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As negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram na Suíça, apesar de terem começado sob forte tensão, após Donald Trump renovar ameaças de ataques militares caso Teerã não contenha a atuação do Hezbollah no Líbano. Seja como for, alguns sinais de tímido progresso ajudaram a aliviar os preços do petróleo, que recuam nesta manhã diante da percepção de menor risco imediato, embora a normalização do tráfego marítimo ainda seja complexa e continue sujeita a novas interrupções.
No restante do cenário internacional, os mercados reagiram de forma mista a uma combinação de fatores políticos e corporativos. Na Colômbia, a eleição apertada de Abelardo de la Espriella marcou uma guinada à direita após quatro anos de governo de esquerda. No Reino Unido, Keir Starmer anunciou sua renúncia, reforçando a instabilidade política britânica e abrindo caminho para uma disputa pela liderança trabalhista. Na Ásia, as bolsas subiram impulsionadas pelo avanço de empresas ligadas à inteligência artificial, especialmente em Taiwan, Coreia do Sul e Japão.
· 00:55 — Calibrando expectativas
No Brasil, a semana será marcada pela tentativa do mercado de compreender melhor a comunicação do Banco Central após o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano. Embora a decisão já fosse esperada, como comentei na semana passada, o comunicado do Copom foi interpretado como mais dovish do que o previsto (e até heterodoxo) ao manter aberta a possibilidade de novos cortes mesmo em um ambiente de inflação acima da meta, expectativas desancoradas, atividade resiliente e riscos fiscais relevantes.
Essa leitura levou à abertura da curva de juros, sobretudo nos vencimentos mais longos, diante do receio de que uma postura mais tolerante no curto prazo possa cobrar um preço maior adiante. Nesse contexto, a ata do Copom, o Relatório de Política Monetária e a coletiva de Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti serão fundamentais para esclarecer se houve apenas um problema de comunicação ou se, de fato, o BC está mais inclinado a seguir reduzindo os juros.
Os principais vetores capazes de melhorar as expectativas do mercado passam por uma comunicação mais clara sobre o horizonte relevante da política monetária, os cenários de inflação considerados pelo Comitê e os critérios que orientarão os próximos passos da Selic. Caso a ata e o RPM reforcem o compromisso com a meta de inflação, expliquem melhor o alongamento do horizonte de projeção e sinalizem que novos cortes dependerão de uma melhora concreta dos dados, parte dos prêmios embutidos na curva de juros poderá ser devolvida.
Além disso, o IPCA-15, a pesquisa Focus, os dados do setor externo, o investimento direto no País e a Pnad Contínua ajudarão a calibrar a percepção sobre inflação, câmbio, atividade e mercado de trabalho, elementos centrais para avaliar se o Banco Central ainda terá espaço para continuar o ciclo de afrouxamento monetário sem comprometer sua credibilidade.
· 01:47 — Agenda carregada
Wall Street entra na última semana completa de junho com uma agenda americana concentrada em três frentes principais: inflação, inteligência artificial e bancos. O destaque macroeconômico será a divulgação do PCE de maio, na quinta-feira, indicador de inflação preferido do Federal Reserve, com expectativa de aceleração especialmente no núcleo, que exclui alimentos e energia.
Os investidores também acompanharão os pedidos de bens duráveis e as falas de John Williams, presidente do Fed de Nova York, em busca de sinais sobre a trajetória da economia e da política monetária. Na quarta-feira à noite, o Fed divulgará os resultados dos testes de estresse dos bancos americanos, incluindo JPMorgan, Bank of America, Goldman Sachs e Morgan Stanley, o que deve ampliar a atenção sobre a saúde do sistema financeiro.
No campo corporativo, a Micron será o principal evento da semana, com balanço previsto para quarta-feira após o fechamento do mercado, em meio à forte demanda por chips de memória ligados à inteligência artificial e aos data centers. O resultado pode reforçar o rali das empresas de tecnologia, mas também traz uma preocupação mais ampla: a alta dos custos de memória pode pressionar os preços de smartphones, PCs e outros bens duráveis, com possível reflexo nos dados de inflação.
Além disso, eventos da Nvidia e da Qualcomm devem trazer novas leituras sobre as tendências de IA, enquanto o Prime Day da Amazon e promoções concorrentes de Walmart, Target, Best Buy e Kohl’s servirão como um teste em tempo real da demanda do consumidor americano. Os resultados de FedEx e Carnival também ajudarão a medir a força da economia, os volumes de transporte, os gastos com viagens e o possível alívio nos custos de combustível após o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã.
· 02:32 — Avançando lenta e vagarosamente
As negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram na Suíça, mas começaram sob forte tensão política e militar. Apesar das ameaças de Donald Trump de retomar os ataques caso Teerã não contenha a atuação do Hezbollah no Líbano, o que gerou ruído durante o final de semana, mediadores do Catar e do Paquistão afirmaram que houve “progressos encorajadores” e que as partes concordaram com um roteiro para tentar concluir um acordo definitivo em até 60 dias.
Entre os avanços operacionais, destacam-se a criação de um mecanismo para encerrar os confrontos entre Israel e Hezbollah no Líbano e a abertura de um canal de comunicação voltado a evitar incidentes e garantir a passagem segura de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz.
A implementação, porém, segue frágil e cercada de incertezas. O Irã voltou a restringir o tráfego em Ormuz antes das conversas, enquanto os Estados Unidos mantiveram a pressão militar e diplomática sobre Teerã. Ao mesmo tempo, o governo iraniano afirma já observar benefícios concretos do memorando provisório, como isenções para exportações de petróleo e petroquímicos, liberação de parte dos ativos congelados e avanço de um plano de reconstrução.
Para os mercados, o petróleo permanece no centro das atenções: os preços começaram a semana em queda, mas seguem voláteis, refletindo tanto a expectativa de normalização gradual do fluxo pelo estreito quanto o risco de novas interrupções caso as negociações voltem a se deteriorar.
· 03:28 — Virada na Colômbia
A vitória de Abelardo de la Espriella no segundo turno da eleição presidencial colombiana marca uma inflexão relevante após quatro anos do governo de esquerda de Gustavo Petro. Em uma disputa historicamente apertada e altamente polarizada, De la Espriella derrotou Iván Cepeda por margem estreita, apoiado em uma plataforma centrada em segurança pública, enfrentamento aos cartéis, reabertura do setor de petróleo e gás e maior alinhamento com os Estados Unidos.
Para os mercados, o resultado foi inicialmente recebido de forma positiva para os ativos colombianos. No entanto, a forte valorização recente já limita parte do potencial de surpresa, deslocando o foco da eleição em si para a capacidade de execução do novo governo.
Com isso, a Colômbia passa a se somar a outras mudanças recentes na América do Sul, em que eleitorados têm migrado de experiências de esquerda para alternativas mais à direita, como ocorreu na Argentina com Javier Milei e no Chile com José Antonio Kast, além da disputa apertada no Peru envolvendo Keiko Fujimori. Esse movimento reflete uma combinação de desgaste com baixo crescimento, insegurança, fragilidade fiscal e insatisfação com governos anteriores.
Ainda assim, o principal desafio daqui em diante será transformar a guinada política em governabilidade: De la Espriella chega ao poder com base parlamentar limitada, necessidade de formar coalizões e uma agenda pró-mercado cuja implementação dependerá da escolha dos nomes para o gabinete, da credibilidade fiscal e da capacidade de articulação no Congresso.
· 04:16 — Difícil de governar
A renúncia de Keir Starmer, anunciada menos de dois anos após sua vitória expressiva, aprofunda a crise de governabilidade do Reino Unido e reforça a sensação de esgotamento político iniciada com o Brexit. Desde 2016, o país atravessa uma sucessão incomum de primeiros-ministros — David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e, agora, Starmer —, enquanto o próximo líder trabalhista poderá se tornar o sétimo ocupante de Downing Street em cerca de uma década.
A saída de Starmer ocorre após a perda de apoio dentro do próprio Partido Trabalhista, em meio ao desgaste provocado por escândalos políticos e pela ascensão de Andy Burnham como principal nome para sucedê-lo. Mais do que uma crise individual, a queda de Starmer evidencia como as consequências políticas do Brexit tornaram o sistema britânico cada vez mais instável.
O país parece preso a um ciclo de lideranças frágeis, maiorias que se desfazem rapidamente e governos com dificuldade de reconstruir uma agenda de longo prazo em temas como imigração, crescimento econômico, contas públicas e relação com a Europa. Nesse sentido, o Reino Unido se tornou quase ingovernável: não pela ausência de instituições, mas pela dificuldade crescente de transformar mandatos eleitorais em estabilidade política duradoura.
· 05:03 — Acelerando a expansão nos EUA e reforçando a tese de longo prazo
A TSMC (NYSE: TSM) deu mais um passo relevante para reduzir sua dependência operacional da Ásia e ampliar sua presença estratégica nos Estados Unidos. Em 16 de junho, a companhia anunciou um acordo de dez anos com a Amkor Technology para expandir a capacidade de empacotamento e teste de semicondutores avançados no Arizona.
A parceria endereça um dos principais gargalos da cadeia americana de chips: embora a TSMC já produza semicondutores avançados no país, parte desses componentes ainda precisa ser enviada à Ásia para passar pelo empacotamento avançado, etapa que integra múltiplos chips em um módulo mais eficiente, antes de retornar aos EUA. Com a Amkor assumindo essa fase em território americano, a companhia tende a reduzir custos logísticos, encurtar prazos de entrega e oferecer uma cadeia produtiva mais integrada, do silício ao chip final.
A iniciativa também fortalece a posição da TSMC junto a grandes clientes como Apple e Nvidia, que passam a contar com uma cadeia de suprimentos mais resiliente, eficiente e menos exposta a riscos geopolíticos na Ásia. Além disso, o acordo antecipa parte dos benefícios esperados da futura instalação própria de empacotamento avançado da TSMC no Arizona, prevista para 2029, sem substituir esse plano de expansão. Ao mesmo tempo, melhora a capacidade da companhia de atender à demanda crescente por chips de inteligência artificial e eletrônicos de alta performance.
Nesse contexto, a combinação entre expansão nos Estados Unidos, maior integração produtiva e investimentos robustos das hyperscalers projetados para 2026 sustenta uma visão construtiva para as ações da TSMC, com destaque para as BDRs TSMC34 como veículo de exposição ao tema no mercado brasileiro.