Quem é o arqueiro misterioso? É você?

Remeto hoje a uma de minhas passagens preferidas do Mahabharata — epopeia clássica da Índia antiga que narra a guerra de diferenças entre tribos que nasceram iguais.

Remeto hoje a uma de minhas passagens preferidas do Mahabharata — epopeia clássica da Índia antiga que narra a guerra de diferenças entre tribos que nasceram iguais.

Essa história começa quando Ekalavya, membro de uma das mais desprezadas tribos do enredo, pede para estudar o manejo do arco & flecha com Drona, o grande guru.

Arjuna, o herói do Bhagavad Gita (da canção de Raul e Paulo Coelho) era então reconhecido como o maior arqueiro do mundo, justamente graças às lições de Drona.

Tomado por desdém, Drona rejeita os pedidos de Ekalavya, temeroso de que a presença de um representante de uma tribo menor em suas aulas depreciaria seu próprio moral e o moral dos outros alunos.

Sem se deixar abalar pela negativa do grande guru, Ekalavya se retira para o isolamento da floresta, onde esculpe uma figura de Drona, com o papel simbólico de abençoar sua prática diária com o arco & flecha.

Um dia, Arjuna sai para caçar com seu cão, que segue um rastro, corre para a floresta e acaba encontrando o local de prática de Ekalavya.

Defendendo-se de um ataque do animal, Ekalavya dispara uma saraivada de flechas com tamanha habilidade que neutraliza completamente as mandíbulas do cão sem machucá-lo.

Contrariado, Arjuna decide questionar Drona: "Você prometeu que me faria o maior arqueiro do mundo, mas encontrei hoje uma amostra de capacidades muito acima das que aprendi com você".

Drona e Arjuna voltam para a floresta, visando investigar quem é o arqueiro misterioso. 

Encontrando Ekalavya ao lado da escultura, Drona pergunta: "Se esta é minha escultura, sou eu o seu mestre?".

Ekalavya sente-se honrado com a visita e responde afirmativamente: "Sim, é claro que o grande guru é, e sempre foi, meu único mestre".

Drona propõe: "Suas habilidades provam que você está formado com sucesso no manejo do arco & flecha, graças à imanência de minha estátua. Agora, peço meu pagamento. Dê-me em troca seu polegar direito".

Sem pestanejar, Ekalavya puxa a faca, decepa prontamente o polegar e entrega ao grande guru.

Por fim, Drona se dirige a Arjuna com a proposição de mais um dever cumprido: "Pronto, você é o maior arqueiro do mundo".

Sobre o que trata a história?

Como de praxe no Mahabharata, uma narrativa aparentemente simples — e até infantil — carrega diversos significados complexos e, por vezes, contraditórios.

Vou me ater aqui ao que nos interessa enquanto leitores do Day One.

As pessoas físicas são Ekalavya. Todas nasceram com capacidade de investir, mas são inseguras. De dentro dessa insegurança, creem que dependem estritamente de um Drona para conduzir sua jornada.

Note que essa crença é tão profunda que, mesmo depois de dominarem por si só a arte do arco & flecha, os investidores individuais continuam acreditando na subordinação em relação ao Drona.

O alcance pleno de uma vocação não é suficiente para blindá-los do oligopólio dos Dronas.

Ao mesmo tempo, alguns daqueles que hoje são tidos como os maiores arqueiros do mundo, mentores dos projetos mais incríveis de todos os tempos, sustentam seu status com base em milhões de polegares decepados.

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