Imagem: Saulo Cruz/Agência Senado
Os mercados globais operam em tom misto nesta quinta-feira, com investidores divididos entre a cúpula de Donald Trump e Xi Jinping, em Pequim, e os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã.
Na Ásia, o desempenho foi heterogêneo: o Nikkei recuou 0,98%, Shanghai caiu 1,52%, enquanto o Kospi sul-coreano avançou 1,75%, impulsionado principalmente pelo forte desempenho das empresas de tecnologia e semicondutores.
Na Europa, as bolsas operam em leve alta, acompanhando o movimento positivo de Wall Street, onde Nasdaq e S&P 500 renovaram máximas históricas sustentados pelo rali ligado à inteligência artificial.
O petróleo permanece em patamares elevados, embora com avanço mais moderado. Ainda assim, parte relevante do mercado segue relativamente complacente em relação aos riscos geopolíticos, priorizando o forte crescimento do setor de tecnologia e a expectativa de avanços diplomáticos entre Estados Unidos e China.
Nos mercados, os dados mais fortes de inflação ao produtor nos Estados Unidos reforçaram a percepção de juros elevados por mais tempo, enquanto o Brasil voltou a sofrer influência do ambiente político doméstico após novas controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro e o anúncio de novos subsídios aos combustíveis pelo governo Lula. Com a volatilidade de ontem, resta a dúvida: o que vai acontecer com o rali eleitoral?
· 00:52 — Humor eleitoral contamina ativos de risco
No Brasil, os ativos domésticos atravessaram uma sessão de forte turbulência. O Ibovespa chegou a se aproximar da perda dos 177 mil pontos após recuar 1,8%, enquanto o real, que vinha relativamente resiliente diante da percepção de enfraquecimento global do dólar, do suporte proporcionado pela balança comercial e do elevado diferencial de juros, perdeu força com a alta de 2,3% da moeda americana, que voltou ao patamar de R$ 5.
O principal gatilho do movimento foi a reportagem do Intercept que associou o pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master. Como Flávio é atualmente percebido por parte relevante do mercado como o nome mais competitivo da oposição para 2026, qualquer potencial desgaste político tende a afetar a leitura sobre uma eventual mudança de direção da política econômica brasileira no próximo ciclo eleitoral.
Sobre o tema, participei ontem de uma live extraordinária do Market Makers ao lado de Thiago Salomão, Walter Maciel, Felipe Moura Brasil e Renan Santos. Clique aqui para conferir. Ainda é cedo para afirmar se o episódio terá impacto estrutural sobre o processo eleitoral, que permanece distante, mas a reação do mercado evidencia o peso que a discussão fiscal continua exercendo sobre os preços dos ativos brasileiros.
O movimento foi agravado pelo anúncio do governo Lula de novos subsídios para gasolina e diesel, medida que aprofundou a deterioração dos ativos domésticos ao ampliar as preocupações fiscais. A percepção predominante é de que o movimento amplia a conta fiscal que inevitavelmente precisará ser enfrentada mais adiante por meio de algum tipo de ajuste a partir do ano que vem, especialmente considerando que o custo potencial do programa pode atingir bilhões de reais em poucos meses caso os subsídios sejam utilizados integralmente.
Esse ambiente ajuda a explicar a abertura da curva de juros e a piora adicional do humor local. Ainda assim, continuo entendendo que existe espaço para um eventual rali eleitoral nos ativos brasileiros ao longo do ciclo, embora isso provavelmente dependa de uma reorganização mais clara das forças políticas de oposição e da consolidação de uma agenda econômica percebida como mais comprometida com a sustentabilidade fiscal de longo prazo.
· 01:37 — Pressão dos dados
Nos Estados Unidos, os mercados voltaram a renovar máximas históricas, impulsionados principalmente pela força do setor de tecnologia. Ainda assim, o pano de fundo macroeconômico continua desafiador. O índice de preços ao produtor (PPI) de abril surpreendeu negativamente, com alta de 1,4% no mês e de 6% em 12 meses, o maior avanço anual desde o fim de 2022, sinalizando que as pressões inflacionárias começam a se espalhar para além da energia.
A alta dos preços de serviços, alimentos perecíveis e custos de transporte reforça a percepção de que o choque provocado pela valorização do petróleo em meio à guerra envolvendo o Irã segue contaminando a economia americana de maneira mais ampla.
Nesse contexto, a política monetária americana permanece no centro das atenções. O Federal Reserve enfrenta um ambiente cada vez mais complexo, no qual inflação resiliente convive com um mercado de trabalho ainda relativamente sólido e um consumo sustentado por restituições tributárias elevadas.
Na agenda desta quinta-feira, o foco dos investidores se volta para os dados de vendas no varejo de abril, com expectativa de desaceleração em relação ao forte resultado observado em março, embora o consumo continue mostrando resiliência.
O mercado também acompanhará discursos de diversos dirigentes do Fed, como Jeffrey Schmid, Beth Hammack, John Williams e Michael Barr, em busca de novos sinais sobre a trajetória dos juros. Apesar da expectativa de moderação gradual da atividade econômica ao longo do segundo trimestre, os dados continuam reforçando a leitura de juros elevados por mais tempo nos EUA.
· 02:29 — Oficializado
Kevin Warsh foi oficialmente confirmado pelo Senado americano como o novo presidente do Federal Reserve após uma das votações mais apertadas desde que o processo de confirmação passou a ser obrigatório.
Ex-executivo do Morgan Stanley e ex-integrante do Fed durante a crise financeira de 2008, Warsh assumirá o comando da autoridade monetária no lugar de Jerome Powell em um momento particularmente delicado para a economia americana.
Durante o processo de confirmação, reforçou o compromisso com uma política monetária “estritamente independente”, defendendo foco rigoroso no duplo mandato do Fed, estabilidade de preços e pleno emprego. Além disso, sinalizou intenção de promover mudanças relevantes na comunicação da instituição e conduzir uma redução gradual do balanço patrimonial do banco central, atualmente em torno de US$ 6,7 trilhões. Sua chegada ocorre em um ambiente marcado pela reaceleração recente da inflação americana, impulsionada principalmente pela alta dos preços de energia em meio à guerra envolvendo o Irã, além da continuidade da pressão sobre os juros longos nos Estados Unidos.
Embora historicamente tenha sido visto como um nome mais conservador dentro do Fed, Warsh passou recentemente a defender uma visão mais construtiva sobre os impactos da produtividade e da inteligência artificial na economia, argumentando que o avanço da IA pode gerar pressões desinflacionárias estruturais ao longo do tempo.
Ainda assim, o cenário atual tende a limitar movimentos mais agressivos de flexibilização monetária no curto prazo, já que a inflação permanece pressionada enquanto o mercado de trabalho segue relativamente resiliente.
O mercado também acompanha com atenção a permanência de Powell no Conselho de Governadores durante o andamento de uma investigação do Departamento de Justiça, fator que alimenta discussões sobre uma possível influência paralela dentro da autoridade monetária. Em paralelo, investidores continuam se preparando para um ambiente de juros elevados por mais tempo, dinâmica refletida na alta recente dos rendimentos dos Treasuries americanos, especialmente nos vencimentos mais longos.
· 03:16 — Os primeiros sinais da cúpula
A cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, realizada em Pequim, tem sido marcada por uma combinação delicada entre cordialidade diplomática, pragmatismo econômico e tensões geopolíticas profundas. Publicamente, os dois líderes adotaram um tom conciliador, reforçando a ideia de cooperação entre as duas maiores economias do mundo.
Xi afirmou que China e Estados Unidos “devem ser parceiros, não rivais”, enquanto Trump enfatizou a boa relação pessoal entre ambos. A visita também carregou forte simbolismo político e empresarial, incluindo a presença de executivos como Elon Musk e Jensen Huang, da NVIDIA, além de discussões envolvendo comércio, inteligência artificial, semicondutores, agricultura, energia e a possível criação de um novo “Conselho de Comércio” bilateral.
Pequim, por sua vez, sinalizou disposição para ampliar a abertura econômica e retomar parte das compras de produtos americanos, como soja, carne bovina e aeronaves da Boeing.
Apesar do ambiente aparentemente cordial, o pano de fundo da reunião permaneceu carregado de disputas estratégicas. Taiwan voltou a ocupar posição central nas conversas, com Xi alertando explicitamente que uma má condução do tema poderia levar a “colisões ou mesmo confrontos”, evidenciando o grau de sensibilidade das linhas vermelhas chinesas.
Ao mesmo tempo, o Oriente Médio surgiu como uma variável relevante na relação entre os dois países. A China depende fortemente do petróleo e do gás provenientes do Golfo, enquanto os Estados Unidos buscam evitar uma escalada da guerra envolvendo o Irã que possa ampliar ainda mais as pressões inflacionárias globais.
Nesse contexto, Pequim tenta utilizar sua influência econômica sobre Teerã como instrumento de barganha diplomática, oferecendo possíveis incentivos econômicos ao Irã em troca de estabilidade regional e, potencialmente, concessões americanas em temas considerados estratégicos.
Os mercados reagiram à cúpula com alívio. O yuan se fortaleceu, os títulos ganharam valor e os investidores interpretaram o encontro como mais um esforço para estabilizar temporariamente a relação bilateral e evitar uma nova escalada comercial no curto prazo.
Ainda assim, os temas mais sensíveis, como controle de exportações de tecnologia, acesso chinês a chips avançados, minerais críticos, terras raras e investimentos estratégicos, foram, em grande parte, postergados para negociações futuras. O encontro acabou reforçando uma percepção cada vez mais presente nos mercados globais: Estados Unidos e China seguem presos a uma relação simultaneamente cooperativa e competitiva, na qual a interdependência econômica convive com uma rivalidade geopolítica, tecnológica e militar cada vez mais evidente.
· 04:11 — Fugindo dos metais preciosos
A Índia elevou de 6% para 15% as tarifas de importação de ouro e prata em uma tentativa de aliviar a pressão sobre suas reservas cambiais e conter a desvalorização da rupia em meio ao prolongamento da guerra envolvendo o Irã e à alta dos custos de energia.
A decisão veio poucos dias após o primeiro-ministro Narendra Modi pedir à população que reduzisse compras de ouro, viagens internacionais e consumo de combustíveis, em um esforço para preservar dólares e diminuir o déficit externo do país.
Como a Índia depende fortemente da importação de metais preciosos, que representam cerca de 11% das importações totais, o governo busca reduzir a saída de capital e estabilizar a moeda, que acumula forte desvalorização em 2026 e vem sendo pressionada pela retirada de investimentos estrangeiros do mercado acionário local.
Contudo, a medida pode elevar ainda mais os preços domésticos do ouro, estimular o contrabando e pressionar o setor de joalherias, embora possa beneficiar ETFs e instrumentos financeiros ligados a metais preciosos, como os que recomendamos aqui. Ainda assim, o foco de preocupação permanece sendo o petróleo, já que a continuidade da guerra no Oriente Médio mantém elevada a pressão sobre energia, inflação e contas externas da economia indiana.
O movimento evidencia como o conflito geopolítico começa a produzir efeitos cada vez mais amplos sobre economias emergentes altamente dependentes de energia e importações estratégicas.
· 05:08 — Negócio da China?
Algumas das últimas interações entre China e Estados Unidos costumavam aumentar a cautela dos mercados, diante dos frequentes conflitos comerciais. Desta vez, porém, o encontro trouxe um sinal diferente para o cenário global.
Isso porque, ontem (13), Trump aterrissou em Pequim — algo que não acontecia há quase uma década — visando ampliar o acesso das empresas americanas ao mercado chinês.
Além de sua equipe, o presidente americano trouxe consigo alguns dos CEOs mais influentes do planeta, como Tim Cook (Apple), Elon Musk (Tesla) e Larry Fink (BlackRock), deixando claro que tecnologia e finanças estariam no centro das discussões.
Mas uma ausência na lista inicial acabou se tornando um dos principais pontos de discussão entre os investidores: a de Jensen Huang, CEO da Nvidia — simplesmente a empresa de maior valor de mercado do mundo, na vanguarda da tecnologia necessária para o pleno desenvolvimento da inteligência artificial.
Contudo, após uma reação negativa dos mercados, notícias apontam que o presidente Trump, pessoalmente, estendeu o convite a Huang, que se juntou à comitiva em direção ao gigante asiático.
Um dos principais fatores que motivaram a ida do executivo a Pequim foi a possibilidade de destravar a autorização para a venda de chips de inteligência artificial H200 no país, buscando recuperar o market share perdido após as restrições impostas por Washington abrirem espaço para concorrentes chineses no mercado local.
Nesse ambiente mais favorável ao estreitamento comercial, os ETFs de semicondutores (SOXX e SMH) fecharam o pregão de quarta-feira com alta superior a 2% — em grande parte devido ao bom desempenho das ações da Nvidia, que registraram valorização semelhante.
Entretanto, apesar da alta de quase 20% das ações da Nvidia no ano, o desempenho ainda fica bem abaixo do apresentado pelos ETFs no mesmo intervalo (+68% e +53%, respectivamente).
Ainda assim, quando comparada aos múltiplos negociados por seus pares e à própria média histórica dos últimos cinco anos, a Nvidia segue sendo negociada com desconto relevante, especialmente ao se considerar a projeção de quase US$ 1 trilhão em receita acumulada entre 2025 e 2027, além de sua relevância global no mercado de chips para inteligência artificial.
Dentro desse racional, e com a aproximação da divulgação dos resultados na próxima quarta-feira (20), entendo que as ações da Nvidia (B3: NVDC34 | Nasdaq: NVDA) apresentam uma relação risco-retorno interessante nos preços atuais.
Tanto que sugerimos a compra das ações em nosso novo conteúdo voltado para ações internacionais, o BDR Trading — no qual buscamos oportunidades de compra e venda de ativos nos mercados globais, aliando análise fundamentalista e técnica. Para quem tem interesse em oportunidades com horizonte mais curto, fica o convite para conhecer esse material.