Sobre mitos e mitômanos

Faltam ainda três semanas. É impressionante o espectro de coisas que podem acontecer em três semanas. Ativos baratos podem ficar caros. O real pode se […]

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Sobre mitos e mitômanos

Faltam ainda três semanas. É impressionante o espectro de coisas que podem acontecer em três semanas. Ativos baratos podem ficar caros. O real pode se vingar do dólar. Um pré de 12,25% pode virar 11,00%.

Em que se pesem vários cenários em aberto ainda, as últimas pesquisas vão gradativamente se afunilando para uma disputa mais específica entre Bolsonaro e Haddad.

Mesmo os outros candidatos começam a admitir isso implicitamente… e a reagir de acordo.

No Estadão de domingo, Persio Arida endureceu o discurso contra os dois primeiros. Quando perguntado se Bolsonaro é o maior risco, respondeu que “se Haddad de fato for o Lula, é um risco também”.

Mas a manchete da entrevista ficou mesmo com Paulo Guedes, a quem Arida chamou de mitômano.

Ministros da Fazenda mitômanos acreditam ter algum poder, ou – muito pior – acreditam ter mais poder do que o presidente. Sua falácia é a da pretensa supremacia da economia sobre a política, e da técnica sobre a retórica.

Em todas as disputas relevantes entre economia e política, essa última saiu vitoriosa. Retórica também costuma dar um pau na técnica.

O ministro da Fazenda FHC pouco entendia de economia. Soube extrair o máximo capital político do Plano Real.

Por outro lado, o também Chicago Boy Joaquim Levy sabe mais de economia do que Paulo Guedes, e tem longa experiência em vida pública. Ainda assim, nada pôde fazer para evitar o Fim do Brasil de Dilma Rousseff.

Não me baseio aqui em qualquer preferência eleitoral própria, não é minha função. Baseio-me apenas na preferência de infinitos outros que compõem a convenção do mercado.

Indo hoje pelo que o mercado acredita – o mercado se permite acreditar em mitos e mitômanos – imagino duas possíveis reversões à média.

Na primeira, investidores se empolgam inicialmente com Paulo Guedes eleito, mas, depois de uns meses, descobrem que elegeram Bolsonaro.

Na segunda, investidores fogem de pânico com a vitória do Haddad, que é de fato o Lula, mas depois de uns meses descobrem que Haddad é de fato o Haddad (assim como Dilma era de fato a Dilma).

Talvez, no fim das contas, reverteremos todos à mesmíssima média – seja pelo sobe e desce de Bolsonaro, seja pelo desce e sobe de Haddad.

O verdadeiro mito nacional é o de Macunaíma, o do herói sem nenhum caráter, o da valorização amoral que cabe aos ativos de risco tupiniquins.