Smart beta ou street smart beta?

Primeiramente, peço desculpas pelo longo texto desta terça-feira. Caminho mais e mais com o Felipe, e as influências dos seus hábitos sobre os meus têm […]

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Smart beta ou street smart beta?

Primeiramente, peço desculpas pelo longo texto desta terça-feira.

Caminho mais e mais com o Felipe, e as influências dos seus hábitos sobre os meus têm sido quase sempre deletérias nesses últimos 13 anos.

Na sala de aula, bem lá no fundão, Felipe era o aluno singular que os professores chamavam, carinhosamente, de “líder negativo”.

Conversava o tempo inteiro, bolinha de papel, pula-pirata. Aí, quando chegava na hora da prova, ele tirava dez e os colegas tiravam um, dois, três, quatro.

Por isso, eu tinha que sentar longe dele no mestrado, para conseguir aprender sobre “modelos multifatoriais” e passar de ano transpirando.

O primeiro desses modelos era, na verdade, unifatorial – conhecido popularmente como Capital Asset Price Model (CAPM).

Deduzido por William Sharpe em 1964, o CAPM supõe que os investidores são remunerados tanto pelo valor do dinheiro no tempo quanto pelo risco de carregar determinado ativo (beta).

Preenchendo as poucas variáveis do modelo, descobrimos qual compensação deve ser exigida para se investir em um dado ativo de risco.

Tudo ia bem com o CAPM até 1992, quando Eugene Fama e Kenneth French descobriram alguns gargalos e decidiram complementá-lo, apresentando ao mercado o icônico Three-Factor Model.

Além do beta do CAPM (que espelha a covariância de um ativo em relação ao mercado), Fama e French identificaram outros dois fatores relevantes: tamanho e custo-benefício.

No tocante ao tamanho, eles notaram que as microcaps tendem a superar a performance das large caps ao longo do tempo.

Quanto ao custo-benefício, ações com um múltiplo menor de preço sobre patrimônio tendem a superar aquelas de múltiplo elevado.

Cinco anos depois, Mark Carhart continuou a saga credenciando o momentum como o quarto fator do modelo. A direção e inclinação dos retornos recentes de uma ação passariam a ser usadas também como indicativas dos retornos futuros.

Já em 2015, Fama e French voltaram para o batente e adicionaram outros dois fatores: lucratividade (premiando empresas com alto crescimento de lucros) e eficiência de capex (premiando empresas que se alavancam operacionalmente sobre uma base enxuta de ativos).

Tentando decorar os highlights da história (que cairiam na prova), contabilizávamos àquela altura um total de seis fatores relevantes: beta, tamanho, custo-benefício, momentum, lucratividade e eficiência de capex.

Então o Felipe estacionou o KC-390 de papel timbrado que acabara de fabricar e levantou a mão:

“Professor, provavelmente há um sétimo fator, não? Minha educação jesuíta me faz desconfiar que a perfeição se alcança sempre em sete ocorrências”.

Para espanto geral da classe, o professor respondeu que não só havia um sétimo fator já estudado, mas também outros 299 novos fatores.

Virou passsseeeeeeeeio.

Graças ao vácuo científico dos financistas, é muito fácil continuar “descobrindo” o mesmo fator, infinitas vezes, atribuindo nomes diferentes a cada vez.

Apenas para exemplificar: liquidez seria um fator complementar? Ou apenas um nome diferente para o fator tamanho?

Ironicamente, vários dos 300 novos fatores foram sugeridos por economistas comportamentais – que, por sua vez, confrontam a hipótese de mercados eficientes que é o próprio alicerce de todos os modelos multifatoriais.

Tocou o sinal, dez e quarenta da noite, e o professor encerrou a aula exausto, sem que o Felipe pudesse revelar qual era aquele sétimo fator imaginado por ele.

Uma vez mais, o líder negativo gabaritaria a prova, carregando, pelo resto do curso, a insígnia de Contrarian Trader.