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Os mercados globais encerram a semana em tom mais construtivo, impulsionados por sinais de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã. Segundo diferentes veículos da imprensa internacional, representantes dos dois países teriam chegado a um memorando de entendimento para estender o cessar-fogo por mais 60 dias, retomar as negociações sobre o programa nuclear iraniano e avançar na normalização da navegação pelo Estreito de Ormuz.
Embora o acordo ainda dependa da aprovação final de Donald Trump e não tenha sido oficialmente ratificado por Teerã, o simples avanço das conversas já foi suficiente para reduzir parte da aversão ao risco que dominou os mercados nos últimos meses. A reação dos ativos refletiu esse alívio.
O petróleo voltou a recuar diante da perspectiva de reabertura gradual de Ormuz e de normalização dos fluxos globais de energia, enquanto bolsas ao redor do mundo avançaram. Na Ásia, mercados como Coreia do Sul e Japão registraram fortes altas; na Europa, os principais índices também operaram em território positivo. Em Wall Street, os índices americanos renovaram máximas históricas, beneficiados tanto pela melhora do ambiente geopolítico quanto pelo entusiasmo persistente com inteligência artificial e pelos resultados corporativos ligados ao setor de tecnologia.
Apesar disso, a cautela segue presente. O mercado começa a enxergar uma trajetória mais favorável para a resolução do conflito, mas ainda opera em um cenário de elevada volatilidade, no qual cada nova manchete envolvendo o Oriente Médio pode influenciar preços de energia, expectativas de inflação e a dinâmica dos ativos globais.
· 00:59 — Uma atividade forte
No Brasil, o mercado acompanhou mais um dia marcado pela combinação entre ruídos geopolíticos, agenda econômica intensa e novos desdobramentos políticos. O Ibovespa registrou seu terceiro pregão consecutivo de queda, pressionado inicialmente pelo anúncio de retaliações iranianas aos recentes ataques americanos próximos ao Estreito de Ormuz.
Ao longo da tarde, porém, parte das perdas foi amenizada após notícias de avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã, que ajudaram Wall Street a ganhar tração. Em paralelo, investidores monitoraram uma série de indicadores domésticos relevantes. O PIB do primeiro trimestre confirmou uma reaceleração da economia brasileira, com alta de 1,1% na comparação trimestral, levemente acima do esperado, impulsionada pela recuperação da indústria e pelo fortalecimento da demanda privada.
Ontem, os dados de atividade e mercado de trabalho reforçam a percepção de uma economia ainda aquecida. A taxa de desemprego permaneceu próxima das mínimas históricas, enquanto a renda das famílias segue crescendo em termos reais, ainda que em ritmo mais moderado. Mesmo com a desaceleração observada na criação líquida de empregos pelo Caged, os indicadores continuam apontando para um mercado de trabalho apertado, com salários avançando acima da produtividade e demanda doméstica resiliente.
Somados à elevada utilização da capacidade instalada da indústria e à expectativa de crescimento mais forte no início do ano, esses dados sugerem que o Banco Central poderá revisar para cima sua avaliação sobre o hiato do produto na próxima reunião do Copom. Em termos simples, isso significa que a economia continua operando com mais força do que o esperado, o que reduz o espaço para cortes adicionais de juros no curto prazo (o ciclo pode ser pausado).
Já no campo político, a decisão do governo americano de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas abriu uma nova frente de tensão entre Brasília e Washington. Para os mercados, os efeitos imediatos tendem a ser modestos. No entanto, o assunto pode ganhar maior relevância ao longo do tempo caso a classificação sirva de base para novas sanções, restrições operacionais ou tensões diplomáticas adicionais, ampliando potenciais impactos sobre fluxos financeiros, relações comerciais e percepção de risco do país.
· 01:42 — Pressões
Os mercados americanos voltaram a renovar máximas históricas mesmo diante de novos sinais de pressão inflacionária. O índice PCE, principal medida de inflação acompanhada pelo Federal Reserve, veio abaixo do esperado, mas acelerou para 3,8% em abril, enquanto o núcleo da inflação atingiu 3,3%, ambos nos níveis mais elevados dos últimos anos. Ainda assim, os investidores parecem cada vez mais convencidos de que um ambiente de inflação mais alta por mais tempo já está amplamente incorporado aos preços dos ativos.
O movimento foi impulsionado, sobretudo, por resultados corporativos robustos, especialmente nos setores de tecnologia e inteligência artificial. Empresas como Snowflake e Dell divulgaram números acima das expectativas, reforçando a percepção de que o ciclo de investimentos em infraestrutura ligada à IA continua avançando em ritmo acelerado.
Ao mesmo tempo, começam a surgir sinais de moderação no consumo americano. Embora os gastos das famílias continuem crescendo, o ritmo perdeu força em relação aos meses anteriores, enquanto a renda pessoal permaneceu praticamente estável.
Com a inflação elevada corroendo parte do poder de compra, a taxa de poupança recuou para 2,6%, um dos níveis mais baixos dos últimos anos. Ainda assim, a combinação entre balanços patrimoniais relativamente saudáveis, especialmente entre as famílias de maior renda, e um mercado de trabalho que segue resiliente sugere que a economia americana continua distante de uma contração iminente.
· 02:36 — Uma nova abordagem
A Huawei apresentou a chamada “Lei de Escala Tau (τ)”, uma proposta que busca redefinir a evolução da indústria de semicondutores em um momento em que a tradicional Lei de Moore se aproxima de seus limites físicos e econômicos.
Em vez de concentrar os avanços exclusivamente na redução do tamanho dos transistores, a empresa defende uma abordagem baseada na otimização do tempo de processamento e da circulação de dados ao longo de toda a arquitetura computacional, combinando melhorias em hardware, software, interconexões e design de sistemas. A iniciativa surge em um contexto no qual a China enfrenta restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos e busca alternativas para reduzir sua dependência das tecnologias mais avançadas desenvolvidas no Ocidente.
Mais do que uma inovação tecnológica disruptiva em si, a proposta reflete a ambição chinesa de deixar de atuar apenas como uma rápida seguidora e assumir um papel mais relevante na definição dos próximos paradigmas tecnológicos globais. Embora muitos dos conceitos apresentados já sejam discutidos pela indústria há anos dentro das chamadas abordagens pós-Moore, a Huawei procura consolidá-los sob uma narrativa estratégica própria.
Em outras palavras, diante das dificuldades para competir diretamente na corrida pela miniaturização dos chips mais avançados, a China passa a apostar cada vez mais em arquiteturas alternativas, integração de sistemas e novos modelos de desenvolvimento computacional como forma de disputar protagonismo em uma das áreas mais estratégicas da competição tecnológica global.
· 03:27 — Aliado ou não?
Os movimentos recentes envolvendo China, Estados Unidos e seus aliados evidenciam que a competição entre as grandes potências está se tornando cada vez mais ampla, combinando dimensões militares, tecnológicas, econômicas e diplomáticas. De um lado, relatório enviado ao Congresso americano mostra que Washington vem acelerando os preparativos para conter uma eventual ação chinesa contra Taiwan, com ampliação de investimentos em mísseis hipersônicos, guerra eletrônica, comunicações seguras e sistemas voltados ao controle de rotas marítimas estratégicas.
A preocupação reflete a avaliação de que Pequim busca estar preparada para uma eventual operação na região até 2027 e reforça a importância crescente dos chamados pontos de estrangulamento marítimos, como Taiwan e o Estreito de Ormuz, para a segurança econômica e militar global.
Ao mesmo tempo, a China avança em uma frente menos visível, mas igualmente estratégica: a diplomacia. A visita do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, ao Canadá, a primeira de um diplomata chinês de alto escalão ao país em uma década, simboliza a tentativa de Pequim de ampliar sua influência junto a países tradicionalmente alinhados aos Estados Unidos.
Após anos de tensões bilaterais, Ottawa e Pequim passaram a buscar uma relação mais pragmática, impulsionada pelo interesse canadense em diversificar suas parcerias econômicas e reduzir sua dependência de Washington. Para a China, o movimento representa uma vitória diplomática relevante em um momento de crescente fragmentação da ordem internacional.
Em outras palavras, enquanto os Estados Unidos reforçam sua estratégia de contenção militar no Indo-Pacífico, a China tenta expandir simultaneamente sua influência econômica e política em outras frentes. A disputa pela liderança global, portanto, deixou de estar concentrada apenas no campo militar e passou a envolver cadeias produtivas, rotas marítimas, tecnologia, comércio, alianças diplomáticas e capacidade de atrair países que buscam maior autonomia estratégica em um mundo cada vez mais dividido.
· 04:13 — Super quântico
A IBM anunciou um plano de investimentos superior a US$ 10 bilhões para acelerar o desenvolvimento da computação quântica e construir, até 2029, o que espera ser o primeiro computador quântico tolerante a falhas em larga escala. O projeto, denominado Starling, deverá ser capaz de realizar cerca de 100 milhões de operações quânticas utilizando 200 qubits lógicos, representando um passo importante na transformação da computação quântica de uma tecnologia experimental para uma plataforma com aplicações comerciais mais robustas.
O anúncio ocorre em meio ao aumento do apoio do governo americano ao setor, por meio de programas de financiamento, investimentos em empresas especializadas e parcerias estratégicas. Em outras palavras, a corrida pela liderança em computação quântica começa a ganhar relevância semelhante à observada em áreas como inteligência artificial e semicondutores, consolidando-se como uma das principais fronteiras tecnológicas das próximas décadas.
· 05:01 — Depois da consolidação
O ouro atravessa um período de consolidação após a expressiva valorização registrada em 2025. Embora a escalada das tensões no Oriente Médio tenha inicialmente reforçado sua tradicional função de porto seguro, o metal não conseguiu retomar suas máximas históricas e passou a ser pressionado por fatores macroeconômicos mais amplos. Entre eles, destacam-se a elevação dos juros reais, a valorização do dólar e a percepção de que uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz poderia pressionar a inflação global, levando os bancos centrais a manter políticas monetárias mais restritivas por mais tempo. Como o ouro não gera fluxo de renda, juros mais elevados aumentam o custo de oportunidade de manter posições no metal, reduzindo parte de sua atratividade relativa no curto prazo.
Além disso, muitos analistas consideram natural que o ouro atravesse uma fase de acomodação após a forte alta acumulada nos últimos anos. Historicamente, períodos de correção ou consolidação podem durar entre doze meses e dois anos sem necessariamente comprometer a tendência estrutural de longo prazo. Nesse ambiente, parte dos investidores passou a enxergar uma relação risco-retorno mais atrativa em commodities ligadas ao ciclo econômico, como cobre e madeira, especialmente diante da perspectiva de recuperação gradual da atividade industrial global. Essa mudança de preferência levou algumas instituições financeiras a revisarem para baixo suas projeções para o ouro no curto prazo, ainda que sem abandonar uma visão construtiva para horizontes mais longos.
Apesar dessas pressões conjunturais, os fundamentos estruturais que sustentam a tese de investimento no ouro permanecem amplamente preservados. O crescimento contínuo da oferta monetária global, a expansão do crédito, os elevados níveis de endividamento público e a busca crescente dos bancos centrais por diversificação de reservas continuam oferecendo suporte ao metal. Em outras palavras, embora o ouro possa enfrentar períodos de menor protagonismo no curto prazo, seu papel como instrumento de proteção patrimonial permanece relevante em um mundo marcado por incertezas geopolíticas, fragilidades fiscais e transformações profundas na ordem econômica global. Além disso, caso o atual ambiente de volatilidade resulte em erros de política monetária, deterioração fiscal ou perda adicional de confiança nas moedas fiduciárias, o ouro pode voltar a ganhar tração de forma mais consistente, reforçando sua função histórica como reserva de valor. Ainda assim, esse tipo de exposição deve ser construído com critério e disciplina, sempre respeitando o perfil de risco e os objetivos de cada investidor.
Em termos gerais, alocações entre 2,5% e 5% do portfólio costumam ser suficientes para cumprir a função de proteção sem comprometer a diversificação da carteira. Para quem investe no exterior, ETFs como o iShares Gold Trust (IAU) oferecem acesso direto ao ouro com elevada liquidez. No mercado brasileiro, alternativas como o ETF BTG Pactual B3 Ouro (GOLB11) cumprem papel semelhante. Já fundos de ouro dolarizados, sem proteção cambial (hedge), adicionam uma camada extra de defesa ao combinar exposição ao metal com proteção contra eventuais movimentos de desvalorização do real. Em qualquer caso, a mensagem central permanece a mesma: disciplina na alocação, diversificação, dimensionamento adequado das posições e equilíbrio entre proteção, liquidez e geração de retorno ao longo do tempo.