Imagem: iStock/sankai
A escalada das tensões no Oriente Médio levou o petróleo Brent a atingir a flertar com os US$ 120 por barril novamente, após relatos de que Donald Trump avalia novas opções militares contra o Irã e condiciona o fim do bloqueio naval a um acordo nuclear.
Esse contexto reforça o risco de um choque relevante de oferta, sobretudo diante do comprometimento do Estreito de Ormuz, sustentando preços elevados e ampliando as pressões inflacionárias em escala global.
Em paralelo, o Federal Reserve manteve a taxa de juros inalterada, mas com uma divisão interna significativa na última reunião de Jerome Powell como presidente, sinalizando um ambiente mais complexo para a condução da política monetária, especialmente diante da iminente transição para Kevin Warsh. A valorização do dólar e a pressão sobre moedas como o iene refletem esse cenário de divergência de juros e maior aversão a risco.
No campo corporativo, a temporada de resultados apresentou números robustos, ainda que acompanhados por uma reação mais seletiva do mercado. Alphabet e Amazon se destacaram positivamente no avanço em inteligência artificial, enquanto a Microsoft reportou receitas robustas, sem, contudo, dissipar integralmente as preocupações dos investidores. Já a Meta foi penalizada após elevar de forma relevante suas projeções de investimento em IA, trazendo maior atenção para a relação entre capex e retorno.
Bancos europeus também superaram as expectativas, contribuindo para um pano de fundo de resultados consistentes. Ainda assim, o ambiente global permanece marcado por elevada incerteza, com decisões de política monetária, como as do Banco da Inglaterra e do Banco Central Europeu, e indicadores relevantes nos Estados Unidos, como PIB e PCE, sendo monitorados de perto para calibrar as expectativas de crescimento e inflação para os próximos meses.
· 00:53 — Qual a convicção para o corte?
No Brasil, mesmo antes da decisão do Banco Central, a combinação entre a escalada geopolítica e a postura mais firme do Federal Reserve já havia elevado de forma relevante a tensão nos mercados.
Esse ambiente desencadeou uma reação defensiva global, com alta dos Treasuries, valorização do dólar, que voltou à casa de R$ 5, e abertura expressiva da curva de juros doméstica, pressionando os ativos de risco.
Em seguida, o Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou as expectativas ao reduzir a Selic em 25 pontos-base, para 14,50% ao ano. Até aqui, nenhuma surpresa.
A mudança, contudo, esteve no tom: o Banco Central adotou uma comunicação mais cautelosa, refletindo a deterioração das expectativas inflacionárias. A projeção para o horizonte relevante, agora deslocado para o quarto trimestre de 2027, foi elevada para 3,5%, representando um aumento de 50 pontos-base em apenas quatro meses.
Embora o Comitê tenha evitado um discurso explicitamente mais duro e mantenha a possibilidade de cortes graduais, o espaço para flexibilização torna-se mais limitado, sobretudo na ausência de normalização do Estreito de Ormuz.
Nesse contexto, ainda é possível vislumbrar novas reduções de juros nos próximos meses, mas o Banco Central pode ser levado a interromper temporariamente o ciclo para preservar a estabilidade do câmbio e evitar uma deterioração adicional das expectativas.
A credibilidade da política monetária segue como elemento central, e eventuais desvios podem ter custos elevados. Do ponto de vista de mercado, esse cenário tende a favorecer o real no curto prazo, mas mantém a curva de juros pressionada, o que penaliza empresas mais sensíveis a taxas e, por outro lado, pode oferecer algum suporte ao Ibovespa via companhias ligadas a commodities.
No ambiente político, o Senado impôs uma derrota histórica ao governo Lula ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao STF, algo que não ocorria há mais de um século, desde o governo de Floriano Peixoto. O episódio evidencia um desgaste relevante na articulação política do Executivo e sugere um Congresso mais assertivo e menos alinhado, o que pode indicar que a percepção sobre a reeleição de Lula está longe de ser consensual.
Esse aumento de incerteza política tende a ganhar relevância ao longo do ciclo eleitoral e pode, em um segundo momento, dialogar com movimentos de mercado típicos desse período, incluindo a possibilidade de um rali eleitoral.
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· 01:48 — Vai ficar
O Federal Reserve manteve a taxa de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% pela terceira reunião consecutiva, em linha com as expectativas do mercado, mas adotou uma comunicação mais firme, refletindo a deterioração do ambiente macroeconômico.
O choque de energia decorrente da guerra no Oriente Médio, ainda sem ter atingido seu pico, foi destacado como um vetor relevante de pressão sobre a inflação e as cadeias de suprimento, ampliando a incerteza em relação ao crescimento.
No plano interno, o aumento do dissenso no Comitê, evidenciado por votos divergentes e questionamentos ao viés de afrouxamento, sinaliza que o espaço para cortes de juros está sendo reavaliado. Na prática, o Fed consolida uma postura mais cautelosa e dependente de dados, enquanto o mercado já desloca para mais adiante as expectativas de início da flexibilização monetária.
Ao mesmo tempo, a reunião marcou a última participação de Jerome Powell como presidente, em um contexto de elevada divisão interna, algo que não se observava desde 1992. Ainda assim, Powell indicou a intenção de permanecer como membro do conselho até 2028, reforçando a autonomia institucional do Fed em meio a pressões políticas e à iminente transição para Kevin Warsh, que vai ter que lidar com a pressão para cortar.
O pano de fundo segue sendo de juros elevados por mais tempo, com a inflação ainda persistente, especialmente caso o núcleo (core PCE) permaneça próximo de 3,5% ao ano, e um cenário global mais desafiador, que limita a possibilidade de cortes e mantém a autoridade monetária em compasso de espera.
· 02:36 — Trilhões de dólares em valor de mercado
Os resultados das grandes empresas de tecnologia reforçam a robustez operacional do setor, que reúne companhias com valor de mercado agregado na casa de dezenas de trilhões de dólares, mas também evidenciam uma mudança importante na forma como o mercado os avalia: há menos ênfase no desempenho passado e maior foco nas perspectivas futuras, especialmente em inteligência artificial e no nível de investimentos.
A Microsoft reportou lucro por ação de US$ 4,27 e receita de US$ 82,9 bilhões, ambos acima do esperado, com destaque para o crescimento de 39% do Azure e uma receita anual de IA já em US$ 37 bilhões (+123% a/a). Ainda assim, a reação das ações foi contida, refletindo um ambiente mais exigente por parte dos investidores.
Já a Alphabet se destacou positivamente, com alta superior a 6% no after market após divulgar receita acima do consenso (US$ 94,7 bilhões ex-TAC, frente a US$ 91,6 bilhões esperados) e forte expansão de lucros, reforçando sua posição entre as principais plataformas digitais globais.
Em contraste, a queda próxima de 7% da Meta ilustra com clareza o novo foco do mercado: a magnitude dos investimentos. Apesar de resultados operacionais sólidos, a empresa elevou seu guidance de capex para um intervalo entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões, acima das expectativas, o que trouxe questionamentos sobre o retorno desses gastos.
A Amazon, por sua vez, também apresentou números robustos, com lucro de US$ 30,25 bilhões (+76,6%) e crescimento acelerado na área de computação em nuvem, mas chamou atenção pelo aumento expressivo dos investimentos, que somaram US$ 44,2 bilhões no trimestre.
Em conjunto, os resultados apontam para um setor ainda altamente lucrativo e dominante, mas que entra em uma fase mais intensiva em capital, na qual a disputa por liderança em inteligência artificial passa a redefinir expectativas e torna o mercado mais seletivo, mesmo diante de empresas de escala trilionária.
· 03:27 — Um flerte perigoso
A escalada das tensões no Oriente Médio levou o petróleo Brent a flertar novamente com os US$ 120, refletindo o chamado “prêmio de guerra” (ou geopolítico). Declarações de Donald Trump sinalizando a possibilidade de nova ação militar contra o Irã, somadas à preparação de planos de ataque pelos EUA e ao impasse nas negociações, reforçam a percepção de um choque relevante de oferta, especialmente diante da continuidade do fechamento do Estreito de Ormuz. Nesse ambiente, o mercado passa a precificar uma interrupção mais prolongada dos fluxos de petróleo, sustentando a expectativa de preços elevados até sinais concretos de normalização.
Paralelamente, decisões estratégicas, como o possível uso de armamentos mais avançados pelos americanos e a postura defensiva da China para garantir seu abastecimento energético, evidenciam a natureza sistêmica do choque. Em conjunto, esses fatores apontam para um ambiente de maior pressão inflacionária e elevação do risco macroeconômico global, em um estágio em que os impactos do conflito deixam de ser regionais e passam a influenciar a dinâmica econômica internacional.
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· 04:15 — O próximo alvo de Trump
Cuba atravessa uma de suas mais graves crises econômicas em décadas, caracterizada por apagões recorrentes, escassez de combustível, deterioração de serviços essenciais e um fluxo migratório que já levou mais de 10% da população a deixar o país.
Nesse contexto, intensifica-se a pressão americana, com Donald Trump sinalizando interesse em um acordo que permita a abertura da ilha a investimentos e ao turismo americano, movimento que só faz sentido se houver uma troca de regime.
O principal entrave, no entanto, é estrutural. A ausência de uma oposição política organizada limita alternativas de transição, enquanto um eventual acordo de natureza predominantemente econômica pode gerar tensões no cenário doméstico americano, sobretudo entre eleitores cubano-americanos. Em última instância, a questão cubana se revela menos como um problema de viabilidade imediata e mais como um tema inserido em uma dinâmica mais ampla de geopolítica e disputa de narrativas.
· 05:09 — Na fronteira
Para além do forte resultado divulgado ontem, o novo white paper do Google reforça o protagonismo da companhia na fronteira tecnológica ao indicar que avanços em computação quântica podem reduzir em até 20 vezes os recursos necessários para quebrar a criptografia tradicional, um ponto de atenção relevante para sistemas como o bitcoin, cuja segurança depende justamente da dificuldade computacional.
Embora ainda não exista um computador quântico capaz de explorar essa vulnerabilidade de forma prática, a estimativa de até 10% de probabilidade de isso ocorrer até 2030, somada ao plano do próprio Google de migrar sua infraestrutura para criptografia pós-quântica até 2029, evidencia não apenas um risco emergente, mas, sobretudo, a capacidade da empresa de antecipar e se posicionar diante dessas transformações.
Em um contexto em que ativos digitais e a tokenização de ativos do mundo real podem ultrapassar US$ 16 trilhões até o fim da década, essa leitura ganha ainda mais relevância. Do ponto de vista de investimento, a mensagem é menos sobre um risco imediato e mais sobre a consolidação do Google como um dos principais arquitetos da próxima geração da infraestrutura digital global — integrando inteligência artificial, computação em nuvem e, agora, avanços em computação quântica.
Essa combinação reforça a tese estrutural da companhia como um ativo central na nova economia tecnológica, com múltiplas avenidas de crescimento e captura de valor ao longo do tempo. Para o investidor brasileiro, essa exposição pode ser acessada de forma eficiente por meio das BDRs GOGL34, que permitem participar dessa trajetória de inovação e liderança global diretamente no mercado local.