Adeus, curto prazo, e até a última ponta

Logo ao início de um semestre melhor (não há como ser pior), convém falar sobre o futuro.

Logo ao início de um semestre melhor (não há como ser pior), convém falar sobre o futuro.

Mas o que é isto que chamamos de futuro? — indagaria o Cortella.

Daqui a alguns meses?

Marias e Caetanos de uma próxima geração?

Nos últimos 15 anos trabalhando com finanças, me esforcei para incorporar as críticas de que o mercado comete erros sistemáticos devido a suas obsessões curto-prazistas.

Em seu brilhante "O Valor do Amanhã", Eduardo Giannetti usa o casamento espaço-tempo para caracterizar esse viés como um caso crônico de miopia coletiva, no qual a luz dos fundamentos econômicos não consegue focar na retina, fazendo com que obviedades distantes apareçam turvas.

Identificamos o viés da miopia em toda parte — na fascinação por oscilações espúrias de resultados trimestrais, em pessoas físicas comprando ações prestes a distribuir dividendos, e no ritual sagrado das puxetas semestrais.

No entanto, o mundo evoluiu exponencialmente nesses últimos 15 anos. E, como era de se esperar, pelos ditames da natureza, estou ficando velho, estou ficando para trás. Faz parte.

Corro agora para tentar aprender com outro novo tipo de viés, da hipermetropia.

Pessoas com hipermetropia precisam apertar os olhos para ver objetos próximos, embora não tenham dificuldade de enxergar com nitidez as verdades distantes.

Pois é, o tempo voou, os juros caíram para zero, e o mercado passou a ser acusado de "hipermetropista".

Pouco importa se a Amazon não entrega lucros parciais no 2T20, pois entregará lucros totais no 2T50, quando a Covid-19 ficará limitada aos links de rodapé dos e-books de História.

Mas será que isso é mesmo um viés? Ou veio para ficar?

Tenho minhas dúvidas, que só serão sanadas daqui a um século.

Quanto mais a humanidade progride, mais seu presente se parece com a perpetuidade de uma soma de PG infinita.

Nunca seremos imortais, mas a amortalidade já oferece consequências suficientemente radicais sobre a nossa existência, e sobre os modelos de apreçamento de ativos.

Investidores modernos não perdem mais tempo testando fluxos de caixa para os próximos cinco ou dez anos.

Em vez disso, eles imaginam ideias capazes de criar e dominar hábitos de consumo por cem anos.

Nesse sentido, o cigarro de maconha tornou-se muito mais útil do que o Excel para modelar valuation e, inclusive, para modelar o valuation de MSFT.

Se você é ruim de planilha e bom de baseado, anime-se; o futuro está fazendo a cabeça dos financistas.

Inscreva-se em nossa newsletter