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Investimentos

Ibovespa hoje: adiamento das negociações entre EUA e Irã impõe cautela aos mercados; o que esperar da sexta-feira (19)?

Em dia de menor liquidez devido ao feriado de Juneteenth nos EUA, mercados podem operar sob cautela, após o adiamento das negociações de paz entre EUA e Irã; saiba o que esperar desta sexta-feira (19)

Por Matheus Spiess

19 jun 2026, 10:28

Atualizado em 19 jun 2026, 10:29

mercado eua usa bolsas dolar

Imagem: iStock.com/Dilok Klaisataporn

As bolsas globais encerram uma semana forte em tom mais cauteloso, à medida que o alívio inicial com o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã dá lugar a dúvidas sobre sua implementação e durabilidade. As negociações previstas para ocorrer na Suíça foram adiadas após novos confrontos no sul do Líbano entre Israel e militantes do Hezbollah, grupo apoiado por Teerã, elevando a incerteza sobre a sustentação da trégua.

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Com os mercados à vista dos EUA fechados pelo feriado de Juneteenth e uma agenda econômica esvaziada, os investidores concentraram suas atenções no Estreito de Ormuz, onde o tráfego marítimo voltou a preocupar diante de relatos de redução no fluxo de petroleiros, presença de minas, riscos de congestionamento e dúvidas sobre o grau de controle que o Irã poderá manter sobre a hidrovia. O petróleo voltou a subir em uma sessão volátil, embora ainda caminhe para uma das maiores quedas semanais do ano

Nos mercados acionários, o Stoxx 600 opera sem direção definida, e as bolsas europeias mostraram cautela. Na Ásia, o desempenho foi misto, com destaque para a forte alta semanal do Nikkei, beneficiado pelo alívio nas expectativas de inflação e pelo bom desempenho global dos setores de semicondutores e inteligência artificial (IA).  

00:54 — Problema de credibilidade

No Brasil, o Ibovespa encerrou a quinta-feira (18) em leve queda de 0,10%, aos 168.278 pontos, enquanto o dólar à vista avançou 1,30%, para R$ 5,17, pressionado pelo tom mais duro do Federal Reserve (Fed) e, sobretudo, pela leitura do comunicado do Copom, em linha com o que comentei ontem.

O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, como esperado, mas surpreendeu ao manter aberta a possibilidade de novos cortes, em vez de sinalizar uma pausa mais clara no ciclo.

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A comunicação gerou ruído porque, ao mesmo tempo em que reconheceu inflação acima da meta, expectativas desancoradas, atividade ainda robusta e riscos fiscais, o Comitê recorreu a um horizonte de projeção mais longo, o primeiro trimestre de 2028, para justificar trajetórias alternativas compatíveis com a convergência da inflação à meta. Para o mercado, essa abordagem soou excessivamente heterodoxa

Com isso, a decisão foi interpretada por parte dos investidores como mais dovish do que o esperado, ou seja, mais inclinada à continuidade do afrouxamento monetário. A alta do dólar e a abertura da curva de juros mostraram que o mercado passou a questionar a consistência da comunicação e a credibilidade da estratégia da autoridade monetária, especialmente em um ambiente marcado por risco fiscal e pelo avanço do calendário eleitoral. A dinâmica do câmbio passa a ser um ponto crucial de acompanhamento, pois pode limitar a continuidade do ciclo de cortes da Selic. 

01:41 — Feriado

Antes do feriado desta sexta-feira (19) nos EUA, os índices americanos reagiram positivamente ao memorando de entendimento de 14 pontos assinado entre os EUA e o Irã, interpretado como um passo relevante para encerrar meses de hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz.

A suspensão dos combates por 60 dias, o fim do bloqueio naval americano e a possibilidade de remoção gradual das sanções contra Teerã contribuíram para reduzir o prêmio de risco geopolítico, levando o petróleo Brent para perto de US$ 80 por barril e impulsionando tanto ações quanto títulos.

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O S&P 500 avançou 1,1%, o Nasdaq subiu 1,9% e o setor de tecnologia teve desempenho particularmente forte, com alta de 2,9% do ETF iShares U.S. Technology. Ao mesmo tempo, os investidores passaram a lidar com uma mudança importante no Federal Reserve sob a presidência de Kevin Warsh, cuja primeira reunião trouxe uma mensagem mais dura do que o esperado.

Embora o Fed tenha mantido os juros estáveis pela quarta reunião consecutiva, a ausência de orientação futura e o foco explícito no combate à inflação levaram o mercado a precificar mais de 80% de chance de alta dos juros em setembro, além de mais de um aumento até outubro. Ainda assim, a queda recente dos preços de energia pode aliviar a inflação nos próximos meses e reduzir a necessidade de novas altas, especialmente se a trégua com o Irã se sustentar.

A próxima semana será importante para calibrar essa leitura, com a divulgação do índice PCE de maio, indicador de inflação preferido do Fed, além dos PMIs, das vendas de novas casas, dos pedidos de bens duráveis e dos balanços de empresas como FedEx e Micron Technology

02:39 — Adiamento 

Os Estados Unidos e o Irã adiaram o início das negociações sobre um acordo de paz e sobre a restrição do programa nuclear iraniano, inicialmente previstas para ocorrer na Suíça. A justificativa oficial ainda não está totalmente clara: a Casa Branca atribuiu o adiamento a dificuldades logísticas, enquanto Teerã vinha sinalizando que só avançaria para discussões técnicas após sinais concretos de implementação do acordo interino, especialmente nos pontos ligados à reabertura do Estreito de Ormuz, às isenções para exportação de petróleo e à liberação de ativos congelados.

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O cancelamento da viagem do vice-presidente JD Vance aumentou a incerteza sobre a sustentação da trégua, em meio a novos confrontos entre Israel e militantes do Hezbollah no sul do Líbano, episódio que ampliou a pressão política sobre o acordo. 

O memorando provisório assinado por Donald TrumpMasoud Pezeshkian reduziu parte do risco geopolítico imediato, permitiu a retomada parcial do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz e trouxe algum alívio aos preços da energia. Ainda assim, os mercados passaram a interpretar o acordo com mais cautela, uma vez que a normalização das cadeias logísticas e energéticas pode levar meses, enquanto o Irã mantém restrições operacionais à navegação durante as operações de desminagem.

O texto prevê uma janela de 60 dias para negociar o status do programa nuclear iraniano, a redução do grau de enriquecimento do material nuclear em território iraniano sob supervisão da AIEA, isenções para exportações de petróleo, acesso a cerca de US$ 24 bilhões em fundos congelados e um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões. Os pontos mais sensíveis, porém, foram deixados para uma etapa posterior.  

No plano político e estratégico, o acordo enfrenta resistência em Washington, em Israel e entre aliados regionais, sobretudo pela percepção de que Teerã recebeu concessões relevantes antes de assumir compromissos mais claros sobre seu programa nuclear. Ao mesmo tempo, os EUA ampliaram sanções contra autoridades libanesas e redes empresariais associadas ao Hezbollah, acusadas de obstruir o processo de paz e financiar o grupo.

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Para o Irã, o acordo oferece um alívio econômico, mas também expõe fragilidades internas: a liderança do país está enfraquecida, há sinais de instabilidade política e o fim da guerra pode reduzir o efeito de coesão nacional. Assim, embora tenha diminuído as incertezas de curto prazo, o acordo ainda parece mais um arcabouço político do que uma solução operacional definitiva. 

03:23 — O Projeto Manhattan do século XXI 

Anthropic enviou executivos a Washington para tentar reverter a proibição imposta pelo governo Trump ao uso do Fable 5 (versão do Claude) por estrangeiros, medida que levou a empresa a suspender totalmente o acesso ao modelo. 

Como já comentamos, lançado como uma versão supostamente mais segura do ainda inédito (e muito polêmico) Mythos, o Fable 5 foi restringido por motivos de segurança nacional, após autoridades apontarem riscos de que suas salvaguardas fossem contornadas por agentes mal-intencionados. A decisão teria sido tomada depois de alertas da Amazon, investidora da Anthropic, sobre possíveis formas de desbloquear o modelo para fins ofensivos.

A empresa, por sua vez, argumenta que recebeu pouco tempo e poucos detalhes para responder às preocupações do governo, enquanto profissionais de cibersegurança defendem que modelos avançados também são necessários para fortalecer sistemas contra ataques. Em paralelo, a Anthropic ainda enfrenta uma disputa com o Departamento de Defesa, buscando reverter sua classificação como risco para a cadeia de suprimentos. 

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O episódio, porém, é apresentado como algo maior do que uma disputa regulatória envolvendo uma única empresa. A restrição ao Fable e ao Mythos é interpretada como uma continuação da estratégia americana de controle tecnológico, semelhante ao que já ocorreu com chips avançados, Nvidia e ASML: primeiro veio o controle sobre o silício; agora, o controle sobre os próprios modelos de inteligência artificial.

Nesse cenário, o acesso à melhor inteligência do mundo poderia se tornar um ativo nacionalizado, reservado prioritariamente a cidadãos, empresas e estruturas americanas. Isso abriria espaço para soluções alternativas, como empresas de fachada, diretores residentes e estruturas nos EUA, mas essas brechas tenderiam a favorecer apenas quem tem capital e sofisticação jurídica para acessá-las, ampliando a desigualdade nessa frente tecnológica. Ao mesmo tempo, bloquear modelos fechados para o resto do mundo poderia fortalecer o movimento de código aberto e beneficiar concorrentes dispostos a atender os usuários excluídos. 

Trocando em miúdos, a tese central é que a inteligência artificial pode se tornar uma nova moeda de poder, tão estratégica quanto o dólar, o petróleo ou os semicondutores. Ao perceberem que não podem depender plenamente do acesso à inteligência americana, países como Reino Unido, Austrália, membros da Europa e outras nações tenderiam a acelerar projetos de IA soberana.

O problema é que poucos têm capital, energia, infraestrutura e escala para competir com os Estados Unidos, com exceção da China. Assim, ao restringir seus modelos, Washington corre o risco de empurrar parte do mundo para alternativas chinesas ou, no limite, usar o acesso à IA como instrumento de barganha política, militar e econômica.

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A restrição também já teria provocado alta nos preços de hardware, aluguel de computação em nuvem e memória DDR5, enquanto limitações energéticas nos EUA contrastam com a capacidade chinesa de ampliar infraestrutura, produzir memória e lançar modelos cada vez mais competitivos. Nesse sentido, a proibição do Fable é tratada como o início de uma disputa muito mais ampla: uma espécie de Projeto Manhattan do século XXI, centrado não mais na energia nuclear, mas no controle da inteligência. 

04:18 — Mais uma para a conta da virada do pêndulo político 

A eleição presidencial colombiana chega ao segundo turno neste domingo e pode se tornar mais um capítulo de uma tendência que começa a ganhar força na América Latina: o avanço de candidatos de direita depois de um período marcado por governos de esquerda e por uma insatisfação crescente com temas como segurança pública, crescimento econômico e combate ao crime.

Favorito nas pesquisas, Abelardo de la Espriella construiu sua campanha em torno de uma plataforma de tolerância zero à criminalidade, em forte contraste com a estratégia de “Paz Total” defendida por Iván Cepeda, herdeiro político do presidente Gustavo Petro, cuja proposta prioriza negociações com grupos criminosos. A alta dos índices de violência e sequestros acabou desgastando parte do apoio à atual administração e ampliando o apelo de propostas mais duras.

Caso a vitória da direita se confirme, a Colômbia se somará a movimentos semelhantes observados recentemente em outros países da região, como o Peru, reforçando a percepção de uma mudança gradual no humor político latino-americano. A grande questão para os próximos anos é se essa dinâmica continuará se espalhando pelo continente e, sobretudo, se o Brasil seguirá ou não essa mesma trajetória em seu próximo ciclo eleitoral. 

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05:05 — Escala como vantagem competitiva 

A forte correção recente das incorporadoras refletiu um conjunto de preocupações macroeconômicas (inflação, juros, discussões em torno do FGTS e incertezas geopolíticas), que acabou penalizando o setor de forma indiscriminada.

No entanto, as mensagens transmitidas pelos principais executivos do segmento durante o Real Estate Day do BTG Pactual foram mais construtivas do que a percepção embutida nos preços das ações.

A demanda por habitação econômica segue sustentada por fatores estruturais, como o elevado déficit habitacional, um mercado de trabalho ainda resiliente e condições de financiamento relativamente favoráveis ao público-alvo dessas companhias. Ao mesmo tempo, a inflação de custos continua sendo um ponto de monitoramento, mas não representa, por ora, uma ameaça estrutural para empresas com escala, disciplina operacional e capacidade de repasse. 

Nesse contexto, a escala se consolida como um dos principais diferenciais competitivos do setor. Em um mercado cada vez mais exigente, a capacidade de adquirir terrenos, acessar funding, contratar mão de obra, administrar subsídios e executar múltiplos projetos simultaneamente tornou-se uma barreira de entrada relevante, favorecendo os líderes já estabelecidos.

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Embora desafios como a disponibilidade de recursos do FGTS, a escassez de mão de obra e os entraves regulatórios sigam presentes, a expectativa é de um crescimento mais disciplinado, com foco em rentabilidade, velocidade de vendas e preservação de margens. 

Para a Direcional (DIRR3), esse ambiente parece particularmente favorável. A companhia combina demanda resiliente, elevada capacidade de execução, disciplina na alocação de capital e um histórico consistente de navegação por diferentes ciclos econômicos. Mesmo sob premissas conservadoras, nossas estimativas apontam para um lucro superior a R$ 1 bilhão no próximo ano, enquanto a recente correção das ações levou os múltiplos a patamares atrativos.

Em nossa avaliação, o mercado incorporou um grau de pessimismo superior ao que os fundamentos justificam, criando uma oportunidade em uma empresa que segue entregando resultados sólidos e preservando importantes vetores de crescimento para os próximos anos. 

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.