4 faria algo assim.

Uma vez tendo comprado Petrobras, você quer que a torcida do Flamengo dê uns pegas nela, elevando a cotação, para então trocá-la friamente por outra com P/E mais atrativo.

Cash in, cash out.

Um trader das antigas, desses polígamos inveterados, uma vez me aconselhou:

“Se você quer ganhar dinheiro com ações, jamais se aproxime da empresa. Rodolfo, o que quer que aconteça, não se deixe envolver. Por isso eu escolhi ser trader, e nunca serei analista. Analistas são tipos românticos”.

Duas coisas acontecem com o investidor que se aproxima demais.

1) Ele se frustra ao visitar as operações e descobrir toda aquela bagunça nua e crua. Não venha me falar de lean manufacturing ou metodologia scrum. Toda empresa de sucesso é uma zona quando vista de dentro.

2) Ele se apaixona perdidamente pelo negócio e, sobretudo, pelas pessoas. Não há management mais perfeito no mundo, não há negócio com tantas barreiras à entrada. Vive-se, ali, uma experiência única.

Melhor, então, que não exista reciprocidade quando se investe.

A reciprocidade que é o beijo é também o tapa.

O gestor Bill Gross – que já deu beijo triplo, mas também tomou muito tapa na vida – está sentindo agora que o yield dos Treasuries de 10 anos alcança uma zona de saturação.

Nas contas dele, 2018 é para algo em torno de 2,80%o, com picos de 3,10% a 3,15%, e nada acima disso.

Há uma suspeita no ar de que o dólar (especialmente contra o real) teria subido demais.